Reflexão sobre desenvolvimento psicossexual, diversidade sexual e estrutura psíquica a partir da relação particular do sujeito.

Estrutura Psíquica e Relação Particular do Sujeito: Entre a Sexualidade Infantil e a Diversidade Sexual

Publicado em Publicado em Personalidades e Psicopatologias

Neste artigo, exploramos como a psicanálise compreende o desenvolvimento psicossexual, a diversidade sexual e a estrutura psíquica a partir da relação particular do sujeito com a Lei, o desejo e os limites da normatividade. A partir das contribuições de Freud e Lacan, o texto aprofunda o conceito de perversão, abordando também a evolução clínica e histórica da noção de parafilia.

Perversão e Parafilia

Sigmund Freud, Jacque Lacan, Jesus Cristo, Albert Einstein e Sócrates: dificilmente, em qualquer grupo de pessoas, alguém não conheça, no mínimo dois desses personagens.

A obra de Freud, por exemplo, mesmo aos não adeptos a psicanálise, é considerado um dos melhores (quem sabe, o melhor) referencial sobre a psiquê humana da história. Freud é didático, conciso, preciso!!

O conceito de humanidade e do comportamento sexual deveria ser compreendido entre dois marcos: AF, antes de Freud e DF, depois de Freud.

A base das manifestações psicopatológicas, segundo Freud, está contida nos conceitos contidos no trinômio: Neurose, Psicose e Perversão. Nesse estudo tentaremos sintetizar e atualizar a ideia da Perversão ou, mais recentemente, Parafília.

Definições iniciais e contextos históricos

Primeiramente, algumas definições importantes. Perversão, do latim perversio.onis: desvio, corrupção, inversão, resumindo, desviar do curso original ou ação de contrariar as leis da natureza (sic) e da vida moral (duplo “sic”).

Parafilia, vem do grego: Para (além de) e philia (amor, atração), portanto, o dicionário da língua portuguesa define parafilia como “distúrbio sexual ou psíquico pela busca do prazer em práticas disfuncionais, persistentes, obsessivas, que não se restringem, apenas, ao ato sexual”.

Ou seja, parafilia é um termo descritivo e científico, usado para se referira interesses sexuais atípicos, sem, necessariamente, julgar se são bons ou ruins e, só é considerado transtorno se causar sofrimento ou envolver danos a terceiros.

Uma terceira definição polêmica, porém, de importância sumária, o substantivo “normal”, que remonta do latim, significa “pertencente a uma regra”, ou ainda “conformidade”, “padrão”, referente à “média” …

Na estatística, normal, ou distribuição normal, tem, na sua definição, referência à simetria, ou seja, que a distribuição normal é simétrica em torno da média, isso significa que a média, a mediana e a moda são todas iguais, em outras palavras: normal é o que ais acontece.

Conceito de perversão na psicanálise

Retornando a psicanálise, vamos lembrar o que encontramos, na página 432, do livro “Vocabulário da Psicanálise”, de Laplanche e Pontalis, a respeito da Perversão: “- … Perversão é o desvio em relação ao ato sexual normal, definindo esse como o coito que visa a obtenção do orgasmo, por penetração genital em uma pessoa do sexo oposto…”.

Atualmente, a ideia do “normal moral” tem sido abandonada da nosologia, ou seja, a visão antiga da Psicanálise Clássica e das teorias médicas ancestrais nas quais a Perversão era vista como um desvio patológico, sem a compreensão que utilizamos hoje entre comportamento atípicos e transtornos.

A perspectiva científica da clínica médica, se afastou da abordagem moralista, favorecendo uma acepção mais abrangente e menos condenatória da diversidade sexual.

A psicanálise, que, graças a Freud, sempre foi vanguarda, vê a “normalidade” como uma construção dinâmica, que varia de pessoa para pessoa, de cultura para cultura.

Desenvolvimento psicossexual e perversão

Para Freud, a perversão não era algo, necessariamente, limitado a moralidade ou ao juízo de valor, ao invés disso, ele abordava a perversão através da perspectiva do desenvolvimento psicossexual.

Ele identificou que há, em todos os indivíduos, uma sexualidade infantil, e que na infância ocorrem diversas formas de prazer que não estão ligadas a genitalidade.

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Portanto, a perversão, em Freud, não é apenas entendida como uma “anormalidade”, mas como uma parte integral da condição humana associada a complexidade das pulsões e ao desenvolvimento psicossexual.

É um conceito clínico dentro do seu arcabouço teórico, mais do que algo definido jurídico ou moralmente.

A Relação Particular do Sujeito com a Lei e o Desejo

Já Jacque Lacan, vê a perversão como algo que está intimamente ligado à sua teoria estrutural do inconsciente e às relações da com a Lei e o desejo.

Para ele, a perversão não é um conjunto de pensamentos problemáticos ou imorais, trata-se, isso sim, de uma “relação particular do sujeito com a Lei e o desejo, que se manifesta distinto das outras estruturas”.

Quando Lacan fala de perversão, ele se refere mais a “posição subjetiva do sujeito “do que aos atos em si.

Não é o comportamento que define o perverso, mas a estrutura psíquica que o orienta. Em outras palavras, alguém pode ter comportamentos que seriam considerados “perversos” moral ou socialmente, sem que seja estruturalmente perverso no sentido psicanalítico.

Diversidade sexual e mudança histórica

Um clássico exemplo da abstração da perversão é o homossexualismo.

Até 1973 era considerada doença, um transtorno mental quando, nesse ano, a “Associação Americana de Psiquiatria” (APA) retira do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Somente em 1987 é que qualquer referência a homossexualidade como transtorno foi completamente retirada.

Entretanto, na classificação internacional de doenças (CID) da OMS (Organização Mundial da Saúde), a homossexualidade só foi removida das definições de doença e transtorno mental em 17 de maio de 1990.

Até essa data, pasmem, existiam “tratamentos para homossexualidade” (isso tudo sem remontar o período da “Santa Inquisição”, quando a Igreja Católica torturava e assassinava homossexuais como “seres demoníacos”, hereges).

A visão de Freud e Lacan sobre homossexualidade

Freud via a homossexualidade como uma variação do desenvolvimento psicossexual, mas não a considerava um transtorno mental.

Embora seu modelo fosse influenciado por noções de desvio e fixação, ele rejeitava a ideia de “cura” ou patologização da homossexualidade, o que o tornava relativamente progressista para sua época.

Ele argumentava que a homossexualidade sempre existiu e que grandes figuras da história, como Platão e Leonardo da Vinci, eram homossexuais.

Para Jacques Lacan, a homossexualidade não era tratada como uma patologia, mas sim como uma posição subjetiva dentro da estrutura do desejo.

Diferente de Freud, que via a homossexualidade como um possível “desvio” do desenvolvimento psicossexual, Lacan abordou a questão de maneira mais estruturalista e simbólica, dentro de sua teoria do desejo e da função paterna.

Reflexão final sobre liberdade e sexualidade

Relembrando Bakunin, para quem somente é possível vivenciar o desenvolvimento pessoal, social e intelectual na liberdade, mas, não na liberdade outorgada pelo estado, mas sim, pela liberdade absoluta, a priori.

Assim, os conceitos da sexualidade humana devem ser preservados, uma vez que a nossa espécie é a única, conhecida, que pratica sexo sem a intenção de procriar… Sejamos livres e, dessa forma, seremos saudáveis.

Fernando Belíssimo (sim, belíssimo, está na identidade), professor de matemática e engenheiro há 40 anos, apaixonado pela psicanálise de forma congênita, …, curioso desde sempre. Contato: [email protected]

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