pessoa tóxica

Pessoa tóxica: o que é, afinal?

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Há uma tendência atual de caracterizar pessoa como pessoa tóxica e fóbica.

Assim como poderá ser confirmado por meio da leitura de algumas postagens redigidas por parte de profissionais do campo Psi (Psicanálise, Psicologia e Psiquiatria) nas redes sociais e em matérias veiculadas pela imprensa – a toxicidade de certas pessoas ou situações entrou a fazer parte da linguagem corriqueira e, consequentemente, acaba sendo usada e abusada no âmbito da comunicação (formal e informal) em nossa vida cotidiana.

De acordo com o Dicionário Priberam (online), entende-se por “tóxico” algo que seja venenoso e/ou nocivo. Como, então, uma pessoa pode ser considerada “tóxica”?

Entendendo sobre uma pessoa tóxica

Veneno é algo que provoca a intoxicação do organismo, algo que não tem como ser absorvido e metabolizado. Tratando-se de uma noção meramente biológica, seria conveniente considerar a toxicidade (psíquica) de algumas pessoas a partir do outro significado apontado pelo dicionário, isto é, algo que é “nocivo” para a saúde. Ao falarmos em saúde, abre-se um universo de conceitos, teorias e entendimentos que variam de maneira substancial. É suficiente pensar na noção de saúde peculiar de algumas culturas e tradições médicas orientais, tratando-se de uma compreensão baseada em um viés holístico. E o que significa “holístico”?

Ainda uma vez, procura-se a resposta no Dicionário Priberam (online), e percebe-se que holístico se refere a algo “que defende uma visão integral e um entendimento geral dos fenômenos”. No contexto da saúde (também entendida de forma abrangente), “holístico” significa integral. E o que significa integral? Refere-se à integração, portanto, o termo integral – que por sua vez sustenta a noção de “holístico” – está fundamentado na convergência entre as diversas camadas que compõem o ser humano, a saber: corpo, mente intelectual consciente, mente emocional subconsciente, e o estrato mais profundo, que é aquele espiritual.

Falar em espiritualidade é algo complexo e escorregadio, que muitas vezes remete forçadamente para a filiação religiosa. No entanto, em sua significação holística, o reconhecimento de uma componente espiritual no ser humano é algo consensual inclusive entre teóricos e pesquisadores ateus, e vale sublinhar que o próprio Freud, ao menos supostamente, se filiava nesta categoria. Sabe-se que, em seus textos, Freud utilizava o termo “anímico” e reconhecia a importância dessa dimensão para com a saúde psíquica. Essa aparente divagação serve para compreendermos melhor a questão da toxicidade.

Pessoa tóxica e disfuncional

Falar em pessoas tóxicas e, logo, nocivas, aparentemente pode nos levar a considerarmos apenas pessoas disfuncionais, acometidas por sérias perturbações psicopatológicas. No entanto, através dessa publicação, minha intenção é ir além desse lugar comum. Sabe-se que conviver com pessoas fortemente regredidas em seu psiquismo, e que estejam – como é o caso de muitos psicóticos – em situação de profundo conflito com a realidade, não é uma tarefa fácil e, efetivamente, algumas pessoas cuja forma de organização psíquica aponta para uma estrutura psicótica, podem se tornar nocivas para os familiares ou quem venha a conviver com elas.

A esse respeito, me vejo impelido a abrir parêntese: anos atrás, muito tempo antes de me formar e atuar eu mesmo como psicanalista clínico, fiz um documentário sobre a Reforma Psiquiátrica em Campina Grande (PB). À época entrevistei psiquiatras, e fui autorizado a filmar em clínicas e hospitais psiquiátricos da cidade, assim como nos CAPS e em uma residência terapêutica. Percebi que havia certo consenso entre os psiquiatras (inclusive em seguida argui outros e também psicólogos) sobre a influência profundamente negativa do meio familiar sobre pessoas acometidas por distúrbios psicopatológicos mais ou menos severos.

Um psiquiatra me falou, explicitamente, que a simples remoção do sujeito psicótico do meio familiar o deixava mais leve, menos agressivo, menos perturbado. Não cabe aqui entrar na discussão inerente ao ser justo ou errado internar e, de uma forma geral, tendo a me alinhar com a posição da vertente antimanicomial e a favor de um tratamento humanizado e digno para portadores de transtornos de natureza psicótica. No que se refere ao que estou almejando enfatizar, peço auxílio à referência representada pelo nome do cientista, pesquisador e autor Dr. Bruce Lipton, exponente da linha da biologia conhecida como “epigenética”.

Demonstrações científicas

Por meio de demonstrações científicas, Lipton e outros colegas já chegaram a problematizar o lugar comum que, infelizmente, ainda prevalece entre cientistas de diversas áreas ou campos de estudo, ou seja, o fato de tudo, ou quase, depender da genética. Campo fascinante do saber, a genética acabou se tornando uma espécie de escapatória e, ao mesmo tempo, uma desculpa, que muitas vezes pretende encobrir a falta de conhecimento ou aprofundamento por parte de certos cientistas e profissionais, inclusive no campo conhecido como saúde mental.

Parece que, quando não se sabe exatamente qual seja a causa etiológica de um transtorno ou comportamento, se menciona a genética. Trata-se, afinal, de uma crença, que acaba ganhando respaldo pela simples repetição (acrítica) por parte de inúmeros pesquisadores e profissionais. Todavia, o Dr. Bruce Lipton – cuja teoria tive o privilégio de conhecer, através da fala do próprio biólogo, em quatro aulas gravadas em vídeo – tem amplamente demonstrado que a causa das doenças raramente é genética. Aliás, Lipton defende que apenas 2% das moléstias são de origem genética. E o restante?

Segundo esse pesquisador, 98% das doenças dependem de outro fator não-genético, a saber: o meio. O contexto é o que gera o adoecimento e, somente em alguns casos, a causa de determinada doença é hereditária. Se transpormos os estudos e os números providenciados por Lipton para o campo Psi, e cruzarmos esses dados com os depoimentos de alguns psiquiatras sobre a influência (negativa) que o meio vem a ter sobre pessoas acometidas por transtornos de natureza psicótica, podemos compreender que aquilo que entendemos por doença (termo atualmente em desuso no campo Psi, inclusive no Manual Diagnóstico e Estatístico dos psiquiatras norte-americano), ou melhor, por transtorno, está atrelado a um ambiente, isto é, a algo que transcende a esfera do eu.

Transtornos psicóticos de pessoa tóxica

Sem querer ser redutivo ou escorregar no simplismo, vê-se que algumas pessoas apresentam um grau mais elevado de sensibilidade e absorção, fato pelo qual tendem a introjetar nelas mesmas a morbidez que se encontra no ambiente, isto é, ao reder delas. Não é um caso que um bom psiquiatra (ou neurologista), ao se deparar com um novo paciente, faz questão de convocar pessoas próximas, familiares do paciente, para verificar o quadro psíquico destas pessoas, além de obter informações por parte das mesmas, acerca do sujeito portador do(s) transtorno(s) psicopatológico(s).

Nessa primeira parte do artigo apenas fiz questão de problematizar, ainda que minimamente, acerca da possível “toxicidade” de pessoas dotadas de uma estrutura psíquica de natureza psicótica. Sim, evidentemente, eles tendem a ser nocivos, tanto para si mesmos, como para as pessoas com quem convivem e, ao menos potencialmente, com a sociedade de uma forma geral. Todavia, não podemos limitar o entendimento de pessoa tóxica apenas a indivíduos que sofrem de transtornos psicóticos severos.

Essa premissa é importante porque, de fato, pensar na funcionalidade ou disfuncionalidade das pessoas e associar a eventual toxicidade de alguns ao grau do transtorno mental, nem sempre ajuda a explicar o que seria, de fato, uma pessoa tóxica. Isso por diversas razões, algumas das quais óbvias.

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    O campo Psi

    Para exemplificar, uma pessoa acometida por determinado transtorno psicótico, na medida em que seja devidamente medicada, acompanhada por um psiquiatra e, possivelmente, por outro profissional do campo Psi (psicóloga e/ou psicanalista) pode ser funcional e, portanto, acaba tendo uma vida normal. Evidentemente, a pessoa deverá seguir à risca as sugestões do psiquiatra, não deixar de tomar os remédios, e evitar, por exemplo, o consumo de estimulantes, álcool e drogas.

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    Além disso, pode haver outras recomendações, principalmente destinadas aos que convivem com essa pessoa, de maneira que a mesma não seja levada a se sentir ameaçada ou fortemente contrariada. Sendo, a Psicanálise, a grande ciência da subjetividade humana, precisamos entender aquilo que acabei de informar como um mero exemplo. Sim, cada caso é um caso. O importante é compreender que discernir entre funcional e disfuncional é algo que precisa de muita ponderação e, por essa razão, acreditei fosse justo problematizar, isto é, ir além do lugar comum (que nada mais é do que uma crença).

    Passemos agora ao caso de pessoas não-psicóticas, mas ainda assim, disfuncionais. Sabe-se que, apenas para exemplificar, depressão não aponta diretamente para um quadro psicótico. Há sim, sintomas depressivos em pessoas esquizofrênicas, no entanto, a depressão em si e por si, em suas variantes (maior, distimia…), não remete necessariamente para um quadro psicótico. E vale evidenciar que, no caso de portadores do transtorno bipolar (I ou II), o que confirma a estrutura psicótica é, justamente, a mania, e não a depressão. Considere-se, portanto, uma pessoa acometida por um quadro depressivo, sem se tratar de um psicótico.

    Uma estrutura psíquica neurótica

    A pessoa pode se enquadrar em uma estrutura psíquica neurótica, mas, devido à severidade da depressão, digamos, uma depressão maior, ela vem a se encontrar, em certo momento, na condição de incapacidade de disfrutar de quaisquer atividade básica, seja no que diz respeito à fruição do “gozo”, que é a capacidade de amar e ser amado, de se relacionar, cuidar, dar atenção, e até mesmo se deleitar com a cópula sexual; seja com relação ao “labor”, na medida em que a pessoa não tem sequer a capacidade para sair do próprio quarto, ou mesmo da cama, e tanto menos terá a disposição necessária para cuidar das atividades profissionais.

    Uma pessoa nessa condição está, de fato, disfuncional. Vale ressaltar que “disfuncional” e “tóxico” se tratam de termos distintos, e foi por isso que resolvi começar a refletir sobre a toxicidade a partir de uma perspectiva mais ampla, abrangendo a “funcionalidade”. E fiz isso com a intenção de desconstruir certos lugares comuns. Afinal, pesquisa, teorias e conhecimento servem, justamente, para irmos além do “achismo” e da repetição acrítica de crenças e lugares comuns. Nesse sentido, me pareceu oportuno começar com essas ressalvas.

    Partindo desse pressuposto, o que seria, então, uma pessoa tóxica? Voltando à definição do Priberam, entende-se por tóxico algo nocivo e, logo, pode-se considerar como tóxica uma pessoa nociva. Insisto, pensar em alguém nocivo, de uma maneira simplória, pode nos levar a considerar algum indivíduo acometido por um transtorno psicótico, devido ao fato que a psicose (dependendo de sua tipologia e nível de severidade) pode sim, levar certo indivíduo a ter uma conduta nociva com relação a si mesmo ou a terceiros.

    Sujeitos esquizofrênicos e a psicopatologia

    Todavia, vimos, através do exemplo acima, que há psicóticos devidamente tratados e que vivem uma existência tranquila, até mesmo usufruindo do “gozo” (estabelecimento de laços afetivos, amizades etc.) e do “labor” (realização profissional). A própria academia, sabe-se, inclui sujeitos esquizofrênicos, ou acometidos por outros estados psicóticos e, sabemos, a história da humanidade comprova a grande contribuição de pessoas que, hoje sabemos, eram dotadas de estruturas psíquicas de natureza psicótica. A esse respeito, vale ressaltar que a condição limítrofe leve, notadamente, tende a estar associada a índices de QI superiores à média.

    A sutil distinção entre gênio e folia passa por uma leve diferença de grau, mas com frequência ocorre que pessoas geniais tendem a estar acometidas por uma nuance leve à moderada de alguma psicopatologia. Enquanto profissional do campo Psi, acredito ser necessário insistir nesse discernimento, importante e urgente, voltado para a redução de estigmas e preconceitos com relação às pessoas psicóticas.

    Até porque, como qualquer teoria, o discernimento entre constituição neurótica, psicótica e perversa está baseado em conceitos e noções típico-ideais e, vale frisar, em nosso dia a dia no campo Psi, o problema não é tanto o psicótico que se insere exatamente dentro de um quadro clínico definido, e sim, os casos limítrofes, assim como pessoas dotadas de núcleos psicóticos latentes. Esses são os casos que mais confundem, inclusive os médicos psiquiatras. Nesse artigo, contudo, vou focar na questão da toxicidade a partir de uma perspectiva psicanalítica.

    Pessoa tóxica para a Psicanálise

    A Psicanálise é uma ciência e uma prática psicoterápica voltada para a liberação de conteúdos ocultos, isto é, inconscientes, através de seu afloramento na mente consciente e a consequente integração desses conteúdos, com a sucessiva ressignificação dos fatos traumáticos, reais ou imaginários, que os geraram. Não é um caso que Jung insistisse na questão da integração da sombra. Sombra é aquilo que se encontra abaixo da superfície (consciência) e que, normalmente, não queremos saber de assumir.

    Segundo Freud, todo e qualquer transtorno psicopatológico é devido a um Ego enfraquecido e a Psicanálise visa justamente a fortalecer o Ego do paciente. Esta instância, que perpassa (assim como o superego) as três camadas das quais é composto o aparelho psíquico (consciente, pré-consciente e inconsciente), tem a tarefa delicada de mediar entre o mundo interno (intrapsíquico) e a chamada realidade (mundo externo), enquanto, ao mesmo tempo, precisa mediar entre o ID, com suas moções pulsionais que buscam a realização de desejos por meio da gratificação no soma – e Superego, com sua normatização ou repressão das referidas pulsões, a partir de princípios morais, regras e normas introjetadas pelas pessoas desde a primeira infância (nisso concordo com Melanie Klein e não com Freud, pois a simples interação lúdica com criancinhas de dois ou três anos confirma a introjeção superegóica a partir pelo menos daquela idade).

    Um ego saudável é aquele que consegue preservar a sua autonomia, e a autonomia, digamos, de seu território e funcionalidade, perante as tentativas constantes de invasão por parte do ID, de um lado, com sua poderosa energia libidinal, e por parte do Superego, do outro. Um Ego saudável vai além disso, e trata-se necessariamente de um Ego autoconsciente e autorresponsável. E é nesse ponto que quero frisar, ao considerarmos o tema da toxicidade, a partir de uma perspectiva psicanalítica.

    O processo psicanalítico

    Antes mesmo que o atributo de uma pessoa, ser tóxico é uma postura, como dito, uma anti-atitude. Uma pessoa dotada de um Ego saudável busca compreender a si mesmo e ao outro. Quanto a si mesmo, procura enxergar aquilo que está abaixo da superfície e procura integrá-lo à consciência. Evidentemente, isso não pode ser feito a sós (consigo mesmo) e é necessário que sejamos acompanhados ao longo desse processo.

    O processo psicanalítico comporta a descoberta de si, ou para melhor dizer, o aprofundamento da autoconsciência e, por outro lado, autoconsciência é uma atitude que sustenta um Ego saudável. Porém, Psicanálise, enquanto processo psicoterápico, não é apenas autoconhecimento. Tanto que Jaques Lacan repelia pacientes que buscassem somente conhecer a si mesmo por meio da terapia de matriz psicanalítica. O psiquiatra e psicanalista francês só aceitava como analisandos indivíduos que se queixassem de alguma dor psíquica.

    Autoconhecimento é importante, e aumenta a autoconsciência que, por sua vez, é uma das características que garantem a estabilidade e a funcionalidade do Ego. Porém, autoconhecimento é uma consequência da análise e, ao menos segundo Lacan, não pode ser o fim, o objetivo. Entretanto, é importante, nesse contexto, falarmos sobre autoconhecimento e autoconsciência, ainda que como reflexos do processo psicanalítico. E isso, finalmente, ajuda a explicar melhor a toxicidade.

    A ausência de autoconsciência

    Apesar de não gostar de generalizações e frases de efeito, pode-se afirmar que a toxicidade aumenta proporcionalmente à ausência de autoconsciência. Logo, quanto mais uma pessoa for autoconsciente, menos será tóxica. E por que? Nesse contexto, darei apenas algumas respostas, mas claro, preciso justificar. Para explicar e tornar minhas palavras inteligíveis, deveria voltar à primeira tópica freudiana e passar pela segunda.

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    Apesar de ser assumidamente digressivo, vou poupar a leitora e o leitor de uma longa (se bem que necessária) variação no tema, e vou tentar ir logo ao ponto! Se com Freud, desde o “Livro do Século”, nosso aparelho psíquico é composto por três camadas das quais, afinal, apenas temos noção daquela mais superficial – a consciência – ainda por cima, temos apenas alguma vaga noção dessa camada. Embora qualquer pessoa em sã consciência afirmar se conhecer muito bem, sabemos que não é bem assim.

    Como já sustentei em outra(s) ocasião(ões), a PNL permite complementar a famosa metáfora freudiana referente à ponta do iceberg. O próprio aspecto “visível” de nossa psique é, para piorar a situação, limitadamente conhecível, e o percebemos por meio dos nossos canais representacionais (sentidos). Ou seja, aquele pouco que conhecemos de nós mesmos, o conhecemos de maneira filtrada, logo parcial e “distorcida”, enfim, subjetiva.

    A pessoa tóxica e a infinitude caótica da existência

    Nós nos percebemos de dentro para fora e, assim como a ideia que temos de nossa voz (ouvida a partir de dentro, embora nos escutemos a nós mesmos por meios dos ouvidos), a maneira pela qual nós nos conhecemos trata-se, afinal, de uma ilusão. Não canso de utilizar esse exemplo, pois trata-se exatamente da mesma coisa. Quando ouço minha voz gravada, para o bem ou para o mal, percebo que ela contraria a ideia que eu tinha da mesma, baseada em minha própria percepção.

    A percepção, enfim, cria uma ideia, que por sua vez é sustentada pela repetição. Logo, a ideia que a pessoa tem de si é uma crença como qualquer outra. E na infinitude caótica da existência, as pessoas se apegam a essa ideia atrelando a mesma a uma suposta estabilidade, a um Eu que acaba representando um porto seguro. Essa necessidade de “estabilidade” e pontos “firmes” pode estar associada ao maior medo que o ser humano tem, que é o medo da morte, morte enquanto desconhecido.

    A “ideia” que eu tenho de mim mesmo, e que eu tendo a considerar uma certeza, é algo que não corresponde ao que, de fato, eu sou na realidade. A boa notícia é que posso sim, alcançar um grau maior de coerência entre quem eu acredito ser e quem eu sou de fato. O grau de correspondência varia proporcionalmente de acordo com o grau de autoconsciência. Percebo a mim mesmo e atribuo a essa percepção uma identidade. Sim, todos precisamos de uma identidade.

    Pessoa tóxica e a identidade

    Sem embargo, o problema, além da ilusão, é que tendemos a considerar essa identidade como algo estanque. Disso observa-se que, quanto mais as pessoas afirmam, solenemente, que sabem quem elas são – ou a variante “eu sou assim, e sempre serei assim” – mais demonstram dispor de pouquíssima autoconsciência. A identidade é algo necessariamente dinâmico, que muda com o tempo. Mais uma vez, com o Dr. Bruce Lipton, verifica-se a importância do meio, inclusive quanto à definição (ou estabelecimento) da identidade.

    Vale então perguntar-se se é possível falar em definição, já que esse termo aponta para algo supostamente conclusivo. A nossa identidade é continuamente moldada através de nossas interações e por meio das situações pelas quais passamos. Por incrível que pareça, a pessoa autoconsciente tende a ser mais empática, quer dizer, tende a compreender melhor o outro, a se colocar no lugar dele.

    O caminho do autoconhecimento, sem dúvida, permite melhorar nossas interações sociais. E vale o contrário. Quanto menos a pessoa for dotada de autoconsciência, menos ela será empática. E observa-se, também, outra espécie de regra: menor a autoconsciência, mais as pessoas tendem a focar nelas mesmas, reféns como estão de suas aflições que, em boa parte, dependem justamente da falta de autoconsciência. A pessoa resolvida, ainda que cuide de sua própria vida, tende a se importar mais com os outros.

    A pessoa mal resolvida

    A pessoa mal resolvida, pelo contrário, tende a focar, às vezes obsessivamente, em suas próprias dores. Parece que só existe ela nesse mundo, e suas dores, reais ou imaginárias. Paradoxalmente, a pessoa “mal resolvida” (ciente de que cada caso seja um caso e que não exista uma só maneira de ser “mal resolvido”) tende a focar em duas direções opostas: no problema, ou melhor, naquilo que ela acredita ser o problema (sua crença a respeito de suas próprias dores); e no “outro”, não por ela estar genuinamente interessada em terceiros (quem sofre tende a não estar), mas por canalizar neste outro tudo aquilo que faz questão de desconhecer de si mesmo/a.

    Em realidade o segundo não é bem um foco, e sim, um reflexo inconsciente, produzido pela defesa do Ego chamada projeção. Aquilo que é aflitivo, a sombra que não quer ser integrada, acaba sendo compulsivamente projetada em terceiros. Enfim, há como que uma contradição fundamentando a estrutura psíquica e o comportamento da pessoa mal resolvida: ela é muito focada em si mesma e em suas dores, mas é pouco (ou nada) autoconsciente e, portanto, essas dores não são devidamente enfrentadas e, suas causas, trazidas à consciência.

    Falar em pessoas tóxicas, do ponto de vista psicanalítico, pode remeter para sujeitos mal resolvidos como aqueles que acabei de descrever. A Psicanálise comprovou sua capacidade clínica de libertar aflições recalcadas, e assim, viabilizar a referida integração da sombra, o que, por sua vez, aumenta o grau de autoconsciência e, assim, fortalece o Ego. Ao falar em pessoas mal resolvidas me referi especificamente para neuróticos.

    Histeria e Neurose Obsessiva

    Sabe-se que a Psicanálise foi criada para curar pessoas acometidas por neuroses quais Histeria e Neurose Obsessiva. Na impossibilidade de aprofundar devidamente, nesse contexto, aproveito apenas para ressaltar aquilo que já fora destacado desde Freud: a neurose obsessiva é a mais perigosa, simples e resumidamente, devido ao fato que, ao se criar uma “ideia fixa”, uma monomania, a pessoa, supostamente neurótica, pode estar transitando para um quadro psicótico, no caso, o da paranoia. Os delírios de grandeza, ciúme e perseguição estão, cada uma de uma maneira diferente, fundamentados em ideias fixas.

    O exemplo mais simples é inerente ao ciúme e, infelizmente, como já destaquei em outra publicação, existem crenças que sustentam a suposta inocência desse desvio paixonal, e é comum ouvir pessoas ingênuas repetindo convictas que certo grau de ciúme seria até uma demonstração de amor. Não mesmo. Ciúme é algo doentio, e é a antítese do amor genuíno, singelo e sadio. A criação e sustentação de ideação ligada à traição, ao tornar-se um padrão mental, torna o relacionamento extremamente aflitivo e insuportável.

    Lembremos que o psicótico, de uma forma geral, tende a substituir a realidade por um constructo ficcional, e acredita fortemente em sua fantasia, ao ponto de não ser conveniente contrariá-lo. Passando para os delírios de perseguição, além do clássico exemplo, já retratado e representado inclusive pelo cinema, pode ser útil considerarmos o caso de pessoas que, ao ouvirem uma notícia na TV, uma conversa alheia em uma lanchonete ou na fila do banco, ou ainda, ao lerem uma postagem nas redes sociais, passam a acreditar firmemente que aquilo que está sendo dito ou escrito lhes diga respeito.

    A  pessoa tóxica e a paranoia

    Há paranoicos que levam tudo para o lado pessoal, movidos pela crença que exista algum tipo de complô contra eles. Às vezes envolvem até mesmo seus familiares e os enxergam como possíveis antagonistas, cumplices ou artífices do referido complô. E o que um psicanalista pode fazer nesse caso? Freud já alertara para que tenhamos cuidado redobrado com os psicóticos.

    Klein e Bion, além do próprio Lacan, demonstraram a eficácia do acompanhamento psicanalítico com relação a pessoas acometidas por transtornos psicóticos, mas pessoalmente, e assim como fui aconselhado pela minha psicanalista e supervisora, só irei atender psicóticos, e no caso, paranoicos, se eles apresentarem um laudo comprovando que estão sendo acompanhados por um médico psiquiatra e devidamente medicados. Além do óbvio, o problema, ao lidar com esse tipo de pessoas, é que elas podem envolver o próprio terapeuta em seus delírios referentes a supostos complôs dos quais eles seriam as vítimas.

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    A terapia psicanalítica pode ser efetiva e eficaz, na medida em que haja o referido medicamento, se necessário por meio não apenas de ansiolíticos e calmantes, e sim, de remédios antipsicóticos. Precisa enfatizar, também, que essas pessoas devem evitar o consumo de estimulantes, inclusive a cafeína, por deixar suas mentes intelectuais muito aceleradas e propensas a ideação de fundo persecutório. Nem falar em cocaína ou afins.

    A neurose

    A presença de uma ritualística compulsiva na vida de algumas pessoas, notadamente acometidas pelo transtorno obsessivo-compulsivo, não é necessariamente um sinal que tal sujeito possa passar a fronteira da psicose e se tornar (ou manifestar enquanto) paranoico. Não é automático, mas das neuroses, a obsessiva é aquela mais perigosa, por ter como, eventualmente, desencadear na referida monomania e, assim, em quadros paranoides como aqueles que acabei de mencionar.

    E ainda que a ritualística do neurótico obsessivo seja moderada, pode sim, fazer dele uma pessoa “nociva” para quem tiver que aguentar toda a teatralidade compulsiva que pontua a existência desse sujeito. Quem conviver precisa ou adentrar a ritualística, ou se conformar com ela. Voltando brevemente ao caso dos paranoicos (psicóticos), sabe-se que eles são muito observadores e detalhistas com relação aos outros, chegando a perceber minúcias despercebidas do comportamento alheio, enquanto seu próprio nível de autoconsciência é extremamente limitado.

    De uma forma geral, o psicótico é um sujeito pouco autoconsciente e isso reforça o fato de a Psicoterapia Psicanalítica ter de ocorrer de forma diferente com relação ao neurótico. A Psicanálise, como já foi dito, é voltada para o resgate do recalcado, e esse afloramento, integração e ressignificação fortalece o Ego, inclusive, por meio da referida autoconsciência.

    Pacientes histéricos e neuróticos-obsessivos

    Todavia, se isso é possível com pacientes histéricos e neuróticos-obsessivos (e com todas as ressalvas, complicações, resistências e transferências negativas, entre os principais obstáculos), de algum modo será possível com pacientes psicóticos. Caso aconteça, o psicanalista em sã consciência, precisa ter a mesma humildade de Jaques Lacan, e afirmar: “não sei bem como isso aconteceu”. Voltemos, pois, ao contexto das neuroses e reiteremos: uma notória e difusa defesa do ego (neurótica, ou psicótica, de acordo com o grau) é a tal da projeção.

    E acontece que, enquanto a pessoa se fixa com a crença de uma identidade baseada apenas em supostos aspectos luminosos do próprio ser, ela tende a rejeitar os aspectos sombrios e, ao fazer isso, acaba por projetá-los no outro. Essa postura, e trata-se apenas de um exemplo entre muitos outros possíveis, remete para a toxicidade que representa o cerne desse artigo. Tóxico, enfim, é alguém que recusa trazer a sombra à superfície, que se nega a conhecer, assumir, e assim, integrar, aspectos de seu “eu” que tendem a se alojarem nas camadas inconscientes do aparelho psíquico.

    Nesse aspecto, lembremos que o Ego perpassa as três camadas, enquanto o ID é apenas inconsciente, para dificultar, e muito, o trabalho do psicanalista, como fora muito bem destacado por Anna Freud em seu livro sobre o Ego e os seus mecanismos de defesa. Esse ser tóxico é bastante nocivo, principalmente, para si mesmo, na medida em que, ao não querer enxergar e nem integrar a sua sombra, nega a si mesmo a possibilidade da libertação psíquica que somente a integração da sombra é capaz de proporcionar.

    Pessoa tóxica e a autoconsciência

    Refém de sua própria mente (ou daquilo que ela/ele acredita ser a própria mente), da percepção de si mesmo, de suas crenças e, de certa forma, de suas elucubrações, esse tipo de pessoa está se proibindo de acessar o bem estar psíquico. Autoconsciência é, antes do que mais nada, aceitação. Quem aceita está tomando uma atitude e essa atitude diz respeito à permissão de resolver, de estar bem. O contrário disso é resistir.

    Resistir gera o desgaste de uma enorme quantidade de energia psíquica, é uma postura negativa e autolesiva. Aceitar é se abrir para a possibilidade da cura, que lembremos, é sempre um processo interior. O analista acompanha, facilita a instauração do mecanismo de cura, mas esse mecanismo é próprio da pessoa, está dentro do paciente. A cura passa pela aceitação.

    E a Psicanálise visa à cura (das neuroses, pelo menos) e não apenas à aquisição de maior autoconhecimento, que como já disse, é consequência do processo psicoterápico de natureza psicanalítica. Concluindo, uma pessoa tóxica é aquela que, ao resistir, bloqueia o próprio processo de cura. Logo, trata-se de uma pessoa que acaba adoecendo, e cujo adoecimento, devido à influência recíproca que temos com as pessoas junto às quais interagimos, acaba por afetar a terceiros.

    Uma carga hereditária

    A pessoa tóxica, enfim, é nociva para si mesma e para os demais, não por ter algum tipo de lepra devido à qual, em outras épocas, era compelida a permanecer fora do arraial por ser imunda; a pessoa tóxica é aquela que se conforma com sua toxicidade por meio do vitimismo, lamúria, e atribuição da causa de seus males a terceiros, ou mesmo à genética e à carga hereditária. Como disse, trata-se, antes do que mais nada, de uma postura (negativa), que é o oposto de se tomar uma atitude, ou melhor, uma postura que impede o sujeito de tomar uma atitude.

    Aceitar, isso sim – inclusive o fato de sermos diferentes da ideia distorcida que temos sobre a ponta do iceberg que é a faceta conhecível de nosso ser – é tomar uma atitude, permitir que ocorra uma descoberta constante que nos acompanhará até o final de nossa vida. Essa descoberta nos fortalecerá, assim como a integração da sombra. A toxicidade, portanto, está sempre atrelada a um mecanismo de resistência perante a possibilidade de sair do mesmo.

    A pessoa tóxica vive conformada com sua toxicidade, que está cristalizada em uma estrutura de crenças limitantes, a pior das quais é inerente à falta de esperança, de perspectiva, da possibilidade de sair dessa prisão anímica e mental. Ao mesmo tempo, a pessoa tóxica não assume sua toxicidade, e devido à aflição que esse reconhecimento comportaria para ela, a projeta em terceiros, tornando a interação, ou o eventual relacionamento, insuportável. Se esse é um extremo, vale ressaltar que, em menor grau no dia a dia, toda e qualquer pessoa pode passar a ter um comportamento tóxico e, assim como acontece com o mau hálito, tende-se a reconhecê-lo tão somente em outras pessoas e não na própria boca.

    Conclusão

    Todos nós, em algum momento, podemos nos tornar tóxicos. O que fiz questão de ressaltar é que, essa toxicidade, está sempre atrelada à falta de aceitação e de autoconsciência, pois a segunda ocorre sob a condição de acontecer a primeira. Concluindo, o próprio ato de resistir, pelo menos do ponto de vista psíquico, é algo fortemente tóxico, que gera transtornos quais ansiedade e depressão, entre outros.

    Do ponto de vista psicanalítico, observa-se com frequência que a mente resistente não produz as mesmas associações de uma mente que aceita, que permite, que está aberta para a referida integração, lembrando que, antes do que mais nada, trata-se de uma integração anímica.

    O fluxo das associações precisa de uma postura aberta para se manifestar e trazer o recalcado para a consciência. E ainda, é preciso ter a disposição para ressignificar, mecanismo que só pode acontecer se antes houver a disposição para aceitar, assumir, e assim, permitir que o processo possa fluir.

    Este texto sobre pessoas tóxicas foi escrito por Riccardo Migliore, psicanalista Clínico formado pelo IBPC, e filiado ao mesmo Instituto. Master em Hipnose Clínica com formação em Hipnose Conversacional (Eriksoniana), PNL Practitioner, Prof. de Meditação e Doutor em Letras pela UFPB. Atende online e presencial. O atendimento presencial ocorre na Clínica Espaço VC, localizado no bairro da Prata, em Campina Grande (PB). Maiores informações: https://clubterapia.com.br/anuncio/psicanalise-e-hipnose-clinica/ ou www.instagram.com/institutoportaldaalma

    2 thoughts on “Pessoa tóxica: o que é, afinal?

    1. Muito bom artigo! Pessoas tóxicas, são os mimizendos,os que vivem vitmizandos ou seja, os chatos.

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