Neste artigo, exploramos como o fluxo de consciência na obra de Virginia Woolf revela uma subjetividade em ruína, especialmente na figura de Clarissa Dalloway. A partir de uma leitura psicanalítica, refletimos sobre o modo como a linguagem fragmentada e o tempo subjetivo expressam um drama interior sustentado entre o real do inconsciente e a superfície da vida social. O texto propõe que Clarissa encarna um gesto ético de sobrevivência, enquanto sua experiência ecoa as angústias não simbolizadas que marcam o humano.
Clarissa Dalloway e o Tempo Partido: Entre a Superfície do Cotidiano e a Subjetividade em Ruína
Vamos a uma leitura psicanalítica da personagem Clarissa Dalloway, da obra homônima de Virginia Woolf, a partir dos conceitos de tempo subjetivo, melancolia e real do inconsciente. A narrativa fragmentária de Woolf não apenas revela uma consciência em fluxo, mas sustenta o drama de um sujeito em fenda constante entre o vivido e o sentido.
Clarissa é uma mulher que habita a superfície da vida social, mas cuja interioridade denuncia fraturas que resistem à simbolização. A escuta psicanalítica revela como a experiência do vazio, do luto e da descontinuidade constituem não só a personagem, mas o próprio gesto ético de existir.
Aparência e profundidade em Clarissa Dalloway
Clarissa Dalloway é a anfitriã de sua própria ausência. À primeira vista, uma mulher envolvida com flores, festas, cumprimentos e pequenas cortesias. Mas Mrs. Dalloway, não é um romance sobre etiqueta, é um mergulho no abismo do pensamento. Woolf escreve o tempo como quem atravessa um espelho e Clarissa, a personagem construída em cortes de memória, é mais um intervalo do que uma presença.
A psicanálise, ao se aproximar dessa subjetividade que não se diz diretamente, mas se insinua nas dobras da linguagem, permite compreender Clarissa como o nome de uma experiência radical do Eu: um sujeito dividido entre o que aparece e o que resta não dito. Entre o que se espera dela e o que ela não sabe nomear em si.
Tempo subjetivo e descontinuidade
Virginia Woolf desconstrói a narrativa linear para dar lugar ao tempo subjetivo, tempo que retorna, que invade, que se desorganiza. O dia de Clarissa é também o dia de Septimus, ex-combatente de guerra que se mata ao final do romance. Ambos não se encontram, mas compartilham o mesmo fundo: o insuportável da existência. A diferença é que Septimus não suporta o peso da vida, enquanto Clarissa suporta, essa diferença, por vezes, é quase imperceptível.
A psicanálise lacaniana trabalha com a noção de tempo lógico: há momentos em que o sujeito é tomado por algo que não compreende, mas que organiza seus gestos. O retorno das lembranças em Clarissa – Peter, Sally, o beijo na juventude, o casamento – não é nostálgico, mas sintomático. O passado irrompe no presente como furo, como gozo interrompido. O tempo aqui não é linha, mas rasura.
Entre o real do inconsciente e a superfície da vida social
Clarissa Dalloway representa uma subjetividade cortada. Em sua vida há tudo o que se espera de uma mulher de sua posição: casamento, maternidade, festas, convites. Mas ela habita essas funções como quem usa um vestido justo demais. Há desconforto, deslocamento, ruído. No centro do tudo, há uma pergunta que Clarissa não formula, mas que a ronda: “O que sou para além do que represento?“
No registro lacaniano, poderíamos dizer que ela está atravessada pelo real, aquilo que escapa à simbolização, que resiste à nomeação. Há algo que insiste em sua experiência, e que retorna de modo cortante: a morte, o tempo, o amor não vivido, o vazio de um dia que começa como todos, mas nunca é como o anterior.
Fluxo de consciência e defesa contra o vazio
Clarissa organiza uma festa. A ornamentação, os convites, os detalhes – tudo isso é mais que vaidade: é defesa. Um gesto obsessivo, quase maníaco, diante de um fundo que ameaça ruir. Winnicott diria que Clarissa constrói um falso Self que sustenta sua vida social, mas que não basta para acolher seu mundo interno. A sua gentileza é a forma que encontrou para silenciar um grito que ela mesma não escuta por completo.
Há uma passagem em que Clarissa sente o peso da morte de Septimus, mesmo sem conhecê-lo. Nesse instante, algo se comunica entre dois sujeitos que jamais se encontraram: a angústia que os habita é, em alguma medida, compartilhada.
Clarissa reconhece, sem saber, que aquele gesto extremo fala algo também sobre dela. Que o suicídio não é alheio – é, talvez, o outro lado da mesma moeda da sobrevivência que ela escolheu representar.
Desejo reprimido e subjetividade em ruína
Em uma das passagens mais íntimas do romance, Clarissa recorda o beijo que deu em Sally, ainda jovem. Não se trata apenas de memória amorosa, mas de um acontecimento que resiste ao tempo, como um fragmento pulsante de verdade. Clarissa não pôde sustentar esse desejo, talvez nem compreendê-lo na época. Contudo, a lembrança insiste, como resto, como trauma e como possibilidade.
Freud, em Recordar, Repetir e Elaborar, observa que o que não foi simbolizado retorna como repetição. O beijo em Sally, que surge repentinamente no fluxo de consciência, aparece menos como desejo sexual e mais como expressão de algo vivo que ficou sepultado sob as convenções sociais. Clarissa perdeu algo de si ao não insistir nesse caminho e o luto por essa perda, ainda que difuso, estrutura sua relação com o presente.
Entre o brilho e o vazio
Clarissa Dalloway não é heroína nem vítima, ela é sujeito. A sua vida, marcada por cortes, escolhas interrompidas e gestos contidos, revela a difícil tarefa de habitar o próprio vazio sem ceder ao desespero. Ao contrário de Septimus, ela segue viva. Mas paga por isso com uma vida onde o brilho é escudo, e a festa é silêncio disfarçado.
A escuta psicanalítica nos convida a perceber que, na linguagem aparentemente suave de Virginia Woolf, pulsa um drama subjetivo intenso, em que o tempo não cura, o amor não salva, e a vida é sustentada por fragmentos. Clarissa vive – e talvez isso seja, em si, um ato.
QUERO INFORMAÇÕES PARA ME INSCREVER NA FORMAÇÃO EM PSICANÁLISEErro: Formulário de contato não encontrado.
—
Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
