Sublimação na Arte

Sublimação na Arte e a pulsão do artista

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A Sublimação na Arte também pode ser considerada uma manifestação da LIBIDO e, como PULSÃO ou instinto, para um Curador construindo uma exposição. Pode torna-se um símbolo de alguma época histórica ou um trato acadêmico sob qualquer tipo de tela, do acrílico à madeira, do papelão ao chão ou parede, do pano à terra ou areia.

Entendendo a sublimação na Arte

A sublimação na Arte pode tratar de um assunto específico com tangentes generalistas, ou vice-versa, mas sempre deverá ser uma possibilidade de quebras de limites, que, em perspectiva das diferentes “escolas”, torna-se um embate entre o psíquico e o somático, resultando sempre uma “obra de arte” para diferentes sabores e gostos, tendências ou imprudências. A ruptura terá assim várias direções, mas, neste trabalho e texto, concentra-se em dois caminhos e sugerem inúmeros ramais.

O caminho corpóreo segue, por exemplo, de um simples enjoo à autoeliminação (suicídio) ou de uma complexa e constante dor de cabeça mentalizada como tal, que nenhum remédio acalma ou retira; o que leva o paciente ao desespero e diferentes tentativas de tirar a própria vida. No primeiro caso, um farmacêutico ou médico pode(m) resolver, se, e somente se, a depressão for considerada passageira.

No segundo, os profissionais dedicados aos estudos freudianos e de seus seguidores poderão auxiliar na procura de uma solução, pelo próprio indivíduo ou optar, se for orientado para tal, para a chamada Medicina de Precisão. Neste último caso, o psicanalista pode e deve dar o “start” para que o seu analisando receba uma atenção mais profunda, ou seja, que um passo mais adiante seja dado na avaliação do ser humano que ele acompanha, destacando características genéticas e DNA, doenças próprias e de familiares, hábitos alimentares e interação entre medicamentos e suas enzimas particulares.

 Sublimação na Arte e o trabalho em equipe

Trabalho em equipe torna-se então uma necessidade como no paciente cujo perfil tem algumas características acima mencionadas e que exigiu um inicial e complexo entender dos sintomas para se chegar a um diagnóstico com um colega médico que indicou testes farmacogenéticos e por fim, um tratamento de choque.

A dúvida estava neste “choque” que, de comum acordo, estaria dentro de uma continuidade semanal, por quantas horas fossem necessárias, para que, se possível, resolvido o caso de ÓZÈRÓ, um refugiado de guerra de países europeus. O paciente, após vários meses, sempre sentado ou no mesmo lugar do consultório, resolveu atender o convite, várias vezes oferecido, de ser acompanhado na análise, andando pela Av. Paulista, desde a Paróquia e Igreja São Luiz até o Hospital e Igreja de Santa Catharina, e vice-versa.

Com raros, mas bons resultados práticos, basicamente comportamentais acompanhado de falas “remissivas”, permitiram que eu, o profissional terapeuta, unisse a história antiga com outros fatos relatados na fala do analisando e anotadas na terceira anamnese, e o convidasse para uma consulta-passeio que iria ocorrer durante uma viagem para uma ilha e praia no fim de semana. O olhar foi de suspeita, mais do que de surpresa, mas o movimento de cabeça foi sim, e um pouco de insistência minha, consegui o meu objetivo. Mas ficou sob minha responsabilidade preparar duas mochilas, ficando a cargo dele, apenas uma bolsa com a roupa de banho e a roupa de uso.

Alguns passos a mais e a Sublimação na Arte

Os demais componentes estariam a meu cuidado: alimentação, pousada e uma mínima medicação, conforme a receita por ele entregue. Seria o meu presente por 3 anos de psicanálise semanais, entrecortadas por dois ou três dias seguidos. Neste fim de semana estaria colocando em prova o conselho postulado por Freud e que eu sempre desejara aplicar, sem a oportunidade física, ou seja aquela de proporcionar condições ambientais onde pudéssemos estabelecer uma comunicação de inconsciente para inconsciente onde eu terapeuta teria a condição de “ver melhor”, talvez cego pelo sol, mar e ar.

Eu estaria abrindo uma janela para o alerta de que estava chegando o momento da separação. A porta de saída seria então apenas uma questão de tempo e tomada de decisão minha, porque a nossa terapia cognitiva comportamental -TCC já ultrapassara todos os inventários de humor, ansiedades, as pautas de atos de depressão. Em resumo o instinto para a morte sempre esteve dominado nas sessões, bem como as lembranças para as doenças ou pulsões de ansiedades e depressão.

Agora tudo estava razoavelmente administrado para o caso, mas havia uma necessidade de voltar ao passado, quebrar amarras ou grilhões, e agora, na pandemia, tentar entender como enfrentar qualquer retorno dos transtornos de ansiedade, como retratar as possíveis angústias para manter a liberdade total que estaríamos buscando neste ato de passeio-consulta. Jogávamos o futuro para uma vida intensa, onde a opção por ele levantada era a ciência das pinceladas através da religião, que ele pretendia obter nas suas pinturas de igrejas velhas de Minas Gerais, como ele dizia e me repetia “ser um assalto da realidade”. Acrescentava: — É o fim. Estou curado.

Depois da viagem e a Sublimação na Arte

Agora, depois desta viagem, quero a alta, pois você me ofereceu algo que eu nunca tinha esperado ou pensado, crescimento, não apenas na visão de pintura e arte, mas também no meu auto-entendimento mental. — Sim, não iremos suspender nem interromper a sua análise, porque os nossos objetivos finais, que traçamos há mais de três anos foram atingidos, lembra? Sua qualidade de vida voltou integralmente e você sabe como lidar com a sua autonomia.

Mas esta viagem ao mar será a sua prova final, se você aceitar, porque ela é apenas um presente de seu analista para acompanhar a sua liberdade total… — No balanço da minha vida, você venceu e equilibrou. Estamos no ZERO e agora sou eu que deverei escolher, positivo ou negativo. Só o tempo dirá, não é verdade, mestre?

Sobre a sublimação na Arte, sem polemizar, conforme aprendi, como psicanalista, fiquei indiferente e voltei a falar sobre a nossa viagem, lembrando que um perfil deste analisando anotado no primeiro documento de anamnese apenas me remetia ao DSM-V nas palavras angustia e medo, nada de novo com tantas notícias amargas nas formas de governar o Brasil; refletindo, mesmo que superficialmente, naqueles que acompanham as “perturbações comportamentais” daqueles que se dizem representantes do povo.

Passos que trupicam sem cair ÓZÈRÓ

Quando jovem já passara por estes momentos e outros, quando trupicava em botas militares, na Europa. No Brasil, foi se equilibrando quando estudava na USP, onde convivera com aquilo que ele chamava de “Anarquia”, muito diferente daquela anarquia europeia. Aqui ele logo entenderia que o termo era usado no sentido do estabelecimento de movimentos coerentes para transformar o sistema de castas dominadoras por autogestão, pois a juventude tinha exemplos e por eles sabiam onde queriam chegar.

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Eram debates intensos quando eu, terapeuta, encontrava nos domingos o meu analisando pela Av. Paulista e onde o princípio de qualquer conversa, era meu pedido de “Relaxa”. A resposta era simples: — “Com você não tenho medo…” e acrescentava, “deixo minhas preocupações, do emprego à minha saúde, pois andar ao seu lado me rejuvenesce…” Era um problema de transferência que a cada encontro eu identificava, gravava com o conhecimento dele, no celular, anotava algo se necessário no mesmo aparelho e seguíamos, marcando trajetórias e resultados, principalmente os negativos.

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    Os positivos eu pedia para ele anotar no celular/agenda dele… Mas eu tinha algumas certezas que nada referia-se a um TOC – Transtorno obsessivo-compulsivo e muito menos TEPT – Transtorno do estresse pós-traumático.

    Ainda sobre os passos e a Sublimação na Arte

    Eu pedi a ele que anotasse no seu “Memo” como ele chamava, a palavra TAG, que ele logo proclamou, como trocadilho: —Vamos tomar um TAGRO… Sentados numa mesinha na calçada paulista, expliquei que TAG era o que podia estar representando naquele momento da vida dele, de uma maneira generalizada. — Você anda meio ansioso… — Sim, você quase acertou. Só estou meio ou sem nenhum, quando venho para as consultas… — OK, então vamos procurar uma homeostase para você… — Que nome de mulher esquisito…

    Uma gargalhada e o copo de cerveja novamente preenchido, nos deu uma pausa. Foi quando os sinos do Hospital Santa Catarina convocavam os fiéis para a missa das 18 horas. — Esta é minha chamada. ÓZÈRÓ se despediu rapidamente, dizendo: —Você paga… Pois esta é a primeira igreja que quero pintar… Ele sorrindo, apontou para a capela e em seguida, acenou. Só pude olhar suas costas curvadas seguindo em direção ao chamado, carregando, como fazia sempre, uma média caixa de madeira com tintas, pinceis e uma ou duas telas presas com elásticos. Nunca a abriu na minha presença.

    Uma rápida conclusão no momento: Que dádiva era a pintura para aquele jovem senhor de cabelos começando a ficar grisalhos. As cores das tintas faziam bem para a química de seu corpo e o balanço da conjugação tela e pincel para sua mente e alma.

    A preparação do material para a obra de arte e a Sublimação na Arte

    No consultório, ele apresentava histórias que em determinados momentos de seu trabalho sentia uma falta de ar, seguida de dor de barriga, sua mão que usava para pintar, tremia e lutava com toda força para parecer bem e não desmaiar. Era o momento que ele se refugiava na pintura, e tudo passava…

    Nunca desmaiou, mas na preparação do material para a obra de arte, realizava uma respiração compassada, até paralela com seus pensamentos, que um dia aprendera na medicina tradicional chinesa do Dr. Zhuang Yuan Ming, as 18 terapias do Yi Qi Gong, naqueles exercícios de saber respirar não apenas com os pulmões, mas com o corpo todo, localizando cada parte dele.

     Sublimação na Arte em compassos no Burnout

    Qualquer tipo de arte, mesmo neste trabalho de criar e recriar através do pesquisar e, no pensar, escrever ou pintar, nasce de um particular prazer que provoca uma excitação mental e corporal. Nosso corpo elabora duas situações. Nossos corpos muito mais opiniões. A primeira situação surge dos tempos chamados internos e a segunda dos tempos externos para ter as condições necessárias para se chegar à perfeição da obra. Só aí o artista consegue achar, entender e dizer: cheguei ao fim..

    Mas, antes disso ele talvez passe por fobias das simples cores do quadro em construção e numa visão turva, a obra incompleta e abandonada. Logo podemos pensar na Síndrome de Burnout se fosse apenas uma questão “da cabeça” como um eminente “ataque cardíaco”. É a alma, que alguns chamam “do negócio” e outros da “realização pessoal ou profissional.”, não afetara ÓZÈRÓ, pois era equilibrado entre trabalho e família, entre a rua e o espaço íntimo. Assim, procuramos de início a arma que estava provocando um desequilíbrio.

    Era a ARTE esquecida de ser admirada. Encontramos o gatilho, a pólvora que explode na realidade surge através da mente. Corpo e Mente é igual a ARTE, e através dela a SUBLIMAÇÃO, na grande PULSÃO da vida e da sua manutenção nos tempos através da ARTE. Os quadros que tenho no consultório, seis, foram pintados por mim em várias épocas da minha vida e professores diferentes. Um dia demorei para atender ÓZÈRÓ, por motivo de outro cliente. Quando abri a porta, passamos por ele, despedidas e voltei.

    ÓZÈRÓ e a  sublimação na Arte

    ÓZÈRÓ, continuava absorto perante uma das pinturas. Uma marina, da Ilha Porchat que eu pintara na juventude. Sentei-me ao longe e esperei alguma ação, até que percebi a união das emoções particulares com a racionalidade objetiva psicanalítica que o quadro emanava. Nas seguintes consultas, cada quadro foi exaustivamente comentado. O tempo passou e os fatos narrados construíram o start para o convite.

    Partimos um dia no meu carro para a nossa, acreditava eu, última visita terapêutica. Viagem de carro, sem palavras. A música de uma fita de meditação fora escolhida por mim, sabendo que durante uma hora, as vibrações poderiam ser amenas, mas… A viagem foi tranquila até o estacionar o carro. — Chegamos… Estamos na entrada da Ilha Porchat em São Vicente. Lembra daquele primeiro quadro, revisto a cada visita sua?

    Um sorriso, respondeu com o silêncio comum nas consultas. Naquele momento a maré alta ligava os dois braços de mar. Com as mochilas nas costas, que eu, o terapeuta agora escritor, só para recordar o leitor envolvido de “corpo e alma”, preparara. Descemos e uns 200 metros à frente, atravessamos a ponte a pé. O senhor ÓZÈRÓ (lembrando que este nome fantasia fora dado por mim com um significado de complexidade do ser humano) por um momento parou, passou as duas pernas sobre a grossa murada e semidebruçado sobre a lateral para ver onde as águas se encontravam em mansas ondas, com o suave barulho do mar apenas suspirou profundamente e sorriu.

    Lembranças, Burnout e a sublimação na Arte

    Não optamos seguir de carro, mas sim subir por ladeiras ainda de terra, hoje asfaltadas, até o local onde uma enorme caixa de água redonda marcava o ponto mais alto da ilha. No meio do caminho paramos para descansar e de longe observar os carros que paravam no local, numa rara oportunidade de silêncio, verde, azul e perfume de mar. Ele lembrou desse seu passado, que também ali ocorrera e, novamente sorriu para o carregador de mochilas. Sem dúvida ele sabia se “desligar” e sua capacidade mental não tinha nada de Burnout. Eu, o guia-terapeuta, trouxe ÓZÈRÓ para a realidade do momento e começamos a andar.

    Aproveitei e comentei: — Na minha adolescência fiz o curso de caça submarina e costumava, com os meus colegas do curso, mergulhar no local procurando barcos piratas afundados e chegamos a encontrar uma caverna, que estava naquela direção, em meio a mata existente. O meu dedo apontava algo que me levou há mais de 20 anos para aquele grupo de crianças cujo divertimento era, de bicicleta, chegar na Ilha Porchat descer até a caverna. Sem dúvida eu tinha reprimido aquele conteúdo por ter sido proibido pelos meus pais, e altamente perigoso, segundo as recomendações.

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    Descer até a caverna, me lembrou Freud que chegando ao presente momento de subir a Ilha Porchat, me lembrava que eu poderia descer pela mata, cujo cheiro me trazia algo já presente, mas sempre como desejo não atendido, e quando vinha à tona, algo me dizia leve ÓZÈRÓ até lá. Eu entendi depois da volta, que estava representando a personagem do analista inconscientemente. As condições ambientais, o dedo, a mata, o silêncio, o mar e o ar, turvaram a minha psique, e nos aspectos inconscientes, falei: — Vamos até a caverna dos piratas?

    Terapia nos três tempos PPF

    TERAPIA nos três TEMPOS PPF é uma das inúmeras regras de uma particular ingerência na vida de quem procura um terapeuta para, através da fala, trazer para a realidade de um consultório, o Passado, o Presente e o Futuro dependentes apenas do tempo, um fator tão valioso que não se pode dispensá-lo, principalmente nas relações cliente (ou seria doente) e terapeuta (idem?). Todo psicanalista reconhece, como Passado, que carrega uma série de marcas e procura entender cada uma delas, principalmente quando inicia um processo de auto supervisão para analisar com mais atenção as relações passadas.

    Numa grande maioria, ou podemos afirmar, que todos os terapeutas trazem consigo surpresinhas naqueles pequenos seres que nascem e logo chamamos de filhos/as e que deveremos suportar por um “longo” tempo até que decidam pela agressão de morarem sozinhos(as) e se juntarem “sabe lá Deus com quem…).

    Este era o perfil daquele que deveria descer comigo, por quase duas horas, ao longo da floresta nativa, até um lugar onde seria uma tatuagem permanente na mente, como estava na minha, talvez predominante cultura machista em tempos “modernos”…Era o Presente. Mas o Futuro nos apresentou muitos desafios, que agora, descrevemos como uma prática psicanalítica diferenciada, pois é ao ar livre e segue de acordo com o sol e a lua. Isto é, sempre sabemos que eles, os astros estarão no céu e nós, na terra. Acreditamos…

     Sublimação na Arte e a realidade bruta

    A descida foi escorregadia, pois molhada apesar do sol, permitia momentos de “cai-levanta” e entre estes dois movimentos, algumas reflexões. Cada ato de puxar e levantar, levava a uma lembrança como uma peneirada, como no lembrar de pegar as coleções de brinquedos ou de levar os remédios para tomar. Eram momentos de olho no olho, aliando-se a gestos, sorrisos espontâneos, e, principalmente, no dar as mãos para erguer e equilibrar com a energia que passava pelo corpo.

    Mas era o abraço sincero na hora de descer cada vez mais, no processo de trocar emoções íntimas do desconhecido, pela realidade bruta da mata virgem e do mar, em constante murmúrio contra as rochas, desaparecendo em espumas e se perdendo em um real e possível sumidouro. Descemos de braços enlaçados, depois de mãos dadas e por fim, cada um por sí e Deus para cada um. Eu terapeuta na frente, sempre olhando para trás. E ele estava lá, firme e mais ou menos forte.

    Neste momento me lembrei da frase “O homem só se torna homem e só é completamente ele mesmo quando fica absorvido pela dedicação a uma tarefa, quando se esquece de si mesmo no serviço a uma causa ou no amor a uma outra pessoa” ( in, Uma introdução ao pensamento de Viktor Frankl, pg.57).

    Uma pequena picada de uma via só

    Escorregando pela pequena picada de uma via só, ainda de pedra, e após muito trabalho de cortar o mato com um poderoso facão providencial que eu trouxera do carro, aquela frase de Frankl martelava na minha cabeça, até chegarmos na entrada, quase imperceptível, pois era minúscula, perante a rocha que a ocultava e o local era, além de escuro, gelado com o mar chegando em ondas até os nossos joelhos. Sentados, o terapeuta perguntou ao analisando se deviam continuar a procurar o motivo de sua dor de cabeça. ÓZÈRÓ não produziu nenhum som como resposta.

    Este fato me relembrou que os atos clínicos que eu possa imaginar, por dedução ou extrapolação, fazem nascer no meu sentimento uma oposição de ideias tendenciosas e até ambivalentes entre relações terapeuta-analisando-família-trabalho, o que me leva a lembrar um estímulo sujeito “à interpretação analítica na mesma qualidade de outros elementos sociológicos como o Direito, a Moral, a Arte, etc.” (in Freud, por Edgar Pesch, Evolução da Psicanálise, pg.154)

    Sim, a Arte estava aí, na minha frente, quando me lembrei e comecei a contar ao desbravador e companheiro de aventura, relembrando meus tempos de adolescente, as histórias de um pequeno baú encontrado no local onde agora estávamos, com um pequeno tesouro de objetos que foram divididos entre os três jovens audaciosos, principalmente curiosos, do que poderia se encontrar naquela ilha, na entrada para um grande braço de mar. .

    O mito Freudiano

    A cada momento ele percebia que o analisando nem se recordava da sua dor de cabeça, mas num momento, de uma onda maior, resolveu sugerir de dormirem no local, esperando a próxima maré alta para saírem nadando do local. — ÓZÉRÓ, você está me saindo melhor que o mito freudiano, Ele não me deu atenção e continuou abrindo sua mochila, tirando o seu saco de dormir, roupa de banho e comida enlatada. Eu, entretanto, lembrando Freud na ideia de que “Cada uma das partes não é rigorosamente nova. A morte eleva a vítima às alturas de herói; o pacto entre os irmãos, ( no meu caso, neste extremo, devido a circunstância, até de pai e filho) realiza um novo contrato social; a culpabilidade é construída no modo do remorso neurótico “ (in: Psicanálise e Família , pg 97/8, David, Pierre)

    No fim, aquele momento de silêncio me fez religar o que eu estudara e que piamente acreditara como base única da psicopatologia na visão de TPB. Eu tinha ao meu lado não apenas um analisando, mas um possível senhor achando-se meu irmão, até pai, talvez apresentando uma complexidade que eu pensava estar superada e, por consequência, curada. Mais ainda, um pequeno detalhe do perfil neurótico apresentado em alguns momentos, que eu despertara, sem querer, naquela aventura, onde a s reações emocionais diante daqueles todos e tantos estímulos ambientais, despertavam como, talvez pudéssemos chamar de um TPB ou seja, um Transtorno de Personalidade Bordiline.

    Percebi também durante a descida, e foi ele que brincou, um TPB – Teste Para a Bunda, ou seja, a cada cinco ou seis metros dentro da mata, um tombo ocorria, ou de um ou do outro, mas ambos tínhamos as calças cada vez mais úmidas, além de sujas de barro e folhas. Outras ocorrências superficiais de galhos soltos, raízes predominantes, pedras rolando e nós juntos, nada atrapalhava o prazer pelos momentos de grandiosidade que tínhamos, e no final, acolher as ondas com os pés e fazer comentários de autorreferência em paranoides, num auge de querer mergulhar de cabeça, todo o corpo, sabendo da impossibilidade de voltar ao local de origem, numa espécie de automutilação corporal e até uma ideação suicida.

    A Sublimação na Arte e a realidade

    A única coisa real, eram nossos tremores de frio, de nervoso ou mesmo de Bornout. Seria, ou eu estava instigado, uma maneira delicada de colocar rótulos em tudo que ocorria em volta. Estaríamos sendo o par ideal analista-analisado? O paciente, depois de três anos, também já possuía um palavreado psicanalítico, o que proporcionava momentos de troca de posições de quem sabia escutar, em silêncio respeitoso, perante o suave ronronar do mar.

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    Era aquele momento psicotrópico que eu sabia que poderia ocorrer e que eu já me preparara para os acontecimentos, como uma maneira reativa à ruptura do vínculo terapeuta-analisando. Seria o meu início planejado, para o fim da relação profissional?. Ou seria vice-versa? Lembrei-me que na última vez que estive nesta gruta, meu grupo providenciou e escondeu pedaços de árvores, galhos, plásticos e pacotes de lenha para as fogueiras, além de um pacote de caixa de fósforos, que agora abertos, indicavam quanto estavam esperando serem usados, mas, todos mofados numa caixa apodrecida. Eu já não era mais aquele jovem aventureiro.

    Cordas para amarrar possível barco, varas de pescar e coisas tais, como pés de pato e máscaras, além de dois snorkels, para os folguedos da meninada, incluindo eu, se encontravam no mesmo local e a felicidade de nós dois, foi um longo abraço naquela reflexão freudiana de pai com filho (idem. 2. Freud e o assassínio do pai, David Pierre) A chama demorou para promover um fogo no centro de uma simples fogueira com um tripé sustentando duas embalagens de alumínio para um mais simples ainda, jantar.

    O impulso da morte

    Mas aconteceu, o fogo ficou até se tornarem brasas que embalaram, com seus estalos, o nosso dormir. O suave ronronar das ondas, na maré baixa, se retirando do local, tornou a escuridão mais tênue, pois trazia o brilho da lua em reflexos ondulantes, estrelas navegantes e, da avenida da praia distante o som de carros passantes.

    O mito freudiano mais uma vez estava se cumprindo e o impulso da morte revelava-se no justo sono pelo cansaço, mostrando todo o seu aspecto metafísico. Um instinto paternal quase ocorreu naquele impulso de estender a mão para acertar o cobertor sobre o corpo adormecido do quase, ou certamente já é, ex analisando, agora mais um companheiro de folguedo infantil.

    Seríamos assim um exemplo do parentesco alargado, graças ao jus soli contrapondo-se ao jus sanguinis? Sim aquele “direito de solo”, era uma presença que o sono iria abarcar.

    Domingo na Paulista para a Liberdade

    Anos depois, nos reencontramos andando pela Av. Paulista. O domingo era iluminado por um sol que teimava surgir entre os prédios. — Vamos? Nossas mulheres, a minha e a dele, não nos compreenderam, mas nos seguiram cegamente. Descemos para a garagem, ainda pela avenida, e no meu carro, escutamos, uma delas perguntar: — Para onde vocês estão nos levando? No silêncio e num grande caminho arborizado, o meu antigo analisando, apenas respondeu: — Para a nossa LIBERDADE… Nada mais foi dito, da Av. do Estado para a Via Anchieta.

    A mesma música, agora colocada num pen-drive e providenciada pelo meu antigo ex-analisado, tocava. Entre os acordes apenas escutei, ou pensei escutar, ele falando que nunca mais tinha se queixado de dores de cabeça, — Doutor o sr.fez milagres com meu marido… Ele se tornou um Curador, um guardião de obras de arte. — Amigo, ela tem razão, naquela caverna encontrei meu caminho de garimpar obras de arte perdidas por este Brasil, organizar exposições, sem nunca ter a intenção ou ambição de me tornar um curador. — Obrigado gente…

    Sou um analista das “antigas”, voltado a uma psicanálise, desafiando convenções e consensos de que na quadratura do redondo devemos organizar nossas vidas para entender o que existe em volta de cada um de nós. — Uma caverna terminou com a necessidade de minhas visitas semanais a este meu amigo… — Sou um artista em tecer pensamentos para nos ajudar a nos entendermos, a nós mesmos e, esclareço agora para as senhoras, meu dever é o de procurar entender a todos aqueles que dependem de nós, psicanalistas, direta ou indiretamente. — Doutor, o senhor está além disso.

    Um jovem Senhor Curador e a  Sublimação na Arte

    O senhor trabalha com a arte da vida abrindo fissuras nos seres humanos em busca da verdade de cada um… — Você tem razão meu jovem Senhor Curador, pois você como meu ex-analisando compreendeu que você percebia aquilo que as outras pessoas, inclusive eu, não via. A nossa visita àquela caverna, que ainda está lá, camuflada pela mata, alterou o nosso cotidiano, o meu e o seu, porque conseguimos nos libertar e, tendo você ao meu lado, a sensibilidade de ver e sentir o mundo, aquele passado e depois retornando ao presente surgiu como luz e redescoberta do meu trabalho.

    Você com a pintura enquadrada em telas e eu, em perceber o que havia por trás delas simbolizaram viver e manter a nossa LIBERDADE. — Sim eu sou o pintor do que morreu… — Mas nesta visão, você cria a análise crítica de um determinado tema, creio que DEUS e a FAMÍLIA. — Meu marido faz mais do que ser um Curador extasiado com o ofício.

    Ele busca a cada exposição propor uma reflexão através das obras de arte, tendo como base, aqueles momentos de liberdade de pensamento que por dias e anos que você, me perdoe, Doutor, o orientou tornando nítida a visão do mundo das artes para ele e para a companheira, uma aprendiz do saber sentir a vida e ver aquilo que o meu marido sente em cada pintura…

    Considerações finais sobre a Sublimação na Arte

    A arte deste meu analisando toca o meu coração e o libertou das minhas sessões com raras intervenções. Ele era o mestre, e sabia e eu, interpretava cada pensamento na nossa análise existencial. Pronto chegamos. Desta vez subimos a estrada, agora asfaltada, mas ainda sinuosa da Ilha Porchat. Parei num pedaço, olhamos o mar à direita e a montanha, ainda com a floresta nativa e que descia em direção a um conjunto de rochas.

    Nos olhamos e sorrimos. As mulheres no banco de trás estranharam, mas apenas suspiraram, cada uma delas ouvira já do marido as histórias dos piratas da Ilha Porchat. Chegamos um pouco mais adiante e estacionamos o carro.

    Não descemos perante tanta beleza. Estávamos sublimando perante as obras daquele que seria o mirante projetado por Oscar Niemeyer em comemoração aos 500 anos de descobrimento do Brasil. Freud vencera mais uma vez. Suas ideias eram agora reais. “Sublimação na Arte transforma uma pulsão em algo socialmente aceito.”

    Referências bibliográficas

    1- Pense e Pule fora das Caixinhas Id, Ego e Superego. Simcsik, Tibor, Editor:Clubedeautores.com.br, 2020. 2- FREUD – Para conhecer o pensamento de. Pesch, Edgard. LPM Editora.-RS, 1983. (Origem: 1966 -Paris/França) 3- Yi Qi Gong – 18 Terapias de Dr Zhuang Y. Ming – Maria Lucia Lee/ Maristela Botelho, 2018- Editado Assoc. Brasileira de Lian Cong -BH/MG 4- Psicanálise e Família. David, Pierre. Ed.Martins Fontes Ltda.1977 (origem: Libraire Armand Colin, Paris, França, 1977). 5- Introdução ao pensamento de VIKTOR FRANKL, por AQUINO, Thiago A.A. de – Logoterapia e Análise Existêncial. Ed. Paulus, 2020. 6- SUBLIMAÇÃO – Significado em Psicanálise. Consulta em https://www.psicanaliseclinica.com. Publicado em 03/02/2019 https://www.google.com/search?q=sublima%C3%A7%C3%A3o%2C+freud&sxsrf=AOaemvL5s7HEOrcBLT4-yYQdk2FKoR89Pw%3A1633876813186&ei=TftiYffqCu3W5OUPkruQsAc&oq=sublima%C3%A7%C3%A3o%2C+freud&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAEYBjIHCAAQRxCwAzIHCAAQRxCwAzIHCAAQRxCwAzIHCAAQRxCwAzIHCAAQRxCwAzIHCAAQRxCwAzIHCAAQRxCwAzIHCAAQRxCwA0oECEEYAFAAWABgqKMCaAFwAngAgAEAiAEAkgEAmAEAyAEIwAEB&sclient=gws-wiz Congresso Nacional, em Brasília.

    O presente artigo foi escrito por Prof. Dr. Tibor Simcsik – Psicanalista Sistêmico e Advogado Conciliador e Mediador. Atua com Recursos Humanos há mais de 50 anos. Doutorado em Semiótica em RH; Psicanalista Sistêmico e Advogado Constelador Familiar. Contato: (11) 941.915.174

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