tornar consciente

Como tornar consciente um fato inconsciente

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Vamos pensar a temática do inconsciente e do tornar consciente, tão importante para a psicanálise. Segundo Freud, há elementos que ditam nossa personalidade, nossas vidas e nossos sintomas que estão na parte submersa de nosso iceberg mental. Então, seria possível tornar consciente um fato inconsciente?

A importância da construção de um sentido para as experiências traumáticas e o tornar consciente

A maioria de nós, seres humanos, já experimentou em algum momento da vida uma experiência traumática. Algo que nos “quebrou”, por dentro e por fora, que nos feriu com gravidade, deixando em nós profundas marcas, tanto físicas quanto emocionais, marcas que se arrastam conosco pelos nossos caminhos podendo deixar sequelas pelo resto de nossas vidas.

Isso porque essas experiências dolorosas que vivenciamos em determinados momentos da nossa história podem deixar gravados em nossas memórias conteúdos desfavoráveis ao nosso sistema de compreensão e análise, interferindo direta e indiretamente na forma como percebemos o mundo ao nosso redor e na maneira como nos relacionamos com os outros.

Definição de trauma

Para Freud e Breuer o trauma representa um “choque violento” que afeta o sujeito e desestabiliza o seu aparelho psíquico, causando “perturbações duradouras no seu funcionamento energético”. Winnicott via o trauma como um acontecimento de “ruptura na linha da vida”, porém como algo importante e necessário para o pleno desenvolvimento do indivíduo. Para Lacan, o trauma representa a “entrada do sujeito no mundo simbólico”, um acontecimento muito marcante que, ao interferir na cadeia associativa da mente da pessoa, afeta os elementos em torno do qual ela se constitui.

Mas seja qual for a explicação sobre o trauma, o que podemos perceber facilmente é a imensa força transformadora que ele carrega em si mesmo, uma força tão poderosa que pode representar tanto uma “saída” como uma “barreira” para o desenvolvimento psíquico e emocional do indivíduo. Nós somos seres psicossomáticos, ou seja, somos formados por matéria (corpo), mas também pela energia psíquica que há em nossas mentes e que atua continuadamente criando pensamentos e sentimentos pelos quais significamos as coisas.

Quando vivenciamos experiências traumáticas, sejam elas de qualquer natureza, o seu impacto emocional sobre a nossa estrutura energética pode ser tão forte que desestabiliza o nosso sistema interno de aprendizado, comprometendo a nossa capacidade de análise e percepção sobre os fatores significantes das nossas vivências posteriores. Com isso, vamos acumulando em nossas mentes conteúdos nocivos que, mesmo que com o passar do tempo se tornem inconscientes, ficam ali armazenados em nossa psique influenciando negativamente as nossas ideias, comportamentos e atitudes.

Tornar consciente os conteúdos emocionais

Esses conteúdos emocionais reprimidos ou “afeto estrangulado”, como Freud chamava, podem levar o indivíduo à um profundo sofrimento psíquico e também deixá-lo sujeito à intensas descargas emocionais, que o fazem reviver no presente aqueles terríveis sentimentos que experimentou em seu passado traumático. É por isso que Freud defendia que, para a superação de um trauma, primeiro era preciso encontrar quais eram as ideias e sentimentos que acompanhavam aquele fato, para, a partir dessa identificação, poder “jogá-los para fora” trazendo-os ao nível consciente do paciente.

Seja por meio da rememoração das cenas traumáticas vivenciadas (método catártico) ou pelo método da Associação Livre, em que o paciente podia trazer para a sessão qualquer conteúdo que vinha à sua mente, mesmo aqueles presentes em sonhos, desejos e fantasias, Freud sempre ressaltava a necessidade de “dar voz” aos pensamentos, sentimentos e memórias reprimidas que o paciente carregava em sua mente, proporcionando através disso a liberação de afetos e emoções que estavam represados na psique do indivíduo e também permitindo a identificação de conteúdos latentes que pudessem (re) significar o trauma por uma perspectiva mais elevada de entendimento, uma perspectiva que deixasse mais claro, tanto para o terapeuta quanto para o paciente, quais eram os elementos que davam forma à experiência traumática vivenciada.

Nós somos seres que, naturalmente, buscam atribuir significado à todas as situações que nos acontecem, das mais simples as mais extraordinárias. Em nossas vidas cotidianas estamos continuadamente significando tudo o que vemos e experimentamos, pois é isso que caracteriza o nosso ser e estar no mundo: esse sentido pessoal que colocamos em cada pequena coisa que fazemos, esse significado individual que torna essas coisas “boas” ou “ruins”, “tristes” ou “alegres”, “especiais” ou “insignificantes” para cada um de nós.

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 A superação de um trauma

Dessa forma, todos os nossos dias implicam em uma série de diferentes ideias, percepções, sentimentos e sensações que tomam nossos corpos e mentes e que vão se acumulando dentro de nós muitas vezes sem nem percebermos que eles estão ali se demorando por mais tempo que o necessário, que eles estão ali se solidificando em nosso interior e, com isso, comprometendo a fluidez dos nossos pensamentos. Todos nós construímos “tramas imaginárias” sobre as nossas próprias vidas dentro de nossas cabeças.

Porém, para que consigamos significar corretamente as nossas diversas experiências de modo a torná-las mais saudáveis e construtivas para nós mesmos, é preciso que tomemos consciência sobre as histórias que criamos e que alimentamos dentro de nós para nos definirmos. Precisamos identificar quais são as ideias, sentimentos e emoções que acompanham nossas memórias em relação às experiências que vivenciamos, pois é esse exercício de retorno que poderá melhorar a nossa elaboração psíquica sobre os acontecimentos que fazem parte da nossa história e, com isso, nos permitir reavaliar o nosso enredo para, se preciso, construir um completamente novo, um que ofereça mais sentido e que traga mais beleza e significado para as nossas existências.

O que todos os psicanalistas concordam à respeito da superação de traumas é a ideia de que, para superá-lo, é essencial que a pessoa se torne capaz de compreender racionalmente o que aquele acontecimento representou para ela, pois não se cura um afeto reprimido se você não souber qual é a sua origem e se não reconhecer a importância e o papel que ele teve no desenvolvimento do seu ser. Não se supera uma dor tão profunda e enraizada como a de um trauma se você não entender a mensagem que ela quer passar para sua mente e para a sua vida enquanto individualidade.

Conclusão sobre tornar consciente

Portanto, é mergulhando fundo nas profundidades da nossa mente, até atingir esse espaço desconhecido de nós mesmos que chamaram de inconsciente, que poderemos encontrar as respostas que tanto procuramos, respostas que trarão mais silêncio ao barulho da nossa mente e mais calma às aflições do nosso coração. Uma reconstrução interna Nossas dores, embora difíceis de serem superadas, são importantes porque elas nos significam também.

Elas contam um pouco mais sobre a nossa história, revelam um pouco mais sobre quem nós somos e sobre os caminhos que em nossas vidas escolhemos trilhar. E é somente através do profundo mergulho dentro de nós mesmos que pode ocorrer a nossa “reinvenção”, o nosso “resgate”, pois é ali – na profundidade e não no raso – que estão aqueles conteúdos e elementos ocultos que agem sorrateiramente em nossas mentes desviando a nossa energia e prejudicando a plena expressão dos nossos potenciais.

Será por meio desse esforço contínuo de autopercepção que conseguiremos obter as ferramentas necessárias para continuar atuando na exigente tarefa da nossa reconstrução e ressignificação de nós mesmos, pois são elas que nos tornarão mais capazes e melhor preparados para conseguir transformar aquelas experiências dolorosas, que antes constituíam enormes “barreiras” mentais e emocionais para nós, em verdadeiras pontes de ligação com o nosso mundo interior.

O presente artigo foi escrito por Pedro Costa. Historiador, Escritor e estudante de Psicanálise Clínica. Instagram: _pedro.costa

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    3 thoughts on “Como tornar consciente um fato inconsciente

    1. Muito bom texto! Quanto mais nos aprofundarmos em nos conhecermos ,mais fácil será para nós ajudar os nossos pacientes!

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