tríade obscura

Tríade Obscura: psicopatia, maquiavelismo e narcisismo

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Através desse artigo, quero propor uma introdução ao conceito de “tríade obscura”. Trata-se de um conjunto de três personalidades mórbidas, a saber: a narcisista, a maquiavélica, e a psicopata. De acordo com o artigo “Como reconhecer a personalidade Tríade obscura”, recém-publicado na revista Psychology Today,

Relacionamentos com personalidades da Tríade obscura

Em 2002, os psicólogos Delroy Paulhus e Kevin M. Williams identificaram um trio de tipos de personalidades comumente reconhecidas como patológicas, mas as quais não se encaixam via critérios rígidos em desordens da personalidade ou por meio da patologia Eixo I. Devido ao fato desse conjunto de tipos de personalidade incluir psicopatia, maquiavelismo e narcisismo, tornou-se conhecido como Tríade obscura” (SOEIRO, 2021).

Vale acrescentar ainda, com o autor, que “as pessoas que têm qualquer um desses traços pouco prazerosos e distintos pode não se encaixar nos critérios para as desordens de personalidade narcisista ou antissocial, mas isso não significa que elas não possam ser perigosas” (idem).

O termo narcisismo é oriundo da lenda grega de Narciso, escrita pelo poeta Ovídio. Notadamente, Narciso é atraído pela sua imagem refletida na água, tenta abraçá-la e, ciente da impossibilidade de amar a si mesmo, resolve se dividir, portanto, tomado pelo desespero, ele acaba por se cortar e sangra até morrer.

Tríade Obscura e a Psicanálise Freudiana

No âmbito da psicanálise freudiana, o termo, inicialmente associado aos que Freud chamava de “invertidos”, num segundo momento passa por uma distinção entre narcisismo primário e secundário, sendo que o primeiro ocorre normalmente no âmbito do desenvolvimento psicossexual, enquanto o segundo, ao se manifestar na idade adulta, aponta para um estado doentio.

De acordo com o Vocabulário da Psicanálise, “O narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma, O narcisismo secundário designa um retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2000, p. 289).

Segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, “O narcisismo primário diria respeito à criança e à escolha que ela faz de sua pessoa como objeto de amor, numa etapa precedente à plena capacidade de se voltar para objetos externos” (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 531).

O estágio infantil

Percebe-se que o estágio infantil, de acordo com a segunda tópica freudiana, é aquele no qual o recém-nascido ainda é puro ID (isso), ou seja, o eu ainda não surgiu dessa instância psíquica totalmente inconsciente (o ID). Sendo assim, é normal que o recém-nascido, ou mesmo o bebê, projete seu desejo libidinal sobre si mesmo (autoerotismo infantil), sendo que, como vimos, ele não distingue ainda entre “eu” e “outro”, já que o Ego começará a se formar logo em seguida.

Os autores, a partir da admissão do próprio Freud, enfatizam o fato do narcisismo primário ser difícil de ser localizado e observado, discernido, por ser, justamente, antecedente à constituição do eu.

Pelo que aqui mais interessa, ou seja, o narcisismo enquanto personalidade doentia, vemos que o Dicionário de Psicanálise assim descreve esse investimento libidinal no próprio sujeito: “O narcisismo secundário ou narcisismo do eu, portanto, no início da década de 1920, mantém-se como o resultado, manifesto na clínica da psicose, da retirada da libido de todos os objetos externos” (p. 532). Todavia, os autores realçam que o narcisismo secundário não se limita apenas a casos extremos, o que poderia sugerir a presença de nuanças quanto à personalidade narcisista.

Tríade Obscura e o narcisismo

Apesar do lugar comum associar o narcisismo ao amor por si próprio, é útil frisar que, mais do que a paixão por si próprio, no âmbito da personalidade narcisista, ocorre a criação de uma espécie de “fantasia” de si, o que, por sua vez, remete para o conceito de “ideal do Ego”. Ou seja, o investimento libidinal não é tanto sobre a imagem “real” da própria pessoa (assim, como ela é), e sim, sobre o ideal que a pessoa tem de si mesma. O “problema” do narcisista (secundário), portanto, não é o fato de amar a si mesmo, e sim, de amar um ideal de si, mais uma vez, uma fantasia.

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De acordo com Roudinesco e Plon, “Por outro lado, e isso atesta o caráter incontornável que teve esse conceito na evolução da teoria freudiana do desenvolvimento psíquico, o narcisismo constitui, desde o texto de 1914, o primeiro esboço do que viria a se transformar no ideal do eu” (p. 532).

Ao se considerar o pensamento lacaniano, percebe-se que, voltando ao narcisismo primário, o eu se descobre e se constitui a partir do outro, que é a mãe. A indistinção (acima) entre eu e não-eu, no estágio inicial (pré-histórico) da vida de qualquer indivíduo, aponta também para este espelhamento entre o “eu-bebê” (em realidade ID, isso) e o “eu-outro” (mamãe).

Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis

Reitere-se, dessa vez com Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, que o narcisismo primário é um conceito não consensual, sendo que, “de um autor para outro, a noção de narcisismo primário está sujeita a extremas variações. Trata-se de definir um estado hipotético da libido infantil, e as divergências incidem de maneira complexa na descrição desse estado, na sua situação cronológica e, para certos autores, na própria existência dele” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2000, p. 289)

Quanto à personalidade narcisista, suas características são o enaltecimento de si e o desprezo pelo outro, enxergado pelo narcisista como inferior, e também, como algo (mais do que “alguém”) do qual se servir para se satisfazer, e também, para sustentar sua suposta superioridade. O narcisista precisa ser elogiado em continuação, como a querer sustentar a “fantasia” sobre a qual foi comentado acima. Precisa ser mantido no pedestal. Ao concentrar seu investimento libidinal no ideal do eu, o narcisista é incapaz de amar e, logo, de cuidar de outras pessoas. Só existe ele (ela), ou melhor, o ideal que ele (ela) tem de si.

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    Não se trata exatamente de um estado psicótico de paranoia, com delírios de grandeza, e sim, do enamoramento por um “ideal do eu”. Porém, pode-se observar, com Roudinesco e Plon, que Freud tinha teorizado um duplo investimento libidinal, que coexiste, de maneira alternada, mesmo em casos não tão extremos de narcisismo.

    Tríade Obscura e a libido

    Há uma libido direcionada para o objeto (o outro) e uma libido canalizada para o eu. Segundo os autores: “Nessa perspectiva, a libido de objeto, em seu desenvolvimento máximo, caracteriza o estado amoroso, ao passo que, inversamente, em sua expansão máxima, a libido do eu fundamenta a fantasia do fim do mundo no paranoico”.

    Ou seja, percebe-se haver certa contiguidade entre a organização psíquica psicótica peculiar da paranoia, e o narcisismo enquanto idealização (mórbida) de um eu tão elevado e superior que não há mais motivo para investir a libido no objeto (não-eu, o “outro”), ocorrendo assim a sua retirada.

    É nesse sentido que, o indivíduo da personalidade narcisista, “bom sujeito não é”, principalmente para se ter um relacionamento amoroso, ao menos que o “outro” da situação não goste de ser reduzido(a) em continuação, de não ser amado(a), e ainda por cima, de ter que confirmar a todo momento a superioridade do(a) parceiro(a) “amoroso”, sustentando sua fantasia inerente ao ideal do Ego.

    A superioridade e grandiosidade

    Loren Soeiro aponta que os narcisistas, “no sentido popular – correspondem exatamente àquilo que você pode esperar. São vaidosos, pomposos, metidos, e possuem um senso de superioridade não merecido” (SOEIRO, 2021). As autoras Ariela Raissa Lima Costa e Natália Costa Simões ecoam a descrição dos traços narcisistas de Soeiro, ao resumirem as características (do narcisista) da seguinte maneira: “superioridade e grandiosidade”.

    E ainda, o artigo da BBC “Os três traços de personalidade que caracterizam uma pessoa ‘má’” sugere que, “pessoas narcisistas tendem a se concentrar em si mesmas, fantasiar com poder ilimitado e precisar da admiração constante dos outros” (BBC, 2019).

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    É importante observar que os três principais dicionários de Psicanálise não fazem menção à personalidade maquiavélica, ou seja: o Dicionário de Psicanálise (1998) de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, o Dicionário de Psicanálise (1995) de Roland Chemama, e o Vocabulário de Psicanálise, de Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis (2000). Pelo menos, nenhum dos três textos inclui um verbete específico.

    Tríade Obscura e a personalidade maquiavélica

    A personalidade maquiavélica representa a segunda modalidade incluída na referida tríade obscura (ou sombria). Segundo Loren Soiro, “os maquiavélicos são predominantemente manipuladores e disfarçados, e com frequência buscam gratificação pessoal às custas dos outros” (SOEIRO, 2021). E de acordo com Ariela Raissa Lima Costa e Natália Costa Simões, “no maquiavelismo destaca-se a orientação e o planejamento estratégico” (COSTA e SIMÕES, 2018).

    Ainda, segundo o artigo da BBC, “pessoas que têm esse comportamento muito acentuado costumam ter atitudes cínicas e adotarem estratégias cujo único propósito é beneficiar seus próprios interesses” (BBC, 2019).

    De acordo com a publicação da emissora britânica, com relação à psicopatia, pode-se ponderar que se trata da “falta de empatia com os demais. É a característica de própria de pessoas manipuladoras, não confiáveis e que não se importam com os sentimentos ou interesses de outras pessoas” (BBC, 2019). Ariela Costa e Natália Simões sintetizam a personalidade do psicopata através de “comportamento antissocial e reduzido remorso” (COSTA e SIMÕES, 2018).

    Maquiavelismo e a Psicanálise

    Já, Loren Soeiro enfatiza: “Pior de todos, os tipos de personalidade psicopata – às vezes chamados de sociopatas ou antissociais – são caracterizados por insensibilidade, falta de remorso, impulsividade e a quase total falta de empatia” (SOEIRO, 2021).

    Assim como no caso do maquiavelismo, ou personalidade maquiavélica, os três principais dicionários de Psicanálise não incluem um verbete específico, e mesmo uma pesquisa pontual com os termos psicopata e psicopatia, só resulta, no dicionário de Roudinesco e Plon, em uma menção à difamação sofrida por Wilhelm Reich na Noruega, ao ser chamado de “psicopata”, “charlatão” e “pornógrafo judeu”.

    Não há outras menções, nem sequer indiretas, à psicopatia ou ao psicopata como portador de determinada personalidade doentia. Vale frisar que a pesquisa pelos termos “sociopata”, “sociopatia”, ou mesmo “antissocial”, tampouco produziram quaisquer tipos de resultados nos três dicionários/vocabulários de Psicanálise.

    Personalidades da Tríade Obscura

    O artigo da BBC sugere, ainda, que “os três traços estão presentes nas pessoas emocionalmente frias. Alguns estudos mostraram que pessoas com altas pontuações na ‘Tríade obscura’ também possuem níveis baixos de características como simpatia, honestidade e humildade” (BBC, 2019). Compreende-se que, pelos traços característicos, as personalidades da Tríade sombria tornam bastante penoso, ou mesmo inviável, o convívio, em termos de relacionamento amoroso, com indivíduos “portadores” das referidas personalidades (narcísica, maquiavélica e psicopata).

    Ainda, segundo o artigo da BBC, alguns pesquisadores apontam uma quarta personalidade, no caso, aquela sádica. Todavia, a própria matéria ressalta o fato de não haver consenso a esse respeito, e cita a pesquisadora em Psicologia Minna Lyons (Universidade de Liverpool), a qual pondera, “se alguém tem pontuação alta em psicopatia, ele não necessariamente gosta de causar dor a outras pessoas, então parece ser um traço de personalidade distinto” (BBC, 2019).

    A este respeito, é interessante relembrar que, para Freud (1905), todo sádico, inconscientemente, é masoquista, e vice-versa, todo masoquista, inconscientemente, é sádico. O(a) sádico(a) sente prazer em infligir dor física ou psicológica (humilhar), em várias nuances e modalidades, enquanto o psicopata não sente prazer, e sim, ele(a) é insensível ao sofrimento e/ou aos desejos, anseios e necessidades alheias, isto é, não está minimamente preocupado com o outro, ainda que não chegue a causar dor ou sofrimento direto.

    A afetividade

    Contudo, é preciso realçar o plural utilizado por Soeiro (acima) quando o autor fala em “tipos” de psicopatia, pois existem diversos, e não apenas um, como se costuma ler ou ouvir. O que resulta claro é que, com personalidades da Tríade obscura é melhor não se vincular afetivamente, ou seja, é melhor não se relacionar. 

    A pesquisa sobre Tríade obscura associou os traços com problemas significativos em relacionamentos, e com um amplo leque de comportamentos interpessoais inconvenientes. Isso significa agressão, violência, coerção, ou manipulação no local de trabalho, ou hedonismo, saídas de uma noite, e usar as pessoas para o sexo. Poder-se-ia resumir melhor a personalidade da Tríade obscura dizendo que ela foi associada até com os Sete Pecados Capitais (SOEIRO, 2021).

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    É útil acrescentar, com o mesmo autor, que há diferenças bastante significativas entre as três personalidades, sendo que o único fator comum seria a falta de “concordância”, ou “uma distinta falta de concordância, a pessoa poderia dizer educadamente”.

    Tríade Obscura, preocupação e culpa

    E a partir daí, o autor destaca que a psicopatia difere das outras duas personalidades, devido ao fato de ser a menos neurótica, no sentido em que é aquela que tem menor inclinação para “preocupação ou culpa”, o que, segundo Soeiro, “faz bastante sentido, pelo fato do cérebro dos sociopatas mostrar menos conexões entre as regiões neurológicas das quais deriva a ansiedade” (SOEIRO, 2021), o que confirma o viés frio e calculador do psicopata.

    Estes e os maquiavélicos mostraram ter “baixa conscientização (ou seja, eles não perecem ter nenhum desejo por ‘fazer a coisa certa’” (idem) no sentido de se comportar corretamente ou, utilizando uma expressão bastante em auge, ter uma postura “politicamente correta”.

    No âmbito das psicopatologias, há outras organizações psíquicas que tornam bastante penoso ou inviável manter um relacionamento, a saber: a personalidade limítrofe, ou borderline, e também, a fixação na fase anal, a qual, assim como a personalidade borderline, aponta para ambivalência (amor e ódio ao mesmo tempo) e certo grau de manipulação.

    A sensação psicológica de onipotência e dominação

    Lembremos com Freud que, assim como a criancinha na fase anal pode desenvolver certo prazer em segurar as fezes, tanto pela sensação física, como pela sensação psicológica de onipotência e dominação; as pessoas fixadas na fase anal tendem a reter o “outro”, isso é, a dominá-lo, manipulando os relacionamentos.

    E o(a) borderline também tende a manipular, inclusive, induzindo o(a) parceiro(a) a entrar em discussões que esse “outro” gostaria de evitar, sendo que, em seguida, o(a) limítrofe tende a se fazer de vítima, num ciclo desgastante para a pessoa que com ele(a) mantém o laço afetivo.

    Evidentemente, as demais organizações psicóticas, como a bipolar, a paranoica e a esquizofrênica, dificultam o relacionamento, primeiramente devido ao fato que o psicótico, de uma forma geral, está em conflito consigo mesmo e com a realidade (não-eu). No entanto, existem nuances e graus de acometimento, assim como é preciso considerar a eventual boa conduta de psicóticos que aceitam tomar neurolépticos com zelo e disciplina, e também, são acompanhados pelo psiquiatra e por outros profissionais do campo Psi, como é o caso de alguns psicanalistas e/ou psicólogos.

    Considerações finais

    Quanto à Tríade obscura, é aconselhável que, se alguém tomar ciência de estar se envolvendo com alguém da personalidade narcisista, maquiavélica, ou psicopata, essa pessoa procure imediatamente o acompanhamento de um profissional do campo Psi (psicanalista, psicólogo, psiquiatra) e que, sem dó, saia do relacionamento.

    Nesse quesito, as fontes consultadas para a redação desse artigo concordam e, cada uma à sua maneira, enfatizam que é oportuno se distanciar (tão logo) da pessoa com a qual estão mantendo o laço afetivo.

    Referências

    BBC News Brasil. Os três traços de personalidade que caracterizam uma pessoa ‘má’. Online, 2019.

    Chemama, Roland. Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1995.

    Costa, Ariela Raissa Lima. Simões, Natália Costa. Três é demais: Conceito e avaliação da tríade sombria. Online, 2018.

    Laplanche, Jean. Pontalis, Jean-Bertrand. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

    Roudinesco, Elisabeth. Plon, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

    Soeiro, Loren. How to recognize a “Dark Triad” personality. In: Psichology Today. Online, 1 de setembro, 2021.

    O presente artigo foi escrito por Riccardo Migliore([email protected]). Doutor em Letras pela UFPB. Psicanalista Clínico em fase de supervisão pelo IBPC, pós-graduando em Psicanálise pela Faveni, matriculado no curso avançado Tópicos de Clínica Psicanalítica. Analisando. Colunista pelo portal do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica. Psicoterapeuta, atualmente trabalha com Hipnose clínica, Programação Neurolinguística (PNL) e Meditação terapêutica.

     

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