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Psicologia do Desenvolvimento para Wilfred Bion

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Hoje falaremos sobre a psicologia do desenvolvimento. Este texto é uma parte retirada do trabalhos de conclusão de curso em Psicanálise Clínica intitulado “Maternagem: relação mãe-bebê e desenvolvimento psicossocial infantil na psicanálise de Klein, Bion e Winnicott”.

O trabalho trata de três das principais teorias psicanalíticas e suas contribuições para o campo da Psicologia do Desenvolvimento. Neste artigo tratamos especificamente da teoria de Wilfred Bion.

A psicologia do desenvolvimento de Bion

Bion adota a ideia de identificação projetiva como um mecanismo de defesa primordial do bebê para lidar com as frustrações. Segundo ele, este mecanismo consiste no bebê projetar, ou seja: expelir, para dentro de outro objeto, no caso a mãe, sentimentos indesejados de sua personalidade (BION, 1991).

Por exemplo, a fome seria culpa da mãe; bem como a sensação de satisfação seria culpa da genitora. Bion trás o modelo da relação continente-conteúdo para compreender a interação que ocorre entre a mãe e o bebê nesta situação de identificação projetiva.

Em suas palavras: “uso como modelo, a ideia de continente em que se projeta o objeto e de objeto projetado dentro do continente designo aquele pelo termo conteúdo” (BION, 1991, p. 124). No olhar de Bion, poderíamos descrever o desenvolvimento dos elementos psíquicos do bebê em três momentos.

Estágio de pré-concepção

No estado de pré-concepção o bebê, pela falta de vivências emocionais e devido à sua imaturidade, experimenta um sentimento do qual ele não sabe do que se trata – poderíamos dizer em algo como um pensamento sem conteúdo, um pensamento incognoscível.

O bebê possui um protótipo de conteúdo mental, que ele não sabe identificar, e ainda sem nome e sem bases de comparação. Em um exemplo, podemos destacar um recém-nascido que percebe uma mudança incompreensível no seu corpo, que o deixa desconfortável trazendo desprazer e sofrimento.

Estágio de concepção

Em seguida, no estado de concepção, este sentimento é unido a uma sensação corporal que foi associada a ele. Dando continuidade ao nosso exemplo, poderíamos mencionar que a mãe percebe o estado mental do bebê, lhe dá o seio e o amamenta; consequentemente, o bebê também percebe o leite ingerido.

Estágio de pensamento

Por fim, a pré-concepção associada à uma sensação corporal repetidamente no cotidiano da criança possibilita um terceiro nível de conhecimento: o pensamento. O pensamento é uma concepção aprendida, com a qual o bebê aprende a lidar e manejar.

A mãe, neste caso, chamada o sentimento experimentado pelo pequeno, acolhendo sua angústia que até então era inimaginável, e lhe ensina dizendo que ele “estava com fome”.

Continente materno e a psicologia do desenvolvimento

Zimerman (2008) resume bem a função de continente a partir da comparação com as atribuições do analista. Re-adaptando a explicação de Zimerman (2008, p. 84-85) para a cena “mãe-bebê”, temos os seguintes passos da função continente:

  • Acolher a criança, venha ela como vier;
  • Aceitar e conter a carga de projeções que a criança precisa depositar;
  • Decodificar seu conteúdo;
  • Reconhecer seu significado e sentido;
  • Dar um nome àquilo que a criança projeta e que ainda não sabe definir;
  • Devolver à criança o conteúdo daquilo que ela projetou em doses parceladas, desintoxicadas e nomeadas, através da interpretação.

Não nos deixemos enganar. “Conter”, sob o olhar bioniano, não é o mesmo que “reter” para si. Ser continente de algum conteúdo significa acolhê-lo, sem que haja prejuízo para o continente. Além disso, conter corresponde a um ato de empatia daquele que contém, o que na psicanálise de Bion é denominado como capacidade de rêverie.

Rêverie materna e a psicologia do desenvolvimento

Novamente Zimerman (2008) nos auxilia na difícil tarefa de simplificar as ideias de Bion. Segundo a definição, rêverie é um “estado mental receptivo incondicional” (p. 84). Trata-se de uma capacidade empática da mãe de produzir uma ideia intuitiva sobre o que o bebê está projetando nela.

Retomando nosso exemplo sobre o desenvolvimento do pensamento, observamos que a mãe teve uma boa capacidade de rêverie, intuindo que seu filho estivesse com fome.

Ela também soube conter a projeção do bebê de que ela lhe causava fome. A mãe, então, amamentou a criança, ajudou-o a resolver o sentimento de frustração ao passo que deu o nome deste pensamento de “fome”, possibilitando com que a criança identifique e possa aprender maneiras de recorrer a outras estratégias quando precisar lidar com a fome de novo.

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Conclusão

Sendo assim, através deste pequeno texto passamos pelas noções de identificação projetiva, continente e conteúdo, rêverie e pensamento, tão caras à psicanálise de Wilfred Bion. Por fim, acreditamos que este texto possa cumprir a função de apresentar introdutoriamente ideias da teoria bioniana, relacionando seus principais conceitos com o saber da Psicologia do Desenvolvimento.

Referências

BION, Wilfred. Súmula. Continente e contido. In: BION, Wilfred. O Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991. p. 123-129. ZIMERMAN, David. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2008.

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    O presente artigo foi escrito por Raphael Aguiar, Teresópolis/RJ, contato: [email protected] – Psicanalista (IBPC) e Terapeuta Ocupacional (UFRJ), Pós-graduando em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem (PUC-RS). Possui atuação clínica e socioeducativa junto a crianças, adolescentes e adultos com deficiência.

    2 thoughts on “Psicologia do Desenvolvimento para Wilfred Bion

    1. Importante descrição da possível comunicação entre mãe e filho (a) onde a primeira, por suas sensibilidades, compreende as necessidades do segundo, as identifica por um nome e este passa a ser a descrição da necessidade apresentada, denotando-se a interação que corresponderá ao conteúdo no continente.
      .

    2. Muito bom artigo,parabéns! Essa conexão do bebê e a mãe, no primeiro momentos é lindo!

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