Gozo feminino, não-todo e angústia como afeto são explorados na escrita de Clarice Lispector como experiência-limite do real.

Gozo Feminino e Angústia como Afeto em Clarice Lispector: A Travessia do Não-Todo em G.H.

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A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, é uma narrativa da dissolução do Eu diante do real. Este artigo propõe uma leitura analítica dessa obra, articulando os conceitos de angústia como afeto, gozo e feminino como “não-todo”. A travessia da protagonista – do quarto de empregada ao confronto com a barata – é lida como “experiência-limite” onde o significante falha e o sujeito se depara com o indizível da existência.

Inspirado nas formulações de Lacan sobre o gozo feminino e a angústia como afeto da falta, o texto interroga o silêncio clariceano como lugar onde algo do inconsciente se escreve fora da linguagem. A literatura de Clarice é aqui abordada não como ilustração, mas como acontecimento clínico.

Travessia subjetiva e experiência-limite

Clarice Lispector, em A Paixão Segundo G.H., mergulha o leitor em uma experiência vertiginosa. O romance narra a trajetória interior de uma mulher que, ao entrar no quarto da empregada recém demitida, encontra uma barata – e, com ela, o colapso de sua identidade.

Não há ação externa. Há um monólogo. Um desmoronamento. Uma revelação: não mística, mas psíquica. Neste artigo, propomos uma leitura psicanalítica dessa travessia como experiência do real, no sentido lacaniano – aquilo que escapa à simbolização, mas insiste. G.H. atravessa a casca da linguagem e se depara com o gozo, com o “não-sentido” e com uma forma radical de subjetivação.

Clarice não escreve sobre o feminino: ela escreve desde o feminino – como lugar de enigma, de silêncio e de excesso.

Não-Todo e significante-mestre

Lacan, no Seminário 20, afirma que “a mulher não existe” – não como negação da mulher real, mas como crítica à tentativa de totalizar o feminino sob uma fórmula fálica. O feminino, para Lacan, é o lugar do “não-todo”, do que escapa à lógica fálica do significante. O gozo feminino é outro: não limitado, não nomeável, não representável.

G.H., ao entrar no quarto da empregada, é confrontada com aquilo que excede a imagem: “a barata era o mundo”. A cena é simbólica: a protagonista ultrapassa o campo do Eu, do nome, da identidade e entra numa zona de anonimato.

Ela não perde apenas o chão – ela perde o significante-mestre. Esse “ir além da forma” é o que a leva a dizer: “Perdi minha personalidade. E, no entanto, existo”. A travessia da personagem é a travessia do “não-todo”.

Angústia como afeto e queda das identificações

Freud define a angústia como afeto sem objeto. Lacan, por sua vez, radicaliza: a angústia é o único afeto que não engana, porque é o sinal da proximidade do real. A protagonista de Clarice entra em estado de angústia ao se deparar com aquilo que não pode nomear: a barata – esse resto de mundo, de vida sem linguagem.

Eu estava diante de algo anterior à linguagem”, escreve. Na clínica, esse momento é estrutural: o sujeito, desamparado pelo outro, encontra-se com a falta de garantias. A angústia de G.H. não é patológica, é estruturante. Ela marca o ponto de queda das identificações e de emergência de um sujeito novo, que não se sustenta mais no espelho.

Gozo feminino e ato de transgressão

O momento em que G.H. “come a barata” é decisivo. Metafórico ou literal, ele marca a passagem ao ato de gozo. O gozo, em Lacan, é o que ultrapassa o princípio do prazer. É o que fere, o que não pode ser simbolizado, mas ainda assim insiste.

Clarice escreve: “Eu era o núcleo do mundo, e comi da vida. Eu era a vida e comi da vida”. Esse momento se aproxima da experiência mística, mas também da experiência analítica: é o encontro com o que não se pode dizer.

Para Lacan, o gozo feminino toca o indizível – ele é experiência de corpo, de limite e de ausência de forma. G.H. atravessa a linguagem e emerge – não como sujeito pleno, mas como resto, como voz que habita o silêncio.

Silêncio, subjetivação e escrita clínica

Em Clarice, a linguagem falha. Mas essa falha é potência. Em Psicanálise, ao invés de ver o silêncio como falta de conteúdo, o escuta como presença do real. O que G.H. experimenta é um esvaziamento necessário – uma destruição da imagem narcísica que sustentava seu Eu.

Clarice escreve: “Não me reconhecia. E, no entanto, era eu mesma como nunca”. Esse paradoxo é também clínico: o sujeito só se constitui ao perder as garantias imaginárias. A escrita de Clarice, como a clínica, aposta no poder de nomear o indizível sem capturá-lo.

Ela escreve não para preencher, mas para escavar. Como na análise, trata-se de sustentar a pergunta, não de respondê-la.

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Conclusão

A Paixão Segundo G.H. não é um romance sobre uma mulher e uma barata. É a encenação de uma travessia subjetiva até o limite do significante, até o ponto em que o Eu se desfaz e o gozo aparece como experiência do indizível.

Clarice, como a análise, não oferece sentido: oferece escuta. G.H. não encontra uma verdade, encontra a si mesma no núcleo do vazio.

E talvez, como na clínica, seja neste processo que algo do sujeito possa finalmente nascer: não a partir da certeza, mas da coragem de suportar o silêncio onde algo ainda pode ser dito.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

1 thoughts on “Gozo Feminino e Angústia como Afeto em Clarice Lispector: A Travessia do Não-Todo em G.H.

  1. KAREN DAIANA DO AMARAL MANOCHIO disse:

    Estou recebendo os artigos, estava de férias por isso não estava visualizando

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