Emma Bovary encena o desejo do outro em uma clínica do vazio, sob a lente psicanalítica e a escrita cortante de Gustave Flaubert.

Desejo do Outro e a Clínica do Vazio: Emma Bovary sob a Escrita de Gustave Flaubert

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Neste artigo, propomos uma leitura psicanalítica de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, a partir da estrutura do desejo do outro e da clínica do vazio. Distante de interpretações moralizantes ou patológicas, a análise revela Emma como figura trágica da modernidade: capturada por imagens, exilada do simbólico e girando em torno de um objeto impossível de ser alcançado. O texto percorre os conceitos de repetição, gozo, histeria e suicídio como tentativa extrema de silenciar o desejo.

Emma Bovary: A Estética do Vazio e o Desejo Incurável

Vamos a uma leitura psicanalítica de Madame Bovary a partir das estruturas do desejo e da pulsão, tomando Emma não como personagem, mas como figura clínica da modernidade. Leitura que se distancia das abordagens moralizantes ou patológicas, para situá-la no campo do sujeito dividido, marcado pela ausência constitutiva e pelo mal-estar que se instala entre o excesso de imagens e a insuficiência do simbólico.

Emma não deseja apenas o amor – deseja desejar. Sua trajetória se desdobra como uma coreografia do vazio, onde o gozo e a repetição ocupam o lugar de um sentido impossível. Ao fim, a morte não aparece como fuga, mas como ato onde o sujeito tenta dissolver a dor de ser em meio à desordem do mundo.

Desejo do outro e o sintoma moderno

Emma Bovary é frequentemente lida como mulher adúltera, romântica frustrada ou exemplo de decadência moral. Mas essa leitura reduz Emma a um erro ético. A leitura psicanalítica propõe outra via: trata-se de uma mulher capturada pelo desejo como estrutura, não como escolha.

Sua tragédia não é a infidelidade, mas a impossibilidade de coincidir consigo mesma. Emma não é uma personagem em crise – é o próprio sintoma da modernidade: a mulher que deseja tudo, mas não encontra lugar para si em nada.

Gustave Flaubert constrói, quase sem querer, um retrato do sujeito dividido. Emma não sofre apenas por amar demais ou por viver mal casada, mas por se ver jogada entre a idealização e a aridez do real. A literatura torna-se, em seu caso, droga e delírio. E o amor, sempre outro, sempre além, sempre insuficiente.

O vazio como forma e função narrativa

A estrutura do romance já inscreve a falta. Emma aparece como uma personagem que entra atrasada no mundo: os romances que leu não combinam com a vida que vive. Freud, em Luto e Melancolia, descreve a melancolia como o momento em que o sujeito não apenas perde o objeto, mas também a capacidade de investir libidinalmente em qualquer outro. Emma, no entanto, parece ter perdido o objeto antes mesmo de encontrá-lo.

Mais que melancólica, ela está exilada do simbólico. O seu lugar na linguagem está colonizado por imagens – de amores impossíveis, de festas imaginadas, de vestidos, perfumes, cavalos, cartas. Porém, nenhuma dessas imagens se realiza como significante estruturante. Emma é colonizada pelo desejo do outro, mas esse outro permanece mudo. Em Lacan, o desejo é sempre o desejo do outro – mas o outro de Emma é feito de papel.

Compulsão à repetição e estrutura do desejo

A compulsão à repetição, descrita por Freud em Além do Princípio do Prazer, surge quando o sujeito retorna, obsessivamente, ao mesmo ponto de falha. Emma vive exatamente assim: casada com Charles, homem sem brilho e sem fenda, ela cria, a cada encontro, a promessa de uma vida nova – apenas para reencontrar o mesmo descompasso entre expectativa e realidade. Cada amante, cada compra, cada carta é um novo ciclo da mesma tentativa frustrada de se preencher.

Mas aqui a psicanálise é precisa: não se trata de fracasso no desejo, mas de estrutura do próprio desejo. Emma não quer o objeto; ela quer o que falta no objeto. Em termos lacanianos, ela gira em torno do “objeto a” – aquilo que causa o desejo, mas que jamais se realiza. A pedra de Emma, como a de Sísifo, é o vazio que retorna – e que insiste.

Histeria, gozo e identidade em ruína

Emma não ama seus amantes; ela ama o amor. Essa distinção é essencial. O amor, para ela, é uma forma estética da pulsão. Cada relação é um palco onde ela se experimenta como outra – e, ao mesmo tempo, se afunda mais em si mesma.

No campo da histeria, o amor é oferecido ao outro para que este diga quem ele é, neste caso, ela. Mas, como diz Lacan, “o histérico quer um mestre, mas quer ser aquele que o faz mestre”. Emma deseja ser desejada, mas não suporta quando é capturada de verdade.

O seu corpo responde, através de suas crises, doenças imaginárias e inquietações somáticas – não são meros sintomas psicológicos – são materializações de uma verdade insuportável: não há outro que diga quem ela é. O corpo, então, fala para suprir a falta de palavras suficientes.

Suicídio como gesto clínico radical

O suicídio de Emma não é uma fuga; é um gesto. A morte, nesse contexto, aparece como a última forma de domínio possível. Freud já havia notado, em Luto e Melancolia, que o sujeito melancólico investe no Eu a agressividade que antes era dirigida ao objeto. Emma não quer apenas morrer; ela quer punir um mundo que não lhe devolveu nada do que prometeu.

Neste caso, Lacan nos oferece uma chave mais cortante: o suicídio como passage à l’acte, uma saída brusca da cena simbólica. Não há mais metáforas possíveis, não há mais demanda possível – resta apenas o corpo, entregue à substância letal, como se o veneno pudesse, enfim, calar o que o desejo nunca conseguiu saciar.

Clínica do vazio e o trágico contemporâneo

Emma Bovary não é uma personagem, ela é uma clínica. Uma figura que revela o trágico contemporâneo: a hipertrofia das promessas de gozo e a fragilidade dos nomes do pai. O romance de Flaubert, lido com os ouvidos da psicanálise, revela não apenas um enredo, mas um retrato do sujeito confrontado com a ausência de garantias simbólicas.

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Emma morreu tentando coincidir com o ideal. O seu erro não foi desejar demais, foi não suportar que o desejo, por definição, jamais se realize. A sua morte é um gesto absoluto: talvez o único em que ela não esperava aplauso, nem retorno.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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