Entenda como o transtorno dissociativo se desenvolveu a partir da histeria e ganhou novos contornos na psicanálise moderna.

Transtorno Dissociativo: A Evolução da Histeria no Campo Psi

Publicado em Publicado em Conceitos e Significados

Neste artigo, exploramos o percurso histórico da histeria, desde suas origens como uma doença exclusivamente feminina até sua reclassificação como transtorno dissociativo. Ao revisitar os marcos teóricos e clínicos que envolveram figuras como Freud e Charcot, buscamos compreender como as questões sexuais não resolvidas e os sintomas físicos sem causa orgânica influenciaram a construção da psicanálise e das abordagens atuais no campo psi.

Histeria: Do surgimento aos dias atuais

Podemos dizer que a Histeria possui uma relevância histórica muito grande dentro da obra de Freud no desenvolvimento das bases da Psicanálise, pois foi a partir dela que os estudos foram avançando para além do sistema nervoso e chegou ao inconsciente.

Breve histórico

O termo Histeria é bastante antigo.

Tem-se, pelos registros mais antigos, de ter sido utilizado por Platão, filósofo e matemático da Grécia antiga; por Hipócrates, médico grego, também do período clássico da Grécia Antiga, considerado o “pai” da medicina; ambos em época antes da Era Cristã, em torno de 400-300 a.C. e posteriormente pelos egípcios há mais de 2000 anos atrás.

Neste período a Histeria era associada ao útero e que após a mulher sofrer algum conflito, aflição forte, fazia com que esse útero se deslocasse de lugar, portanto era uma doença exclusivamente feminina.

Essa concepção durou muitos séculos até que Galeno de Pérgamo, um reconhecido médico e filósofo romano, expert no estudo da anatomia humana, foi contra essa teoria e afirmou a impossibilidade do órgão mover-se de lugar.

A histeria com o passar dos anos

Com o passar dos anos outras teorias foram levantadas associando os casos de Histeria à presença demoníaca. Talvez porque não era uma doença fácil de ser diagnosticada e as pessoas que buscavam ajuda geralmente estavam em meio à crises com gritos, convulsões, situações que assustavam os que presenciavam e daí veio a adjetivação de “histéricas”.

Esse conceito associado à ação demoníaca perdurou por muito tempo e se acreditava inclusive que ela era a causa das mulheres se tornarem estéreis após a puberdade. O que não conseguia ser explicado, era considerado bruxaria, então durante a Idade Média muitas mulheres foram queimadas vivas por terem sido consideradas bruxas.

Somente do século XVII em diante, época em que viver-se-ia a transição do feudalismo para a chegada do capitalismo no século XVIII, a medicina passou a olhar para esta doença do ponto de vista somático.

O primeiro grande avanço foi descobrir, através do médico francês Charles Lepois, que ela não era exclusiva das mulheres e que podia ser acometida aos homens e às crianças também e em especial aos que sofressem de hipocondria, ou seja, pessoas que temem por sua própria saúde e desenvolvem ansiedade em relação a isso.

Mais tarde em 1862 a Histeria passou à condição de doença nervosa com os estudos do médico neurologista francês Jean-Martin Charcot.

Ele conseguiu demonstrar utilizando o método da hipnose que as paralisias dos seus pacientes “sumiam” durante o estado hipnótico, sendo considerada então uma questão psiquiátrica e não física, pois ao interferir no seu processo mental a limitação física desaparecia.

Freud e a Histeria

Os primeiros ensinamentos recebidos por Freud neste assunto foi com o Dr. Charcot na França onde ele conseguiu uma bolsa e foi estudar junto ao renomado médico que fazia grandes avanços na neurologia da época. Aprendeu a aplicação do método da hipnose e pôde constatar os achados de Charcot.

Porém Freud, mais novo que seu professor  e com sede de aprendizado, continuou os estudos e percebeu que poderia realizar intervenção no paciente sem colocá-lo em estado hipnótico.

Isso se daria por meio do discurso, da conversa livre, que mais tarde ficou conhecido como método da “associação livre”.

Com Dr. Breuer avançou bastante nos estudos da mente, do psiquismo e desenvolveu com ele teorias como a da neurose, a partir dos estudos pregressos da Histeria, seu primeiro grande objeto de estudo.

QUERO INFORMAÇÕES PARA ME INSCREVER NA FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE

Erro: Formulário de contato não encontrado.


Pode-se dizer que a Histeria foi o início da linha que teceu as bases da Psicanálise que hoje conhecemos.

Diferentemente de Charcot, Freud acreditava que a Histeria tinha origem nas questões sexuais não resolvidas do indivíduo, vivências de grande intensidade, que eram registradas na mente e recalcadas, reprimidas.

Esses conflitos internos quando tentavam “escapar” do recalque, se materializam em sintomas físicos. Ou seja, a sua pulsão a conduzia para uma paralisia, cegueira, surdez, etc.

Manifestação da Histeria

Os primeiros casos de histeria apresentavam muitas questões de paralisia, geralmente de algum membro do corpo.

Houve ocorrências de cegueira, surdez, onde o comportamento do paciente foi afetado, confusão mental, ocorrência de múltipla personalidade, de haver muita sensibilidade ou pouca/nenhuma em alguma parte do corpo ou da pele, até colapsos nervosos.

Outros sintomas relatados são: tosse, desmaio, não conseguir falar, sensação de sufocamento, crises dramáticas

A Histeria nos Tempos Atuais

A Histeria hoje não é um termo oficialmente utilizado pela Psiquiatria. O que antes era considerado Histeria atualmente é considerado transtorno dissociativo.

E considera-se que seus sintomas são provados por questões que surgem de um quadro clínico físico como tumores na cabeça, doenças no aparelho endócrino e de descompensação metabólica ou de um quadro clínico psiquiátrico, oriundos de depressão, transtorno bipolar, uma esquizofrenia, etc.

No CID-10 está classificada como: Transtorno de personalidade histriônica e Transtorno dissociativo ou conversivo.

Vulgarização do termo Histeria

Como dito anteriormente, o termo não é mais utilizado no meio médico. Contudo devido à popularização alcançada por ele, continua sendo bastante utilizado, porém de forma coloquial e pejorativa para caracterizar mulheres.

E assim, criar estigmas que categorizam uma mulher de fala mais agressiva ou forte em histéricas enquanto um homem com as mesmas características são considerados pessoas de personalidade forte e marcante.

Percebe-se que há uma cultura muito impregnada ainda de preconceito oriundo de uma sociedade com muitos pilares baseados no machismo, onde um mesmo termo pode ter conotação bastante distinta, o que para o homem é um elogio e o enaltece, para a mulher a diminui, a ridiculariza, baixando por consequência a sua autoestima e forma como se vê.

Valeska Frota, terapeuta Floral, especialista em pessoas e psicologia positiva. Atua em Salvador e em todo Brasil de forma online. Estudante de Psicanálise Clínica. Contatos: bio.site/valeskafrotaterapeuta; [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *