Taoísmo e Psicanálise

Taoísmo e Psicanálise: repetição para Freud e as amarras mentais

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Este artigo aborda o conceito de repetição inaugurado por Freud no texto “Recordar, Repetir e Elaborar” de 1914, e reflete sobre a proximidade com a ideia de Taoísmo e Psicanálise de “amarras mentais”.

Falaremos do conceito de “repetição” em Freud e o conceito de amarras mentais no taoísmo.

A repetição, Taoísmo e Psicanálise

Todo o movimento da vida é um exemplo de repetição. Podemos observar na natureza as migrações reprodutivas dos peixes, dos pássaros, ou seja, muitas manifestações instintivas dos animais ocorrem sob as ordens da repetição, expressando a natureza conservatória dos instintos. Em nossa vida, é muito comum nós repetimos comportamentos ou padrões mentais. Nossos instintos se esforçam para restaurar um estado anterior das coisas, a recriar o que nos é familiar.

Reproduzimos frequentemente experiências prazerosas do passado, memórias que trazem bem-estar. Outras vezes, no entanto, repetimos eventos desagradáveis ou traumáticos, num ciclo conflitante que necessita de reflexão e superação. “Nem precisamos procurar muito no campo mental por suas manifestações.

Ficamos impressionados com o fato de que as experiências esquecidas e reprimidas da infância são reproduzidas durante o trabalho de análise em sonhos e reações, particularmente naquelas que ocorrem na transferência, embora seu renascimento vá contra o interesse do princípio do prazer; e explicamos isso supondo que, nesses casos, a compulsão de repetir está superando até mesmo o princípio do prazer. Também na análise externa, algo semelhante pode ser observado.

Taoísmo e Psicanálise

Existem pessoas em cujas vidas as mesmas reações são perpetuamente repetidas sem correção, em seu próprio detrimento, ou outras que parecem perseguidas por um destino implacável, embora uma investigação mais detalhada nos ensine que involuntariamente estão trazendo esse destino para si mesmas.

Em tais casos, atribuímos um caráter “demoníaco” à compulsão de repetir”. [Freud. S: Novas conferências introdutórias sobre psicanálise, 1932-1933] A compulsão aqui descrita em nada difere da compulsão de repetir que encontramos nos neuróticos. Vemos casos em que o sujeito parece ter uma experiência passiva, sobre a qual não atua de forma consciente e não tem influência, mas nas quais se depara com uma repetição da mesma fatalidade.

“Se levarmos em consideração observações como essas, baseadas no comportamento na transferência e nas histórias de vida de homens e mulheres, encontraremos coragem para supor que realmente existe na mente uma compulsão para repetir que anula o princípio do prazer. Agora também estaremos inclinados a relacionar a essa compulsão os sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas e o impulso que leva as crianças a brincar”. [Freud, S: Além do princípio do prazer, 1920]

Compulsão de Repetição, Transferência, Resistência,  Taoísmo e Psicanálise

Freud explica que a transferência é apenas um pedaço de repetição, e que a repetição é uma transferência do passado esquecido não apenas para o analista, mas também para todos os outros aspectos da situação atual do analisando. Devemos estar preparados para descobrir, portanto, que o paciente cede à compulsão de repetir, que agora substitui o impulso de lembrar, não apenas em sua atitude pessoal para com seu terapeuta, mas também em todas as outras atividades e relacionamentos que possam ocupar sua vida.

Quanto maior a resistência, mais amplamente a repetição substituirá a lembrança. Por exemplo, o analisando não diz que se lembra de que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade de seus pais; em vez disso, ele se comporta dessa maneira com o médico. Ou ele não se lembra de ter ficado envergonhado de certas atividades sexuais e com medo de que fossem descobertas; mas ele sente vergonha do tratamento psicanalítico que agora está recebendo e tenta mantê-lo em segredo de todos.

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“[…] se, à medida que a análise prossegue, a transferência se torna hostil ou indevidamente intensa e, portanto, precisa de repressão, a lembrança imediatamente dá lugar à atuação. A partir de então, as resistências determinam a seqüência do material a ser repetido. O paciente tira do arsenal do passado as armas com que se defende contra o progresso do tratamento – armas que devemos arrancar dele uma a uma”. [Freud, S: Recordar, Repetir e Elaborar, 1914]

O Taoísmo e Psicanálise e o conceito de Amarras Mentais

O Taoísmo é uma doutrina filosófico-religiosa da antiga China. É chamado de religião ancestral, pois não possui um fundador e sua origem milenar é obscura. Muitos atribuem erroneamente sua criação a Lao Zi, por este ser o mais proeminente filósofo taoísta, ao lado de Fu Xi, Chuang Zi e Lie Zi. Nomeado muitas vezes como uma “Filosofia de vida”, o Taoísmo ensina sobre a fluência da vida humana em sincronia com os fenômenos naturais – homem e natureza, homem e tudo que existe, como uma unidade em constante transformação e continuidade.

A esta fluência natural da existência, de onde tudo vem e para onde tudo retorna, Lao Zi deu o nome de Tao – traduzido comumente como “Caminho”. Na visão taoísta, em nossa vida em sociedade, nós muitas vezes nos encontramos em desconexão com o Tao, desviados ou perdidos do fluxo de nossa natureza primordial. Sem uma base estável, nossas relações de afeto – pessoais e na relação com o outro – nos tornam suscetíveis a conflitos e angústias, muitas das quais reprimimos e carregamos durante a vida adulta.

Esta visão assemelha-se à ideia do processo de individuação de Carl G. Jung, onde a via fundamental da existência seria o caminho à totalidade, ou seja, a comunhão plena do indivíduo consigo mesmo, manifestando-se com o mundo externo.

Psicologia taoísta e as amarras mentais

As amarras mentais para a psicologia taoísta são experiências que estagnam o sujeito num determinado lugar da psique, que limitam o seu progresso e dificultam, assim, a manifestação de sua natureza essencial.

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    São padrões de comportamento aos quais somos expostos, especialmente na fase infantil, os quais incorporamos como nossos. Por exemplo, um menino de personalidade introspectiva é frequentemente chamado de “tímido” por sua mãe.

    Ele cresce acreditando em sua “timidez”, incorpora este aspecto em sua psique, e desenvolve dificuldade em se relacionar, se comunicar e expressar suas ideias. E este hábito mental se repete por sua vida adulta. A amarra mental impede o expansão e amadurecimento do sujeito, até que seja identificada e elaborada.

    Considerações finais sobre Taoísmo e Psicanálise

    A repetição é um fenômeno natural da vida, como apontaram os antigos mestres taoístas, e como Freud elabora no texto de 1914. No entanto, esta compulsão não deve ser observada somente pela lente da angústia e dos traumas.

    A repetição tem um alto potencial criativo e expressa muitas vezes a maneira eficaz e aperfeiçoada de lidarmos com o reencontro a uma determinada circunstância. Além disso, é uma oportunidade que o inconsciente nos oferece, de reencenarmos e identificarmos os padrões que nos prendem como uma âncora, e que nos causam dor psíquica e emocional.

    Referências bibliográficas

    FREUD, S. (1914a). Recordar, repetir e elaborar. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 189-203. FREUD, S. (1933[1932]). Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 22. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 11-220. FREUD, S. (1920). Além do Princípio de Prazer. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 123-198.

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    O presente artigo foi escrito por Sue Pareico([email protected]). Psicanalista, mestre em Medicina Tradicional Chinesa.

    One thought on “Taoísmo e Psicanálise: repetição para Freud e as amarras mentais

    1. Para mim, o inicio da atividade sexual, reuniu timidez, a memória fetal de ter sido esperado mulher (assim como os meus irmãos, “carregam” essa memória) e, estar, à época, virgem “geral” aos 27 anos e, o primeiro namorado com 35 anos! No inicio da penetração dele, parecia que eu estava apenas “servindo” ele, mas no orgasmo prostatico, como se eu estivesse me conhecendo. Carinhoso ele disse: você é cisgenero, com femilidade, que permite vivenciarmos esse momento com leveza e ter dado a ele a ereção mais prazerosa que ele alcançou! No dia seguinte, surpresos pelo pai dele me dar boas vindas, até me perguntou como sentia! Disse a ele, sem timidez, me aceitando mais, sabendo que meu corpo, completando o de outro homem, também cisgenero! Antes de ir trabalhar, meu namorado pediu licença ao pai dele e me beijou um pouco demorado! Pai dele disse como é bonita a felicidade e lamentava que as mães (nossas) não concordariam e no máximo aceitariam!

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