Bebês reborn despertam debates sobre vazio existencial, saúde mental, demência e estratégias de marketing no Brasil.

Bebês Reborn e o Vazio Existencial: Entre a Demência e o Marketing

Publicado em Publicado em Psicanálise e Sociedade

Vamos examinar inicialmente, o que são esses denominados bebês reborn; por que eles efetivamente, ganharam taxa de atenção de corações e mentes; a posição desse artefato na constelação familiar de muitas pessoas; a era que estamos presenciando, já chamada de era do ‘homo demens’; a crise ou inversão de valores.

No fecho, em conclusão vamos ofertar uma resposta preliminar à seguinte indagação: “Afinal, os casos são de demência ou indução planejada e deliberada de estratégias e táticas de marketing?” Nosso primeiro passo, vamos examinar o que são esses bebês reborn.

Definição e características dos Bebês Reborn

Os chamados ‘bebês reborn’s’ são bonecos criados por artesãos com novos tipos de materiais emergentes e são chamados de bonecos hiper-realistas que imitam e se parecem com bebês reais. A princípio são feitos à mão, por pessoas conhecidas no jargão pop de ‘artesãs cegonhas’.

Utilizam para confecção preferencialmente silicone, vinil, panos, que são mais flexíveis, macios e imitam bem a pele humana, mas também usam esponjas, técnicas de sombreamento, texturas, tintas modernas atenuadas com produção de veias, vincos, implantes de unhas e cabelos postiços.

São bonecos que podem ser customizados (pedidos sob medida e estilos), que custam numa faixa de R$ 199,00 até 40.000 mil reais, dependendo onde for encomendado e adição de material compósito.

No Brasil, o topo de preço, na média, tem sido R$ 15 mil reais os mais sofisticados. Alguns têm o kit bebezinho com óleos para uso, talco, fralda e enxoval padrão, vestuários diferentes, o que onera os custos.

O termo ‘reborn’ significa ‘renascido’. Muitos desses bonecos(as) são considerados brinquedos pelos donos e também, para muitos, objeto de coleções.

No Japão, onde já existem as mulheres reborn e as bonecas replicantes sexuais, os bebês reborn ganham software onde choram, falam, respondem emoções, fazem necessidades biológicas. Muitos bebês reborn podem vir com genitália sob medida.

Ascensão midiática e fatores culturais envolvidos

Os bebês reborn (que vem de ‘reborn doll’ em inglês) são uma arte feita à mão na Inglaterra. Mas teriam vindo da China, na década de 1990, como um ‘hobby’ por entusiastas de bonecas.

Por isso surgiu o termo ‘renascimento’, porque a base padrão eram antigas bonecas. Nasceu então a ideia de fazer não só bonecas realistas tamanho normal como bebês.

Na verdade, existem relatos de encomendas de boneca pós o sucesso de infláveis, e o Japão ter entrado no mercado de ‘replicantes’, que são bonecas mulheres tamanho normal com aparelho sexual sob encomenda. Então, já existe um precedente.

Emergiu a ideia de fazer bebês. Criaram um kit para fazer tais bonecas, denominado de ‘kit newborning’ que os artesãos fazem sob medida, a pedido, o que foi criando uma demanda com vários eixos.

Um dos eixos seria bonecas para lidar com a dor psíquica de perdas, uma criança em óbito e gerado traumas em famílias. Outro eixo, colecionadores. Um terceiro eixo, seriam os pedófilos. Estes portadores de parafilias passaram a customizar o pedido com órgãos sexuais.

Os Bebês Reborn na vida íntima das pessoas

Um outro eixo foi se erguendo em alguns países que passaram a usar como terapia num processo de luto ou ainda como instrução de futuras genitoras, em escolas para ensinar mães de primeiro parto.

Escolas de enfermagem e medicina, também, passaram a demandar face à aparência realista e com órgãos internos. Portanto, o tema não é recente, já possui um histórico pregresso com dados divisórios bem demarcados.

O Japão atualmente é o maior produtor em escala de boneca mulheres replicantes sexuais com tecnologia de ponta embutida que substituem as infláveis.

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Com máxima certeza, a futura alta demanda de bebês reborn e sua industrialização em escala vai ativar uma grande demanda com aperfeiçoamentos, com plataformas de softwares e aplicativos, muitos avanços.

Ganhou muita taxa de atenção porque gerou alta demanda e conquistou muitas mentes e corações. Por essa razão, muitos acreditam na escala industrial futura.

Implicações psicológicas e vínculos afetivos

Nesta subparte é de fato onde entra a análise das ciências Psi, seja ela via psiquiatria, psicologia ou psicanalítica.

Porque passou a envolver a saúde mental e porque entrou em jogo a forma de tratamento ou recepção desses bonecos na vida íntima dos interessados na esfera dos desejos, eis que são bonecas hiper-realistas, muito bem tratadas como se fossem filhos, netos, sobrinhos, adotados em um pseudo desamparo, onde eles possuem uma posição de encaixe, ou até de substituição.

Algumas famílias que perderam bebê duma filha, por exemplo, em parto, dão de presente um bebê reborn, o que vai gerar um grande apego e apreço.

Não será tão fácil remover o boneco(a) da vida de uma menina que perdeu um filho num parto por algum incidente, acidente ou uma causa congênita. A posição de encaixe será no sentido de ocupar um espaço, um buraco na alma da pessoa que sofreu a perda.

A era do ‘homo demens’ e a busca por sentido

A pessoa passará a fazer um grande investimento psíquico em tal objeto com o respaldo emocional. Em outros casos, o boneco(a) vai ocupar um espaço duma crise de procriação.

Nesse sentido existem ‘n’ tipos de motivação, pois cada caso é um caso bem subjetivo. Pode ser uma pessoa que tenha casado com outra incapaz de gerar. E ainda, podemos estar diante de psicoses.

Evidente que será necessário uma prospecção via anamnese para se perscrutar e fazer o correto achado da causa do porquê uma pessoa se apega a um boneco(a) quase realista e lhe dá força motriz projetada, mas só vivenciada pela cabeça da pessoa que adotou o sósia de um bebê sabendo que não tem vida real, mas imaginária.

A posição material de ocupação é um vazio existencial que está sendo preenchido. Por analogia, existe um buraco no espírito de tal pessoa que será preenchido.

Haverá sem dúvida a formação de um vínculo psíquico com várias implicações. E muitas dessas implicações estão culminando em registro de BO em delegacia.

Uma menina ajuizou ação trabalhista ao ser discriminada ao levar seu bebê reborn ao trabalho. Outra, levou até um posto de saúde do SUS e pediu atendimento para gripe e vacina. Alguns querem tentar registrar em cartório com seu sobrenome e um pré nome bonito.

Valores em crise na sociedade pós-moderna

Poderemos quem sabe chegar a um estágio onde haverá um cartório especial para reborn. Já existem casos de meninas pedirem licença maternidade ou no trabalho, pedir tempo para trocar fraldas e dar mamadeira ao reborn. Como lidar com isso tem sido o desafio.

Para muitos estudiosos, nós estamos já inseridos numa pós-modernidade líquida e vaporizada, ou seja, tudo passa rápido e instantâneo, restando apenas as memórias.

A pós-modernidade se firmou com a consciência de que vivemos horas no planeta e vamos embora. Uma pessoa média que tenha uma existência natural de 75 anos, na realidade vive 657 mil horas.

E as horas passam vaporizadas onde ficam lembranças das fotos agora digitais. Isso criou a pós-modernidade chamada de líquida e vaporizada.

É não deixa de ser uma verdade técnica existencial incontestável, sendo a morte estação final de todos. A consciência desse prazo de validade matematizado leva muitas pessoas ao desatino, e tais desatinos são chamados de atos de demência.

E essa demência vem se manifestando em vários fenômenos que são catalogados. Um deles, é o da febre dos bebês reborn, que não tem tido um efeito só em mulheres. Alguns homens também estão adotando bebês reborn.

O futuro dos Bebês Reborn na cultura e na saúde mental

Muitos fenômenos que não aconteciam e agora estão aflorando no tecido social são considerados atos de demência. Aqui vale salientar que existem analistas que usam o bebê reborn como uma terapia em alguns cases para investigar traumas e conflitos não resolvidos.

O desafio é substituir depois o bebê reborn pelo quê? Por um bebê real? Isso irá acontecer em um dado momento, a transição terá que ser deflagrada. E como fazer isso é que será o desafio.

Este tópico foi selecionado porque a sociedade atual, pós-moderna, induz o princípio do aqui-e-agora e do já-provisório no lugar do ainda-não. O que era o princípio do ainda-não?

Era um adiamento de desejos e satisfações até a pessoa estar em condições de ficar à altura de tal situação. Era uma espera que já não existe mais. A ânsia é realizar aqui-e-agora e já, sem esperar e adiar. Isso inverteu a escala de valores.

Bebês Reborn: demência ou marketing?

Vejam o que relatou uma menina outro dia: “Por que vou esperar ter um bebê se posso comprar um bem realista e já ir curtindo?!” Outros relatos são de causar espécie e perplexidade, do tipo: “Levei meu bebê num médico e ele se negou a atender e medicar e disse que não existe, que é um boneco, mas pra mim o meu bebê ele é real e existe!!!

Isto é bem sintomático. Outra pessoa disse: “Quero agora meu bebê e dane-se o mundo se não aceitarem ele!” Isto demonstra bem que existem muitos pontos críticos de análise onde o aqui-e-agora e o já-provisório falam mais alto e geram muita ansiedade onde muitas pessoas vão buscar tratamento via psicofármacos.

Não deixa de ser uma experiência da pessoa, que está possuindo um boneco(a) similar a um bebê real de carne e osso e alma, e que formará tranquilamente um vínculo, até porque o objeto ocupa um lugar no ego da pessoa.

E aqui vale salientar que o superego (parte moral) não tem como reagir. A pessoa sabe moralmente que é um boneco, mas quer esse boneco e se apegou a ele.

Porque perguntaram para uma menina: ‘Você não viu que isso é um boneco (a) muito parecido com um bebê real mas, não tem vida?’ Resposta: “Vi sim, sei disso, mas é meu bebê e pra mim tem vida e é meu e ninguém vai tomar de mim, senão vou fazer um BO na Delegacia!

Percepção subjetiva e o lugar simbólico dos Bebês Reborn

O que se vislumbra de desfecho futuro é que o boneco(a) ocupa um lugar no espírito da pessoa, um buraco existencial e evidente que terá que ser um dia substituído.

A boneca passa a competir com o animal de estimação também, por taxa de atenção, porque é um novo entrante e até quem sabe, um potencial substituto do gatinho ou do cachorrinho.

Ou será integrado na constelação. A tendência é crescer muito essa demanda customizada e será um desafio para os operadores das ciências psi, não apenas entender a questão, mas como fazer uma transição. Para que o bebê real entre, o bebê reborn terá que ser alijado, defenestrado, extraído da alma da pessoa.

Diante de tudo o que foi acima exposto nos tópicos pré-selecionados, para análise, com relação ao fenômeno sintomático do efeito bebê reborn, e face ao questionamento, “Afinal, os casos são de demência ou indução planejada e deliberada de estratégias e táticas de marketing?”, entendemos que ainda não é um case de marketing.

A questão não está atrelada à demanda customizada ou não, de produção de bebês reborn’s aparentes e falsos sósias, porque ainda não atingiu uma escala industrial, ainda está numa fase de artesãos cegonhas que atendem pedidos muitos dos quais bem customizados (cor dos olhos, cabelos, roupas, cor de pele, com ou sem genitália, com ou sem kit aditivo).

Mas, vale destacar que a tendência é a escala de produção com mais avanços de aperfeiçoamento, com software e aplicativos.

E por fim, importante salientar que cada caso é um caso, que precisa ser bem prospectado e bem avaliado para se chegar num diagnóstico certeiro.

Porém, existe uma demência em curso que também abarcou esse fenômeno entre outros. A avaliação é preliminar, pois estudos estão sendo desencadeados e muitos novos achados poderão vir à tona e esclarecer melhor o fenômeno.

Edson Fernando L Oliveira é formado em Psicanálise pelo IBCO, possui PG em Psicanálise, Filosofia Clínica e cursa PG em Psicofarmacologia. Contato: [email protected]

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