racismo estrutural

Racismo Estrutural: o que significa e como se aplica ao Brasil

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O Brasil está na triste lista dos países que tem um passado escravagista e um racismo estrutural.

Desde os movimentos abolicionistas, muita coisa mudou. Entretanto, o racismo ainda existe na sociedade brasileira, talvez não de forma explícita, mas de uma forma velada.

Entendendo o racismo estrutural

Esse tema é abordado pelo filósofo brasileiro contemporâneo Dr. Silvio Almeida. Em seu livro, o filósofo se refere a um “racismo estrutural”, tomando emprestado um termo da década de 70 de Kwame Turu e Charles Hamilton, sobre “racismo institucional”.

O racismo na visão desses autores vai além de motivações pessoais, e estaria na estrutura social, econômica e política do país. Entender o conceito de classe média brasileira, é importante para entender o racismo estrutural no Brasil.

A classe média não é um conceito financeiro, de faixa salarial, mas sim um conceito antropológico. No passado, os escravos recém libertos, não tinham casa, trabalho, ou itens básicos como roupas etc.

O racismo estrutural na história

Os imigrantes italianos que chegavam, muitos eram igualmente pobres, porém, tinham um pouco mais de instrução, um terno (mesmo que surrado), e eram brancos. O fato da comunidade branca, quer seja de imigrantes ou de brasileiros, terem que trabalhar nas fábricas ao lado do negro, fez com que os brancos logo corressem para estudar, ou estudar seus filhos como: médicos, advogados, engenheiros, dentistas etc.

Dessa forma, historicamente foi-se criando um abismo profissional de raça, o que reflete diretamente na cultura do racismo. Esse padrão que começou nos séculos passados, se perpetua até hoje na sociedade. Atualmente na sociedade brasileira, basta ser um bom observador para perceber a desigualdade social-racial existente.

É empírico a ausência de negros em altos cargos políticos na sociedade. Nas salas de aula do curso de medicina, direito e engenharia por exemplo, as matrículas ainda são majoritariamente de brancos.

A cota racial e o racismo estrutural

A questão da cota racial melhorou, mas não resolveu o problema. De um lado pôde-se dar oportunidades com as cotas, do outro lado, a narrativa do embranquecimento da sociedade problematiza a cota racial, reivindicando uma cota social ao invés de racial.

Contudo, segundo levantamentos do IBGE, grande parte dos moradores de comunidades periféricas e da população carcerária no Brasil são de negros. Esses dados revelam que a pobreza no brasil tem cor e ela é preta. Esse mesmo processo de embranquecimento da sociedade, muita das vezes argumenta que o Brasil é um país miscigenado e que todos são de certa forma pardos, mulatos, ou morenos, logo, deveriam ser beneficiados por cotas raciais.

Somente há pouco tempo a psicanálise passou a considerar as questões sociais e históricas como objeto de estudo. Ora, se o racismo é um sintoma social, obviamente ele aparecerá no consultório do analista. O que a pessoa negra diz no consultório do analista é mais importante do que qualquer outro discurso.

O preconceito

Não existe lugar de fala, porém, o preconceito, a segregação e o racismo geram efeitos psicológicos, muita das vezes irreparáveis na pessoa negra, e que só ela pode explicar. A baixa estima da pessoa negra pode ser percebida dentro do consultório. O discurso de que não existe racismo no Brasil é um fator que gera dor psíquica e baixa estima.

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Ora, se não existe o racismo por que a dificuldade em encontrar um negro na universidade? ou em altos cargos políticos e corporativos? A dor e o sofrimento são subjetivos, e a psicanálise entende isso, mas a sociedade não.

Talvez seja por isso que na sociedade, a pessoa negra muita das vezes é tratada como quem tem mania de perseguição e vitimização, e muitos inacreditavelmente ainda falam de preconceito reverso, ou racismo contra os brancos.

O papel da psicanálise no racismo estrutural

O papel da psicanálise, como em qualquer outra situação é ouvir. A partir do discurso do paciente pode-se identificar, separando os significantes pessoais daquilo que é expectativa social, sem jamais ignorar o contexto do paciente.

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    Para um tratamento satisfatório deve-se observar sua vida social, seu trabalho, sua escola, sua infância e a comunidade onde mora e está inserido. Todos esses fatores devem ser considerados pelo analista no atendimento da pessoa negra, ou até mesmo na abordagem de um paciente racista.

    Elementos presentes na sociedade como o racismo e a xenofobia sempre existiram. Em cada país o racismo se mostra diferente. O antissemitismo vivenciado por Freud é exemplo disso, o ideal ariano de Hitler levou a morte muitos judeus. O ódio é um fator presente no racismo e na xenofobia, e pode ser contra a cor, a etnia, a religião, ou a nacionalidade.

    Conclusão

    No fundo o medo na sociedade racista é que “o outro”, “o diferente”, invada o seu espaço modificando os hábitos e sua cultura, o racista acha que sua raça é sua cultura são melhores ou superiores.

    Em suma, um profissional psicanalista de pele branca, talvez não perceba a cor de sua pele pois está alienado inconscientemente ao ideal do eu branco que perpetua uma cultura narcisista de privilégio.

    A psicanálise por sua vez tem uma função crítica e social, e tem na sua raiz a transformação humana, e carece de profissionais que ajudem a confrontar essa perspectiva inconsciente que é o racismo estrutural na sociedade contemporânea.

    O presente artigo foi escrito por Igor Alves([email protected]). Licenciado em Letras e Filosofia. Psicanalista pelo IBPC.

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