Oskar Pfister

Oskar Pfister: trajetória do pastor e psicanalista

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Eis que do seio da humanidade nasceu um homem chamado Oskar Pfister. Ora um pastor apaixonado pelas deduções psicanalíticas, ora um psicanalista encantado pelo pastoreio das almas. Mas ambas tratam de um mesmo elemento, ou seja, o ser humano.

Teologia e psicanálise são atualizadas constantemente por meio do homem e suas constantes mudanças. E temos na figura de Pfister como a ponte proximal entre as duas áreas.

Por isso, amigo leitor, tenho um convite para você: vamos caminhar com o pastor com alma de psicanalista ou vice- versa? Caminhemos, então.

Os primeiros anos de Oskar Pfister

Filho de um pastor reformado, Johannes Pfister, e de uma pianista, Luise, Oskar Pfister nasceu em vinte e três de fevereiro de 1873, num bairro suburbano de Wiedikon, Zurique, nordeste da Suíça. Ele era o filho caçula e tinha mais quatro irmãs. O pai estava estudando medicina, decisão que veio quando ele presenciou a morte de uma criança com difteria. Mas veio à óbito no ano de 1876, quando Pfister tinha apenas três anos de idade.

Com a morte do pai, a mãe, de origem pietista, e sua prole foram morar na comunidade dos Irmãos Morávios, uma igreja protestante. Pfister cresceu e ingressou para os estudos nas áreas teológicas, claro, a vocação de Oskar tinha uma forte identificação com o pai.

Mais tarde, entrando em contato com a teologia crítica, a mesma entrou em choque com a educação pietista de Pfister. E Oskar continuou sua formação, isto é, complementa seus estudos teológicos com História da Arte, História da Filosofia e Ciências Sociais.

A formação de Oskar Pfister

Na sequência, ele começa os seus estudos na área de Filosofia, em Zurique e em Berlim. Pfister estava decepcionado com a psicologia e teologia da época, ele cria que ambas as áreas estavam longe das reais preocupações da alma. E ele continua os seus estudos em Filosofia, tanto que a sua tese de doutorado foi a seguinte: filosofia da religião do teólogo suíço A. E. Biedermann, no ano de 1897.

O aluno Oskar Pfister recebeu o “magna cum laude,” traduzindo: com grandes honras. Embora tendo um cabedal de conhecimento voltado para o empirismo e a criticidade, Pfister tem em seus recônditos a herança pietista. Mas não um pietismo sentimental e passivo, isto é, o pietismo de Pfister era ativo e com um profundo desejo de agir.

Da mãe ele herda o gosto pela música, Pfister aprendeu a tocar órgão e piano. Da música, o reverendo retirou os sulcos de uma experiência do desfrutar estético e ligações religiosas. Ainda mais: o pastor via na música uma caminho profícuo para o contato com os jovens.

No ano de 1897, o reverendo Pfister aceitou o ministério na comunidade de Wald, nas proximidades de Zurique. Ele estava entusiasmado com o pastorado, ele tinha um grande amor pela pregação. No ano de 1898, Pfister casa com Erika Wunderli e tem um filho, Robert Pfister, no de 1899, futuro médico e psiquiatra. No ano de 1902, ele e sua família vão morar em Zurique. Lá, Pfister exerce o pastorado na paróquia Prediger, até 1939.

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Os primeiros ventos de Viena

Eis que o ano é 1908, tempo em que a psicanálise adentrava nos espaços dos conhecimentos humanos. Da Suíça vinha o fascínio de um pastor pelas ideias de Sigmund Freud. Freud veio a ser um ícone para Pfister, dos acordos e desacordos nasce uma sedimentada amizade.

Da intimidade entre o pastor amoroso e o psicanalista pessimista são gerados os firmes passos de uma psicanálise com suas peculiaridades. A psicanálise de Pfister é tida como uma pérola por entre os psicanalistas renomados.

Porém, a busca de Oskar Pfister pela psicanálise teve como propósito de auxiliar os seus paroquianos. Embora com a psicologia da época, Pfister a entendia como algo parco e ineficiente, como foi mencionado em linhas anteriores.

A relação de Oskar Pfister com a Psicanálise

A psicanálise tinha as descrições necessárias que Pfister almejava, isto é, os mecanismos que visavam estruturar os desejos ocultos e suas produções sintomáticas. Oskar compreendeu as técnicas de Freud como instrumentos eficazes para rastrear os conteúdos abscônditos.

Ele via na associação livre de Freud a via mais eficiente, ou seja, ela auxilia o psicanalista a vislumbrar o real interno do analisando e os porquês dos desejos e sintomas da dada realidade.

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    Ensinado a realizar aconselhamentos pastorais e tradições religiosas, o reverendo criou uma grande revolução: em seus atendimentos: Pfister passou a utilizar a associação livre como forma de acolher os sofrimentos emocionais das pessoas. Eis que vemos o exercício do pastor analista.

    Pfister e a teoria da transferência

    Outro aspecto psicanalítico que marcou o desenvolvimento de Pfister foi a teoria da transferência. Pfister via na teoria uma excelente auxiliar, ele tinha ciência dos conteúdos religiosos, entretanto, para o melhor desenvolvimento da transferência, eles não seriam os norteadores das pautas.

    Era necessária uma espécie de licença religiosa para a captação das neuroses por meio do método transferencial. Pois o pastor cria que o método da transferência auxiliaria o psicanalista a entrepor o real e o fantasioso.

    Pfister tinha uma seguinte definição sobre a relação entre analista e analisando: o analista deveria ser uma realidade final ética para o paciente. Pfister chamou a teoria de Analista Idealista. Uma representação salutar para o analisando.

    Sua relação com Freud

    Freud apresentou muitas objeções, algumas polidas e outras irritadiças. Ele compreendia a teoria de Pfister como um clinicar moral. Para o pastor, o psicanalista tem um objetivo moral, um sentimento religioso que é fortalecido por meio da pessoa do paciente.

    O analista não vai contra as inúmeras transferências, mas ele vai acolhendo cada uma delas de uma maneira momentânea. Ele analisa cada uma e vai constituindo no caráter do paciente uma ética cristã. Contudo, como já foi explicitado, Freud revelou muitas discordâncias, ele entedia que Pfister não havia assimilado o fenômeno transferencial.

    Pfister acreditava que um inconsciente desvelado e submisso à consciência levaria o ser humano a reencontrar o seu lado espiritual que é, segundo Pfister, uma condição natural. Na realidade, amigos leitores, o pastor acreditava que, pela técnica descrita acima, o inconsciente e consciente poderiam viver em harmonia.

    Uma Psicanálise evangélica  e um evangelho psicanalítico

    Pfister realizou algumas assertivas acerca das aproximações da psicanálise e a teologia protestante. Uma primeira aproximação pode ser vista na concepção do homem, isto é, o ser humano é guiado por uma instância, digamos assim, proibitiva: na teologia há um Deus, na psicanálise há um Superego.

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    Quando alguma regulamentação é desviada, a angústia vem à superfície. Outro aspecto apontado por Pfister é a força opositora, na psicanálise existe o consciente e o inconsciente. O inconsciente guarda os segredos mais obscuros do indivíduo, também os que fogem dos padrões sociais.

    Na área teológica existe o demônio, a carne como forças opositoras ao que é divino. Outra situação é a substituição da Lei pelo Evangelho, Jesus tudo fez por meio do seu sacrifício vicário, colocando o amor como o centro da relação do ser humano com Deus.

    O que Oskar Pfister defendia?

    Igualmente à psicanálise, ela busca colocar o amor como o centro de todas as coisas. Pfister defendia um retorno para os ensinos fundamentais de Jesus Cristo. O pastor via a religião como uma muralha contra as neuroses.

    Mas a religião evoluída, conforme o reverendo, seria um sistema que levaria o indivíduo para a libertação. O amor que a religiosidade oferece tem por objetivo de livrar o indivíduo da culpa e oferecer uma conciliação entre os desejos e a moral.

    O espelho para o caminhar rumo ao Olimpo moral estaria em Jesus Cristo. As pessoas do tempo de Jesus sofriam com uma neurose coletiva, porém o Filho de Deus trouxe o amor para elas, eliminando os fardos edípicos e constrangimentos.

    O amor

    O amor é a força motriz do ser humano, Jesus levou o amor para os homens. Amor que estava antes recalcado e suprimido nos espaços do inconsciente. O amor de Cristo substitui angústias e terrores dos cerimonialismos farisaicos.

    Por meio da graça, Jesus expulsou o complexo de inferioridade, conduzindo o indivíduo para Deus e expurgando todo o tipo de pressão que poderia vir de terceiros.

    Diante da aniquilação de Jesus, o amor é reerguido e o mundo supera os caminhos destrutíveis.

    A Páscoa

    Páscoa, no hebraico, significa passagem. É o povo de Deus que atravessa o deserto e chega na terra prometida. Pfister via na Páscoa o paradigma da cura analítica, isto é, o paciente que atravessou os desertos das angústias e neuroses e chegou na terra prometida, terra prometida do amor.

    A Páscoa é como uma tensão entre realidades, o analisando que sai da aflição e alcança à superação. Enfim, a obra redentora é como um drama: aniquilação e vitória, pecado e graça, escuridão e luz, etc. O divã do reverendo presenciou muitas transfigurações, ou seja, mudanças perceptíveis e melhoras consideráveis em seus pacientes.

    E diante da transfiguração estava Pfister como testemunha, extasiado como os discípulos de Jesus estiveram no Monte Tabor.

    O cessar dos ventos de Viena

    Eis que o reverendo Pfister veio à óbito em seis de agosto de 1956, deixando uma rica herança para a psicanálise. Os ventos de Viena não podem cessar, os ventos pfisterianos clamam por novos contornos e caminhos.

    Este artigo é apenas o primeiro frescor de um ímpeto vento que reivindica espaço e rememoração por entre os pensamentos psicanalíticos da atualidade. Pois bem, leitor e amigo, psicanalistas e aspirantes: debrucemos sobre a obra de Pfister e façamos os ventos pfisterianos alcançarem horizontes longínquos, eles não podem cessar.

    O presente artigo foi escrito pelo autor Artur Charczuk [[email protected]] Arthur mora no Rio Grande do Sul, é formado em Letras, Teologia e Filosofia e possui algumas especializações, além de ser Psicanalista em formação.

    One thought on “Oskar Pfister: trajetória do pastor e psicanalista

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