Ab-reação: significado na Psicanálise

Posted on Posted in Comportamento, Psicanálise

Você sabe o que significa ab-reação, também grafada abreação? Este artigo será enriquecedor, vamos tratar do tema em suas diversas dimensões. Vamos mostrar como o fenômeno da ab-reação é abordado na Psicanálise e na Psicologia, e como este conceito nos ajuda a compreender mentes e comportamentos.

Segundo Laplanche & Pontalis (“Vocabulário de Psicanálise”), ab-reação é a “descarga emocional pela qual um sujeito se liberta do afeto ligado à recordação de um acontecimento traumático“. Isso permitiria que este afeto (energia vinculada a traços de memória) não continue na condição patogênica. Isto é, ao ab-reagir, o sujeito toma consciência da origem do seu sintoma e lhe dá uma resposta emocional, no sentido de interrompê-lo.

Ab-reação como missão da terapia

Na fase inicial dos trabalhos de Freud (com Breuer), a ab-reação era alcançada especialmente sob hipnose ou sob estado hipnótico. O método catártico visava, pela sugestão hipnótica e pela técnica da pressão, produzir um efeito emocional forte no paciente. Este momento também poderia surgir de modo espontâneo. Nesta época, Freud enfatizava a importância do trauma: a ab-reação retoma 0 traumatismo psíquico inicial para superá-lo.

Para Freud, se essa reação for reprimida (unterdrückt), o afeto se conservará ligado à recordação, gerando sintomas. Laplanche & Pontalis entendem que a ab-reação seria o caminho normal que permitiria ao sujeito reagir a um acontecimento potencialmente traumático. Com isso, evitar que este acontecimento conserve um quantum de afeto demasiado importante para continuar gerando dor psíquica. No entanto, seria importante que essa reação fosse “adequada” para que pudesse provocar um efeito catártico.

Simplificando o significado de ab-reação

Falando de uma forma simplória, a ab-reação é quando “cai a ficha” do analisando e ele assimila que um determinado sintoma ou incômodo está vinculado a uma motivação que, até então, restava inconsciente e que veio à consciência. E, sobre isso, reage com uma energia psíquica significativamente forte para interromper os efeitos patogênicos anteriores.

Esta ab-reação poderia ser:

  • espontânea: sem a intervenção clínica, mas sim logo em sequência ao evento traumático com um intervalo tão curto, de modo que impeça que a sua recordação se carregue de um afeto muito importante para se tornar patogênico; ou
  • secundária: provocada pela psicoterapia de natureza catártica, que permitiria ao paciente rememorar e tornar tangível pela palavra o evento traumático; ao fazer isso, o paciente se liberaria da quantidade de afeto reprimido que tornava este evento patogênico.

Freud percebe já em 1895: “É na linguagem que o homem acha um substituto para o ato, substituto graças ao qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira.” Então, mesmo Freud ainda estando vinculado ao método catártico nesta época, coloca a palavra como central para o sujeito elaborar a ab-reação. Esta centralidade da palavra estará ainda mais presente na fase posterior de maturidade da obra de Freud, com o método da associação livre.

Ab-reação catártica versus perlaboração da associação livre

Como vimos, na sua fase inicial, Freud entendia que a ab-reação

  • dava-se por meio da resposta emocional do paciente (catarse)
  • como forma de romper o vínculo (afeto) com um motivo inconsciente gerador dos sintomas.

Depois, a psicanálise passou a entender que um resultado semelhante poderia ocorrer tanto pela ab-reação, quanto por um processo contínuo e gradual (sessão após sessão) da terapia.

A ab-reação total não é a maneira exclusiva pela qual o sujeito pode se desvencilhar da recordação de algum acontecimento traumático. O método tardio de Freud (associação livre) entende que a recordação pode ser também integrada à consciência do sujeito por meio de uma série associativa de ideias, que permita a compreensão, assimilação e correção do acontecimento.

Para Laplanche & Pontalis, “enfatizar exclusivamente a ab-reação na eficácia da psicoterapia é antes de mais nada uma característica do período chamado do método catártico”.

De toda forma, é importante lembrar que, ainda que o aspecto catártico (emocional) deixe de ser central na psicanálise freudiana, a Psicanálise continuará entendendo que a ab-reação (ou algo similar a isso) de certa forma ocorre com os vários insights que o paciente tem durante a terapia, pelo método da associação livre.

Leia Também:  Psicanálise e Combate à Exploração Sexual Infantil

O que impede o paciente de ab-reagir?

Breuer e Freud (em “Estudos sobre a histeria”) procuram destacar três distintas situações que impedem o paciente de ab-reagir:

  • Por causa do estado psíquico que este encontra no sujeito: pavor, auto-hipnose, estado hipnóide. Esta razão é relacionada à histeria hipnoide.
  • Por causa de circunstâncias principalment sociais, que obrigam o sujeito a reter as suas reações. Esta razão é vinculada à histeria de retenção.
  • Por causa do recalque ou repressão: por ser menos doloroso ao sujeito reprimir para fora do seu pensamento consciente. Esta razão é associada à histeria de defesa.

Logo após a publicação de Estudos sobre a histeria (Breuer e Freud), Freud manteve apenas a última forma (repressão/recalque).

Cercados por regras sociais

A vida em sociedade impõe padrões, definições de certo e errado, criando assim, um modelo a ser seguido por seus membros. Com o fim de enquadramento nas regras e diretrizes, o ser humano se vê cada mais refém desse enquadramento social. Isso ocorre em detrimento das características psíquicas individuais. Então, há uma busca desenfreada por:

  • ganhos individuais
  • lucros materiais sem medida
  • sucesso
  • tentativa de alcançar o sucesso a todo custo

Esses processos ocorrem mesmo que haja uma perda gradual do moral e de valores.

Uma resposta frente a uma aparente normalidade

Diante deste quadro, a psique humana se torna um terreno fértil para mutações estereotipadas. Elas se adequam a essa realidade social, criando mecanismos para regular ou até mesmo bloquear os impulsos instintivos Ou seja, como forma de resguardo a uma aparente normalidade.

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    Freud divide o funcionamento da mente humana em três instâncias psíquicas que interagem entre si dentro no Modelo Estrutural. Assim definidos, o ID é uma estrutura psíquica primitiva e instintiva voltada à satisfação e ao prazer. É ele quem busca garantir desde o nascimento que as necessidades básicas sejam atendidas, com vista à sobrevivência.

    O EGO, por sua vez, é a maneira pela qual a mente mantém os impulsos e desejos do ID “sob controle”. Por consequência, um mecanismo de manutenção da sanidade mental.

    Por fim, fechando os estágios, o SUPEREGO age como moderador do EGO. Ele proporciona discernimento ao indivíduo daquilo que seria moralmente aceito ou não.

    Sendo assim, estará sempre alicerçado nas experiências vivenciadas ao longo da vida.

    A Ab-reação como uma defesa da psique

    Ao longo da vida, o indivíduo passa por uma série de situações em que seus instintos vão sendo contrapostos às questões éticas e morais do Superego. Cabe ao Ego a difícil tarefa de contrabalancear esses polos tão extremados entre si, bloqueando ocorrências traumáticas. O Ego se utiliza de mecanismos de defesa, podendo ser:

    • negação,
    • deslocamento,
    • sublimação ou
    • qualquer outro artifício que a mente seja capaz de criar na busca de um equilíbrio constante.

    Toda ação gera, necessariamente, uma reação. Mas, conforme dito anteriormente, algumas dessas reações, ou mesmo impulsos originários do ser humano são suprimidos pelo Ego. Isso ocorre de acordo com o seu julgamento. Assim, essas supressões ao longo da vida vão enfraquecendo o “véu” que as esconde e gerando uma ab-reação.

    A ab-reação e a vazão de sentimento causados por eventos traumáticos

    Por se tratar de algo que não se encontra no consciente, sendo algum evento traumático ocorrido no início da infância, a liberação da dor causada ocorre de forma psicossomática.

    A psicossomatização é a forma pela qual a dor bloqueada pelo ego consegue “rasgar o véu” que a mantém escondida do consciente. Ela frustra então o seu controle sobre as emoções. O que acaba desencadeando limitações das atividades funcionais.

    Essa limitações podem ser de ordem motora, respiratória, emocional ou ainda, a ocorrência de vários desses sintomas. Além disso, existindo uma infinidade de meios para a saída dessas emoções represadas ao longo de anos.

    Os eventos traumático e as somatizações

    A amplitude dos efeitos transcende o evento ocorrido. Por exemplo, uma criança que fora agredida de forma física pelos responsáveis e teve esse evento traumático regulado pelo ego, não necessariamente vai somatizá-lo na fase adulta. Ou seja, sendo um pai agressivo.

    As somatizações podem ocorrer desde um adulto que tem dificuldade em falar em público, de se relacionar com mulheres ou tenha dores no corpo… Enfim, uma vasta gama de mecanismos de “pedido de socorro” para que aquela dor, até então inacessível ao consciente, seja curada.

    Leia Também:  Como fazer um TCC: tema, escrita e revisão

    A forma mais comum para o tratamento de uma ab-reação, é medicar o paciente. É necessário reforçar o poder de controle do ego sobre tais emoções. Por conseguinte, o retorno à uma vida “normal”.

    O melhor tratamento para uma ab-reação

    Esse tipo de tratamento, no entanto, na maioria dos casos reconstrói a barreira que mantinha a dor contida. Mas poderá haver um novo enfraquecimento futuro e uma nova somatização do evento traumático. Surgindo assim, um mecanismo de defesa nomeado de conversão.

    Por meio da Psicanálise, por outro lado, a busca está fundamentada em encontrar o sentimento contido e jogá-lo para fora. Assim, um acontecimento que à época não foi capaz de ser compreendido, passaria a ser aceito pelo consciente como algo que causou dor. Mas, que não representa mais uma ameaça, deixando de ser “refém” do ego e passando a integrar o consciente como uma lembrança do passado.

    Revivendo o passado

    Ab-reação é o nome dado à descarga emocional que leva o indivíduo à reviver os sentimentos do evento passado. Vai muito além, da lembrança do fato ou de lágrimas advindas dessa lembrança. Nesse caso, ocorre uma liberação emocional tão intensa que é capaz de fazer com que o indivíduo se veja exatamente no momento do trauma.

    Ou seja, essa descarga emocional traz à tona todos os sentimentos ruins sobre determinado fato. E, caso o indivíduo esteja num estado psíquico em que seja possível uma melhor compreensão, ocorrerá a catarse. A catarse nada mais é que a forma pela qual o trauma é expurgado definitivamente.

    Conclusão sobre a ab-reação

    Por fim, é importante salientar as duas formas mais comuns de se atingir a ab-reação.

    A primeira é um acontecimento espontâneo em que a mente por si só realiza o processo.

    Na segunda, o profissional direciona o paciente a um estado mental ao fazê-lo regredir dentro de si e o faz encontrar o ponto chave.

    Assim, não é o profissional que o leva até o ponto, mas apenas lhe dá ferramentas para que ele trilhe seu próprio caminho e atinja a catarse, o que o prendia.

    Deixe seu comentário abaixo. Este artigo foi criado por Bruna Malta, exclusivamente para o blog do Curso de Formação em Psicanálise.

    16 thoughts on “Ab-reação: significado na Psicanálise

    1. Excelente artigo. Muito prático e bem elaborado. Ajudou bastante na compreensão do tema.

    2. Achei maravilhoso este artigo, pois me esclareceu muito sobre o assunto , obrigado

    3. Na segunda, o profissional direciona o paciente a um estado mental ao fazê-lo regredir dentro de si e o faz encontrar o ponto chave. – Qual a técnica usada para se chegar a este estado mental?

      1. Pode empregar a técnica Regressão por hipnose (sugestiva)… Ou buscar eventos passados vividos com as mesmas emoções, o que o levará ao um estado psíquico semelhante.

    4. Espetáculo de explicação! você é demais. Parabéns. Estou fazendo o curso e isso não estava tao claro em minha mente.

    5. Conteúdo de extrema valia, me acrescentou muito conhecimento, bem esclarecedor, em pontos bem específicos do qual vivo. top

    6. Parabéns pelo resumo! Gostei muito é de fácil compreensão, me fez entender melhor! Obrigada!

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.