sociedade do desempenho

Sociedade do Desempenho e seus impactos psíquicos

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Este texto sobre a sociedade do desempenho apresenta a psicopatologia de um ponto de vista social, baseado nas ideias do filósofo Byung-Chul Han. O autor no qual basearemos nossa análise é um filósofo de origem sul-coreana, nascido em 1959 na cidade de Seul.

Formou-se em Filosofia na Universidade de Friburgo e em Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Também é conhecido por seus estudos sobre Martin Heidegger – filósofo existencialista. Atualmente, leciona sobre Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim.

Sociedade do Desempenho e psicopatologias contemporâneas

Assim, o objetivo do artigo é mostrar como as exigências da chamada “sociedade do desempenho” (nas palavras de Byung-Chul Han) afetam a vida psíquica e social das pessoas atualmente. Primeiro, será apresentado o que é a sociedade do desempenho.

Depois, será introduzida a positividade como característica central da sociedade do desempenho. Em seguida, serão discutidas as implicações da positividade para o desenvolvimento social do Eros e do narcisismo. Por fim, será possível destacar as implicações da sociedade do desempenho para as psicopatologias contemporâneas.

A sociedade do desempenho

Mas afinal, o que estamos querendo dizer quando denominamos a sociedade atual como “sociedade do desempenho”? Para Byung-Chul Han, filósofo criador deste termo, a “sociedade do desempenho” é a mais recente forma que o sistema econômico neoliberal tomou.

Em suas palavras, “[…] a sociedade do desempenho e a sociedade ativa geram um cansaço e esgotamento excessivos. Esses estados psíquicos são característicos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade” (HAN, 2017, p. 70).

A sociedade do desempenho e a positividade

A principal característica da sociedade do desempenho é a dissolução da diferença entre empregador-empregado. Para ser produtivo, não é mais necessária a cobrança de um empregador, basta a cobrança do sujeito em cima de si mesmo.

Neste sentido, Byung-Chul Han afirma que os indivíduos modernos são “empresários de si”. O empresário de si já tem uma cobrança interna por maior positividade – uma cobrança internalizada na psique e no estilo de vida. Existe uma necessidade de sermos cada vez mais “positivos”, envolvidos em mais projetos ou criando novas metas a serem batidas. Aumentando, assim, nossa produtividade no trabalho, na vida social e na vida emocional.

Quanto mais hiperprodutivo, hipercomunicativo, hiperinformado e hiperconsumista for o sujeito, melhor. Para atender a essa demanda do mundo moderno é preciso parecer sempre bem, ser cada dia melhor, mais especializado, investir mais, dedicar-se com afinco, encontrar um propósito em todas as coisas, e ser ambicioso.

Eros e narcisismo

Deste modo, o Eros, tão estudado na psicanálise, está em decadência. Nos termos de Byung-Chul Han, trata-se da “Agonia do Eros” (HAN, 2017a). Eros é uma palavra grega que designa “amor pelo outro”. O amor pelo outro, pelo diferente, por aquilo que está para além de mim, está desaparecendo na visão deste filósofo. Amamos tão somente a nós mesmos.

Por isso, há uma prevalência do “eu”, em detrimento do “outro”, como objeto de desejo e de investimento libidinal. Assim, trago um trecho onde Han sintetiza esta ideia: “Hoje, vivemos numa sociedade que está se tornando cada vez mais narcisista. A libido é investida primordialmente na própria subjetividade. (…) O sujeito narcísico, ao contrário, não consegue estabelecer claramente seus limites. Assim, desaparecem os limites entre ele e o outro” (HAN, 2017a, p. 9-10).

Estamos imersos no individualismo – diria o autor –, formando bolhas sociais, curtindo apenas o que nos interessa, e convivendo somente com aqueles que são iguais a nós. E é neste bojo que surgem os movimentos extremistas contemporâneos, a formação de grupos identitários, o totalitarismo, o terrorismo, etc.

Sociedade do desempenho, cansaço e as psicopatologias

Retomando a ideia da exigência de um ritmo acelerado de produção, acesso a informações e meios de comunicação em nossa sociedade atual, precisamos entender as consequências para a vida psíquica. A consequência natural da intensa velocidade que age a positividade, só poderia resultar em um estado de “esgotamento” mental. Entendemos que “sociedade do desempenho” e “sociedade do cansaço” estão interligadas.

Para compreender esta situação, Byung-Chul Han propõe a metáfora do infarto: Quando o coração já não aguenta mais a frequência e a demanda circulatória, acontece o infarto. No mesmo sentido, o indivíduo da sociedade do cansaço infarta; chega ao seu esgotamento psicológico e emocional. Sendo assim, a sociedade do cansaço determina o cenário psicopatológico contemporâneo.

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Vivemos em um cenário de pandemia de “transtornos do infarto”, transtornos ligados ao esgotamento: depressão, ansiedade, síndrome de burnout, transtorno de personalidade limítrofe, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, etc. Tais patologias marcam a sociedade atual.

Conclusão

Sendo assim, podemos dizer que atingimos o objetivo do texto ao percorrermos um caminho de argumentação acerca de como a sociedade do desempenho produz os estados psicopatológicos do século XXI. Para tanto: conceituamos o que é sociedade do desempenho; mostramos como a positividade é o eixo estruturante da sociedade do desempenho e como ela está internalizada em nosso estilo de vida; demarcamos a relação entre positividade e os seus efeitos no narcisismo, e também no Eros coletivo; por fim, apresentamos a sociedade do desempenho, entendida também como sociedade do cansaço, que determina o cenário psicopatológico das pessoas esgotadas e, por isso, transtornadas.

Referências

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017b. HAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2017a.

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    Este artigo sobre a sociedade do desempenho foi escrito por Raphael Aguiar ([email protected]), Psicanalista (IBPC) e Terapeuta Ocupacional (UFRJ). Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem (PUC-RS) e Pedagogia Social (Famart). Atua no Instituto de Desenvolvimento Humano Allma Incluser em Teresópolis/RJ.

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