reflexão sobre o luto

Reflexão sobre o Luto: o Silêncio dos Que Partem

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Neste artigo explicaremos e abordaremos uma reflexão sobre o Luto. A vivência do luto é uma experiência inerente ao ser humano. Tão antiga quanto as primeiras manifestações de vida é a ideia da morte e do encerramento das relações.

Todavia, malgrado a efemeridade das relações seja um fato universalmente conhecido, o ser humano reluta firmemente em abrir mão da fantasia de segurança que o conceito de eternidade proporciona.

Nesse sentido, são muitas as possibilidades de perda e (re)significação a serem vivenciadas, possuindo cada qual suas peculiaridades.

Entendendo a reflexão sobre o Luto

Vive-se o luto quando nos deparamos com a morte de um ente querido; quando um relacionamento (seja qual for sua natureza) é rompido ou mesmo quando uma expectativa de algo é dissipada. Ainda por esse viés, podemos conceber que não se percebe da mesma maneira a partida de uma mãe, como se percebe de um pai ou um irmão.

Além disso, a imensa variedade de experiências e individualidades torna praticamente impossível delimitar com clareza como o luto é vivenciado pelo ser humano. O peso da realidade algo de difícil enfrentamento e a mente humana reluta em aceitá-lo, criando fantasias e (des)caminhos para confrontá-la com o mínimo de sofrimento.

Por isso, malgrado sejam estabelecidos tradicionalmente estágios a serem vivenciados, o percurso que o sujeito faz não é nem linear nem predeterminado. Cabe, pois, a cada indivíduo abrir sua trilha e confrontar suas enchentes e vazantes emocionais sem prender-se à estrada simbólica da superação.

Reflexão sobre o Luto e a Psicanálise

Em seu clássico livro Luto e Melancolia, Sigmund Freud delimita cinco estágios da perda e os diferencia da Melancolia (termo anteriormente empregado para tratar-se da depressão). Tais estágios são : Negação, Raiva, Barganha ou Negociação, Depressão e Aceitação. Na negação, o sujeito se apega firmemente a uma imagem de realidade que já não existe mais, recusando-se a seguir em frente e vivenciar o sofrimento proporcionado pela ruptura ocorrida.

Não se trata propriamente de uma reação ao fato, mas à dor que o fato proporciona. Em seguida, na raiva, há uma reação narcísica na qual frequentemente ouvimos os questionamentos “por quê eu?”, ” por quê comigo?”. O sujeito se volta contra uma suposta força superior e questiona-a pondo-se na situação de vítima e “escolhido” para aquele sofrimento. Sem dúvida, nesse ponto a relação entre luto e religião se estreita, tendo como ponto de partida o rompimento com a ideia de segurança e afetividade proporcionada pela imagem do “Deus/Pai/Protetor”.

Quando chega o estado de negociação, o indivíduo volta a se questionar, através de perguntas “como poderia ter sido se…?”. Criam-se novamente fantasias e imagina-se como poderia ser a situação atual caso se tivesse tomado outra atitude em um determinado ponto do passado. Caso isso impedisse a ruptura que causa o luto, como seria o momento presente?

Reflexão sobre o luto e a depressão

É importante que haja aqui o amparo do analista e dos entes próximos para que o sujeito não gere mais sofrimento para si com tais fantasias, criando um sentimento de culpa por não ter evitado o ocorrido. Na depressão há a liberação de toda a carga emocional até então reprimida e o lutuoso pode dar vazão livremente à sua dor.

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Também pede um acompanhamento estreito para que, como o próprio Freud aponta, não evolua para um estado verdadeiramente patológico de Depressão. Finalmente, após todas as etapas anteriores, ocorre a aceitação da realidade como ela é. O analisando compreende a imutabilidade do passado e pode seguir em frente com o aprendizado proporcionado pela perda do outro.

No entanto, há alguns pontos sobre os quais podemos considerar: o primeiro deles é que a sequência de etapas não é linear. Pode-se ir e volver inúmeras vezes até se chegar à aceitação, ou mesmo nunca sair de um estágio sem assistência profissional.

Ainda sobre Reflexão sobre o Luto e depressão

Além disso, como apontado por HOMEM (2021), o eu nunca se separará definitivamente de seu objeto perdido. Sempre haverá o “eco” do outro: como ele veria tal situação, como ele reagiria, como seria com ele aqui.

Isso é imanente ao ser humano e faz parte do próprio luto. Simbolicamente, para que seja possível a vida sem a presença do objeto de desejo, o sujeito o “devora” e esse passa a integrar seu ser. Isso implica diversas consequências que podem ser melhor exploradas futuramente, como:

-Em que medida somos o produto de intercâmbios interpessoais do passado? -Quanto de nós é nosso? -Que marca deixamos naqueles que travaram contato conosco? -Qual o impacto cultural do processo de absorção do outro?

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    Os Muitos Lutos

    Falar da experiência do luto é abrir um leque diverso e plural. O processo de ressignificação da perda de um objeto de afetos é um movimento necessariamente complexo, pois embora essas experiências possuam um ponto em comum, não as podemos categorizar do mesmo modo.

    Assim, algumas possibilidades de luto a serem consideradas são: a morte de um ente familiar, a morte de um amigo, a morte de um animal, a morte de um parceiro ou parceira, o término de uma relação e a ruptura de uma visão de mundo ou de alguém.

    Nesse sentido, olhar para essa experiência é, sobretudo, mirar a pluralidade de experiências que representa a individualidade humana. A partir dessa perspectiva, devemos delimitar claramente o que é em si o luto.

    Reflexão sobre o Luto, processos e dor

    O luto, pois é um processo lento e doloroso, que tem como características uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor (FREUD, 1915).

    Também é possível classificarmos tal experiência como: Luto Natural, Luto Traumático, Luto Antecipatório, Luto Adiado, Luto Coletivo e Luto Não Reconhecido tendo cada qual sua peculiaridade e maneira de se lidar. Luto Natural é a designação dada ao processo que se desencadeia perante uma perda significativa na vida do sujeito.

    Nesse momento a pessoa tende a se isolar socialmente, já que o pensamento se volta quase que exclusivamente para a saudade e a tristeza que sente. (SÃO JUDAS TADEU, 2021) É importante que haja uma observação para que o quadro de tristeza extrema não evolua para uma depressão. Afinal, a perda do objeto simbólico de afeto pode levar a uma perda completa de sentido da existência.

    Luto Traumático

    Trata-se de Luto Traumático aquele que provém de uma perda executada através de um evento de grande stress psíquico (trauma). Há muitas possibilidades acerca do tipo de trauma possível, como situações de perda violenta ou inesperada em geral. No Luto Antecipatório o sofrimento psíquico “começa a partir de um fato que não é necessariamente a morte em si.

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    Mas algo que pode tê-la como consequência. O diagnóstico de uma doença grave, a viagem de um parente para uma região de conflito ou a previsão de um terremoto.” (idem). Essa situação causadora de desgaste pode ser um diagnóstico de uma doença grave, uma possível catástrofe natural futura ou outra circunstância ansiogênica.

    Quanto ao Luto Adiado, “este é definido pela ausência das reações naturais presentes entre a maioria dos indivíduos enlutados. Aqui, o ser humano não se dá a oportunidade de sofrer pela perda. E não expressa sentimento algum de pesar depois do falecimento de um ente querido. Se adia a tristeza e se vai vivendo, mas depois de um tempo não é mais possível aguentar.

    Reflexão sobre o Luto coletivo

    E o luto adiado vem com ainda mais força do que fosse vivenciado antes e em companhia de outras pessoas que passaram pela mesma perda. Adiar a experiência significa alguns riscos, até mesmo de contrair certas doenças psíquicas como a ansiedade crônica.” (idem ibidem). O Luto Coletivo é aquele que ocorre quando uma ruptura brusca ocorre afetando um grande número de pessoas.

    Grandes tragédias, como o Evento de 11 de Setembro, a Tragédia de Brumadinho ou a Ascensão do Talibã são notáveis exemplos de situações que impactam populações inteiras e que ge(ra)ram um sentimento de profundo pesar e tristeza em um grande número de pessoas. Finalmente, Luto Não Reconhecido é talvez o que mais produza sofrimento para o sujeito.

    Trata-se de uma vivência velada de dores não reconhecidas. Temos por exemplos dessa situação a perda de um animal de estimação, a dor de um divórcio ou a dor da perda em um aborto espontâneo.

    Luto Não Reconhecido

    O grande ponto para se tratar o Luto Não Reconhecido é o fato de que, lato sensu, o luto é uma experiência que se vive conjuntamente. Isso é, quando um sujeito se depara com um momento de dor pela perda, ele busca o conforto do conhecido por meio de outros entes próximos. No entanto, no Luto Não Reconhecido não há qualquer apoio ao lutuoso.

    Trata-se de uma dor que se sente só. Nesse sentido, em igual medida, talvez essa seja a experiência mais significativa psicanaliticamente falando, na medida em que nos obriga a pormo-nos diante da atonicidade humana perante a solidão.

    Com efeito, porém, é um fato universalmente conhecido que o ser humano nasce, vive e morre sozinho. Isso também é uma relação ansiogênica com a própria vida e existência. No entanto, ser humano significa também conviver e ressignificar a própria dor e o peso da existência.

    O Eterno Senso de Partida

    O amor é um ato narcísico. Nesse sentido, a perda do outro é sumamente a perda de si mesmo. Por isso, não há como falarmos de luto sem considerar a perspectiva individual de cada analisando. Cada relação que o sujeito estabelece se baseia no intercambio de experiências e, em certa medida, das próprias características individuais de cada parte.

    Não raro, após um término (seja qual for sua natureza) podemos observar uma das partes tomando para si algo que outrora era um comportamento frequente em seu par. Assim, a memória de quem foi o ente perdido, resiste através da assimilação.

    Ainda assim, tratando-se a fundo a questão, é possível perceber que há duas visões possíveis acerca da motivação do luto: primeiramente, há a perda de um prazer experiencial da companhia do outro seguido pelo desprazer pela ruptura desse sistema; e ,em outro lugar, há a perda do próprio Eu e o não-reconhecimento do sujeito de si mesmo. Afinal, a partir do ponto em que o indivíduo entrega uma parcela de si para o outro (como tempo, afeto e energia), o rompimento desse elo acarreta o intenso sentimento de injustiça e impotência.

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    Considerações finais em: reflexão sobre o luto

    No entanto, é justamente a experiência da perda que permite ao sujeito desenvolver-se como um Ego autônomo e capaz de autodeterminar-se. É a visão da partida do outro o que proporciona o regresso do olhar para o verdadeiro sujeito de nossas próprias vidas: nós mesmos.

    Nesse texto, traçamos algumas breves considerações sobre o luto e a forma como esse é vivenciado na atualidade. Objetivamos propor novos olhares acerca do tema e questionarmo-nos quanto às visões tradicionais acerca dessa experiência através de um olhar sobre as novas produções teóricas que dela tratam.

    Concluímos que o luto é uma situação de grande fragilidade emocional e psíquica, o que implica necessidade de acompanhamento tanto de entes próximos quanto de profissionais da saúde mental. Também propusemos a ideia de que o luto não é algo linear e/ou estático a se viver, mas sim um estado plural e multifacetado. Ao mesmo tempo, lançamos um breve olhar teórico sobre a maneira como socialmente tratamos essa experiência, reprimindo-a e negando-a.

    Referências Bibliográficas

    FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917 [1915]). In:______. A história do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos (1914- 1916). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 245-263 HOMEM, Maria Lúcia. A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver. [Online]. Disponível em: <https://youtu.be/ybrxYN5yLSE>. Acesso: 29 de Agosto de 2021. SÃO JUDAS TADEU. Você Sabia Que Existem Vários Tipos de Luto? [Online]. Disponível em: <https://gruposaojudastadeu.com.br/voce-sabia-que-existem-varios-tipos-de-luto/>. Acesso: 05 de Setembro de 2021.

    Esse artigo foi escrito por Gabriel Montes, psicanalista egresso do IBPC e acadêmico de Letras e História. Sua área de pesquisa aborda Literatura, Psicanálise, História e Feminilidade. Também atua com atendimento virtual. Contato: [email protected]

    2 thoughts on “Reflexão sobre o Luto: o Silêncio dos Que Partem

    1. Me identifiquei com o luto traumático.
      Luto não conhecido
      Tem quase três meses que perdi minha mãe com Alzheimer. Não tem sido fácil

      1. Essa é realmente uma experiência de difícil lide. Caso precise de auxílio, não hesite em fazer contato com um profissional.

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