Neste artigo, discutimos como a psicanálise clínica pode contribuir para a promoção da saúde mental no contexto da atenção básica. Partindo de uma leitura crítica das transformações sociais e suas repercussões psíquicas, o texto reflete sobre o papel do analista diante dos desafios contemporâneos, especialmente na escuta do sujeito do desejo e no acolhimento de pessoas em sofrimento. Ao relacionar teoria e prática, a autora propõe uma análise sensível sobre o impacto do transtorno mental nas vidas singulares e no funcionamento das instituições de cuidado.
Saúde mental no mundo contemporâneo
A sociedade em constantes transformações pode inibir o desenvolvimento dos sujeitos que não conseguem se adaptar ao processo, principalmente pela rapidez com que ele acontece. Isso gera conflitos internos pelas cobranças sociais ou mesmo internas que os assombram no seu dia a dia, necessitando de ajuda para encontrar seu próprio caminho nesse meio atordoado.
Por isso, o tema aqui proposto é a relação da psicanálise com a saúde mental nos tempos atuais, pois ela pode ser um caminho para ajudar essas pessoas nesses momentos tão incertos na sua vida. E o objetivo desse trabalho é compreender como a psicanálise pode contribuir para atender as necessidades das pessoas que sofrem com algum tipo de saúde mental.
Assim, as questões de saúde mental e sua relação com a psicanálise podem ser uma discussão relevante para a formação de um profissional consciente de suas responsabilidades perante seu trabalho. O trabalho é um meio de analisar o tema para comprovar a hipótese de que há relevância na psicanálise para o tratamento de pessoas com doenças mentais provenientes do mundo moderno.
Para integrar essa discussão, a metodologia será uma pesquisa bibliográfica com especialistas sobre o tema. Em seguida, será realizada uma coleta dos dados mais relevantes para a construção dos conceitos desse processo e finalizado com a elaboração do texto como referencial da aquisição do conhecimento.
Atenção básica e escuta clínica
Portanto, o trabalho será um meio de elaborar ideias sobre a psicanálise como meio de ajuda. As pessoas que sentem suas mentes confusas perante a sociedade atual acabam por adoecer e necessitam de um tratamento adequado ao processo no qual estão passando. E a psicanálise tem como objetivo guiar as pessoas para a compreensão de si mesmas e de seu lugar no mundo.
O mundo contemporâneo pode trazer complicações pela velocidade das mudanças e das informações que são despejadas no meio social, e nem todos se sentem preparados para tanto. Isso pode acarretar problemas que levam as pessoas a se sentirem inseguras, indecisas, sem autoconfiança e com medo, gerando diversos tipos de problemas na sua saúde mental.
Os termos em que se define saúde mental são escorregadios, amplamente criticáveis, e, longe de pensarmos em termos melhores, o que apontamos é a impossibilidade de uma descrição e de critérios pertinentes em nível macro e externo aos sujeitos que sofrem.
Para que o atendimento à saúde mental aconteça em nível primário da atenção básica, é necessário que os profissionais sejam preparados a ouvirem e reconhecerem que a demanda em saúde mental vai além da doença/transtorno mental instalado, como também requer um pensar e agir pautado na atenção psicossocial, e de uma comunicação efetiva entre os profissionais de saúde com os serviços de saúde mental.
O sujeito do desejo e o tratamento psicanalítico
Em uma aproximação com o campo da saúde, torna-se perceptível o uso frequente do termo saúde mental. Ele é utilizado em legislações ou políticas governamentais, como designação de serviços da saúde, também aparece em manuais, em artigos científicos, em livros, nos meios de comunicação, além de ser referido pela comunidade em geral. Ainda assim, essa constante e curiosa repetição não indica que exista um consenso sobre o que, de fato, signifique saúde mental.
As relações entre saúde/doença mental e vulnerabilidade social são muito complexas e exigem uma série de reflexões e contextualizações para serem compreendidas de forma que não reproduzam uma lógica simplista que associa “loucura” e “pobreza”, reforçando a estigmatização e o preconceito com relação à população menos favorecida.
Trabalhar com saúde mental expõe os trabalhadores a inúmeras tensões no seu cotidiano. Criar atividades de capacitação e educação permanente das equipes torna-se fundamental para evitar a burocratização e a ineficácia das práticas clínicas.
A existência de uma pessoa inclui os erros, os fracassos, as privações, as opções de vida, os desejos, as angústias existenciais, os desafios e as contradições. Quando criamos um conceito de saúde que impede uma conexão com a vida cotidiana, que exclui as oscilações, as possíveis aventuras e as escolhas singulares, relacionando qualquer afastamento da regra a uma espécie de crime e merecedor de um determinado castigo, estamos, ao contrário de produzir saúde, normatizando o comportamento.
Desafios institucionais na psicanálise clínica
Vivemos perigosamente às beiras da infâmia e do desrespeito pelos direitos civis, políticos e sociais. Em geral, as pessoas que sofrem de transtornos mentais possuem fragilidades na sua socialização, inserção social e no mercado de trabalho. São menos bem-sucedidas que a média no âmbito da concorrência feroz que caracteriza nosso capitalismo tardio periférico, e tendem a engrossar a multidão de desempregados e desviantes colocados nas bordas da marginalidade.
É importante reconhecer elementos que nos permitam perceber os territórios mais vulneráveis com outros olhos, não somente negatividade, mas certa potência que se alicerça exatamente num tipo de exclusão.
A expansão da cobertura de serviços que visam ao recovery como centros de convivência, serviços de geração de renda, torna-se fundamental. Assim como a implementação de estratégias ativas de combate ao estigma.
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Muitos ainda são os desafios para solidificar as políticas de saúde mental. Para que isso aconteça, é necessário consolidar e ampliar a rede de atenção básica, com preceitos de base comunitária e territorial, e ainda, é necessário que o entendimento dos profissionais que atuam na atenção básica esteja voltado para a ideia de saúde.
As pessoas têm como instituição base a sociedade onde precisam interagir e conviver com todos os tipos de pessoas. E nem sempre esse convívio é saudável, prático e confortável, gerando situações que podem levar o sujeito social a sofrer de algum tipo de doença mental.
Sabe-se que conseguir permanecer na posição desamparada e suportar a dor que ela provoca é um grande desafio, e talvez também um risco, ainda mais quando se trata de sujeitos que têm sua vulnerabilidade maximizada devido à distribuição diferencial da condição de precariedade em nossa sociedade.
Desdobramentos Clínicos e Desafios na Atenção Básica
As dificuldades mentais que as pessoas passam decorrem do fato delas se sentirem inseguras diante da realidade que as cerca. Sentem que não são capazes de enfrentar seus desafios sozinhas e precisam de alguém para enxergar seus medos e receios e superar seus problemas.
Esses receios se agravam quando a insegurança está relacionada ao meio social no qual a pessoa está inserida e nas incertezas que causam o medo de não se adaptarem. É nesse contexto que a psicanálise vem sendo cogitada para atender as necessidades dos sujeitos que adoecem mentalmente.
Mas é preciso compreender que, para a psicanálise ser eficiente no processo de ajudar as pessoas a terem mais qualidade mental, os psicanalistas precisam estar preparados e capacitados para atuarem com responsabilidade. Essa reflexão reflete diretamente nesse profissional como ponto de partida para dar mais qualidade para seus pacientes e trazer para o seu consultório um ambiente tranquilo e acolhedor.
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Este artigo foi baseado no Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Albérica Virgínia de Luna, originalmente apresentado sob o título: A relação da psicanálise com a saúde mental nos tempos atuais.
