representações sobre o feminino

Representações sobre o Feminino: um olhar histórico

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Entenda com o artigo a seguir sobre a Representações sobre o Feminino.

Recentemente entreguei minha monografia no Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, cujo título foi A Romantização da Hybris e o Foco na Morbidez na Cultura Contemporânea. Nela tive a oportunidade de explorar algumas obras poéticas de impacto em nosso mundo, como O Morro dos Ventos Uivantes, romance gótico escrito por Emily Brontë e Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe.

Propus então um olhar sobre a visão do amor que nos foi proposta ao longo dos séculos e como isso impactou a atual concepção de amor.

Visões do Amor: Um Olhar Histórico Sobre A Mulher e Representações sobre o Feminino

Ainda algumas semanas atrás, durante uma atividade para minha formação universitário, tive o prazer de conhecer a literatura de Laura Esquivel. A autora mexicana, em seu livro Como Água Para Chocolate, faz uma leitura sobre o amor e a sensibilidade.

Contudo, como obstáculo à relação dos heróis, há a lei patriarcal e a tradição que afirmava não poder casar-se a mais nova das filhas, pois cabia-lhe o mister de amparar a mãe na velhice. Isso me fez refletir sobre como apenas muito recentemente tais construções sociais tem sido de fato postas em xeque por uma geração questionadora e progressista.

Assim, em relação às representações sobre o feminino principiei a expandir meu olhar não mais para vislumbrar o princípio de tal ideologia, causa já muito debatida e (ouso dizer) conhecida. Em contrário, pus-me a considerar como poderia vir a ser a ruína dessa efígie social.

As Virgens Vestais

Desde a “morte de Deus”, conceito proposto por Nietzsche, e consequente ascensão de um cristianismo essencialmente dicotômico (bem×mal/ Deus×Diabo/ Homem×Mulher) e anti-humano o lugar da mulher na sociedade foi gradativamente caindo em prestígio e poder. O Sagrado Feminino presente em culturas ligadas à terra e à natureza, representado pela Deusa Mãe e reverenciado na figura das Virgens Vestais cede lugar ao Pecado Primordial e à punição pelas dores do parto.

O útero feminino deixa de ser o receptáculo da vida, que agora é a costela do primeiro homem e sucumbe como objeto de escárnio e imundice. Naturalmente, pois, esse processo não deixaria incólumes as mulheres comuns. Essas, que antes podiam escolher seus maridos (como em culturas escandinavas) e correr às guerras em igualdade com os homens se haviam tornado moeda de troca nas mãos do patriarcado rural na Europa do Medievo.

Restou-lhes os sonhos com a cavaria ditado por nobres e escritos por trovadores como D.Dinis. Além disso, àquelas que se aventuravam pelos prazeres da carne antes do matrimônio só lhes restava dois destinos: a vida no meretrício ou a eterna castidade como freiras. Às filhas bastardas e sen herança o destino ainda lhes acrescia uma terceira opção: a vida na vassalagem. Na América não foi diferente.

Representações sobre o Feminino e a sacralidade da terra

A sacralidade da terra, a figura da bruxa (Jaci) como intermediária entre o sagrado e o humano cede lugar aos altos de fé escritos pelos jesuítas para, a custo da hecatombe de todo um modus vivendi, expandir a ideologia católica, cujo poder se enfraquecia com a ascensão do protestantismo. Nesse contexto ainda não se falava em amor romântico. Não obstante, as relações humanas, como em todas as épocas, se criavam e diluíam com base nos ideais da época.

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Nesse contexto, pode-se afirmar com certa segurança que a mulher seguia em papel de subalternidade. Agora, contudo, a europeia não só seguia com liberdade restrita como também assistia a mulher negra e indígena em papel de escravidão.

Além disso, conforme Freud propõe, ainda havia a dicotomia masculina entre aquelas mulheres com quem se poderia ter relações sexuais, mas jamais amor e aquelas que poderiam ser amadas, mas com quem nunca se poderia fazer sexo. No Brasil especialmente a mulher negra ocupou (e quiçá ainda ocupa) o primeiro papel e a mulher branca, o segundo.

O Surgimento do Romantismo e as Representações sobre o Feminino

No Séc.XIX surge o movimento alemão Sturm Und Drang movido pelos ideais revolucionários de liberdade, coragem e, fundamentalmente, amor. Autores como Shiller e Victor Hugo deram voz ao movimento que, agora, era rebatizado como Romantismo. Seus ecos se fizeram ouvir no Brasil através de escritores como Joaquim Manoel de Macedo e José de Alencar.

Nasceria, então, na América o romance feminino ou Perfil de Mulher. Essas obras punham em destaque o arquétipo feminino, mas falhavam ao não representar senão um reflexo embaçado de quem realmente era a mulher do Séc.XIX. Tímidas vozes femininas soaram nesse período, como a de Maria Firmina dos Reis, autora de Úrsula e A Escrava.

No entanto, as circunstâncias sociais de seu tempo lançaram sorrateiramente uma camada de poeira sobre suas obras somente há poucos anos redescobertas no tempo. Com o destaque, porém, voltado ainda para a visão do homem acerca da mulher, parece consequência que o ideal de amor feminino persistisse eivado pela moral patriarcal.

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    A submissão e, romantização e as Representações sobre o Feminino

    Isso significava ainda a submissão e a romantização de um modo de vida essencialmente violento, que se repete ao longo da história dos gêneros no mundo ocidental. Infelizmente, essa salutar discussão apenas tem ganho espaço a partir dos movimentos de luta social principiados no séc.XX através de pensadoras como Simone de Beauvoir.

    Com efeito, algumas das ideias que o romantismo (e especialmente o romantismo brasileiro) endossou na sociedade foram: o tabu da virgindade, a suposta instabilidade emocional feminina e a ideia da paixão como um adoecimento (pathos), algo especialmente presente no movimento byroniano. Tudo isso representou, e ainda representa, o modo como o Ocidente vê o “amor romântico”, termo quase redundante nesse contexto literário.

    Nesse sentido, cabe dizer-se antes de tudo que, primeiramente, o amor erótico não é essencialmente romântico, senão que foi proposital e socialmente construído dessa maneira. Isso, evidentemente, é uma fantasia e, nesse contexto, poderíamos especular que, sendo uma fantasia, é também uma reação a um fato concreto.

    A relação com a pulsão de morte

    Seria, pois, esse fato a relação com o outro ser, sobretudo, ansiogênica. Isso significa dizer que a fantasia do amor romântico e tudo que ela agrega é um modo social para se lidar com a incerteza quanto à reação de outrem ao amor do sujeito. Em casos de rejeição, predomina a pulsão de morte em movimentos psíquicos de autodestruição pautados na ideia de atenuação da dor através da morte.

    Esse mecanismo de defesa é evidenciado claramente na obra de poetas como Lord Byron, Percy Shelley, Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, cuja obra poética é significativa no contexto literário do movimento romântico. Do mesmo modo, nas produções em prosa, como A Moreninha, Os Sofrimentos do Jovem Werther, Helena e A Viuvinha a castidade feminina é posta como um troféu a ser conquistado pelo homem e uma sacralidade a ser firmemente protegida pela mulher.

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    Finalmente, e em especial no romance de Shiller, Os Sofrimentos do Jovem Werther, a mulher (Charlotte) é posta como a causadora do sofrimento do protagonista e a responsável por levá-lo ao suicídio no clímax do texto.

    O declínio de Uma Era e as representações sobre o feminino

    Não há como pensar um mundo Ocidental e, principalmente, o Brasil sem orientarmo-nos pela efígie de uma cultura falocêntrica e fundada na prevalência do elemento masculino como posição de poder. Nesse sentido, o lugar social da mulher foi culturalmente estabelecido como um lugar de fraqueza e submissão.

    Não obstante, com o princípio do declínio dessa efígie, começamos a vislumbrar a possibilidade da construção de uma relação interpessoal não mais pautada na disparidade de gêneros, mas sim na proporcionalidade do valor de cada indivíduo.

    Nesse âmbito, autoras como Jane Austin e a já citada Maria Firmina dos Reis foram pioneiras ao apresentar o lugar da mulher que ousa contra as normas da sociedade patriarcal e que, quando buscam o matrimônio, o fazem por amor e não por acordo familiar (vide Orgulho e Preconceito).

    A evolução social

    Embora tais conceitos hoje pouco representem para a sociedade, de modo que um casamento por arranjo já soe inconcebível para um ocidental, em sua época, representaram grandes rupturas com os padrões sociais estipulados e que hoje, uma vez normalizados, se reconfiguraram como uma nova ideia de “normal”. Isso significa dizermos que o processo de evolução social é pautado em duas instâncias: ruptura e acomodação.

    Isto é, antes de fazer com que algo se normalize, é mister que se rompa com o que se chamava anteriormente “normal”. Esse processo vem acontecendo progressivamente desde o princípio das sociedades humanas. Contudo, sua força e impacto se destacaram sobretudo no final do Séc.XX, com a emergência do feminismo e das correntes filosóficas e artísticas de vanguarda.

    Tratando-se, no entanto, especificamente do Séc.XXI, passa a ser imperativo que, mais do que perceber o processo de mutação e renovação das relações sociais e, mais especificamente, das relações românticas, avaliarmos até que ponto este câmbio foi efetivo e o quanto ainda é preciso mudar para estabelecermos um padrão aceitável de relacionamentos interpessoais.

    Conclusão

    Não há, pois, dúvidas de que o progresso na aquisição de liberdade feminina impactou positivamente nas relações maritais. Do mesmo modo, as conquistas de direitos por grupos LGBTQIA+ e de diversos outros grupos minoritários. Justamente, porém, graças a tais conquistas, se pode perceber diacronicamente a disparidade histórica da qualidade de vida que tiveram tais grupos e da qual disfrutam hoje.

    Longe de afirmarmos que a atualidade é o cenário ideal, podemos afirmar que a sociedade ocidental evoluiu em tolerância e integração em um período de cem anos transcorridos.

    Por isso mesmo, a prevalência de tais lutas sociais poderá provocar daqui a cem anos o mesmo olhar reticente para um passado distinto do presente e produzir o refrigério sentimento de progresso.

    O presente artigo foi escrito por Gabriel Montes é psicanalista egresso do IBPC, hipnólogo e estudante de História e Letras. Atua na pesquisa abordando feminilidade, cultura e psicanálise. Também atua como terapeuta por atendimento virtual. Contato: (65) 99934-0423.

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