conceito de resistência em Jacques Lacan

Conceito de resistência em Jacques Lacan

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Este artigo representa o meu primeiro encontro direto com a literatura psicanalítica de autoria de Jaques Lacan. Considero importante informar a leitora e o leitor sobre a voz de quem está se comunicando através deste paper: um psicanalista clínico em formação, que se encontra na fase conclusiva da parte teórica da formação pelo IBPC. Continue a leitura e entenda o conceito de resistência em Jacques Lacan.

O conceito de resistência em Jacques Lacan e a resistência

Algumas explanações em “Escritos” Ainda, me parece ser oportuno acrescentar que já comecei a minha análise pessoal, portanto, se não posso acompanhar o raciocínio do autor enquanto psicanalista atuante – já que ainda não estou atendendo, e só o farei no final de minha formação – tenho como adentrar e acompanhar o logos e discurso lacaniano enquanto sujeito analisado.

O que apresento neste texto é, portanto, o fruto deste primeiro rendezvous com o freudiano Jaques Lacan, no qual estou focando principalmente na temática e conceituação inerente à resistência. E o que sei eu de Lacan? Poderá se perguntar a leitora e o leitor. De fato, muito pouco, e ainda por cima, filtrado através de terceiros.

Em meus estudos acadêmicos, desde a graduação (e à maior razão durante o mestrado e o doutorado), fui orientado a “ir para a fonte”, a ler o original, o autor. Há alguns meses, um colega psicanalista em formação tem me presenteado com um livro (em pdf) introdutório sobre a teoria lacaniana.

Lacan se autodeclara freudiano

Admito não ter lido, ainda, mas quer pelo conteúdo apreciado no décimo módulo, quer por atração pessoal, e ainda, por me sentir pronto e maduro para este encontro, resolvi me debruçar sobre a obra lacaniana. Sim, o que sei sobre Lacan? Seria melhor perguntar: “o que sabia?” (já que, agora, com esta primeira “aventura amorosa” com os Escritos, sei um nadinha a mais).

A resposta: que Lacan se autodeclara freudiano; que era médico psiquiatra e psicanalista; que conceitualizou o sujeito suposto saber; que curou pacientes psicóticos, mas ainda assim, admitiu “não saber bem como”. Isso é o que eu sabia sobre Jaques Lacan. Com o décimo módulo aprendi mais alguns detalhes, como a questão do “outro”, ou melhor, “l ́Autre”, que por sinal, está presente nesta coletânea com a qual vim a me deparar: Escritos (1998), publicado inicialmente em língua francesa no ano de 1966 sob o título de Écrits. Voltarei a l’ Autre lacaniano no final do artigo.

Todavia, como já admiti anteriormente, o objetivo deste artigo é trazer algumas explanações e ponderações de Lacan acerca das resistências. Devido ao teor didático deste texto, vou começar com uma breve definição de resistência, para situar a leitora ou o leitor, principalmente quem estiver se aproximando agora da Psicanálise. Para tal fim, recorro ao Dicionário de Psicanálise, de Roland Chemama (1995).

Conceito de resistência em Jacques Lacan

Segundo o autor, entende-se por resistência, tudo aquilo que impede o trabalho do tratamento, tudo aquilo que entrava o acesso do sujeito à sua determinação inconsciente. S. Freud foi logo obrigado a dar um lugar não negligenciável ao conceito de resistência.

Este refere-se ao efeito que o próprio recalcamento produz no tratamento, isto é, o conjunto de fenômenos que entravam as associações ou que até mesmo podem levar o sujeito ao silêncio (CHEMAMA, 1995, p. 192-193).

Chemama acrescenta uma importante consideração acerca da necessidade de se considerar a resistência com relação a outro conceito psicanalítico fundamental, a saber, a transferência. O autor fala sobre o caso da transferência se tornar, ela mesma, uma resistência.

Entrelinhas de Freud

Entretanto, estas ponderações, referiam-se à primeira tópica, quando Freud associava e limitava as resistências ao inconsciente. A partir da segunda tópica, alerta Chemama, a resistência “é apresentada como um mecanismo de defesa entre outros, referível ao eu” (CHEMAMA, 1995, p. 193). Ou seja, a resistência seria produzida pelos mecanismos de defesa que, por sua vez, geram o recalcado.

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Este ponto de partida é necessário para que seja possível enfatizar o discernimento entre defesa e resistência. Segundo o Vocabulário da Psicanálise, entende-se por defesa um “conjunto de operações cuja finalidade é reduzir, suprimir qualquer modificação suscetível de pôr em perigo a integridade e a constância do indivíduo biopsicológico” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2000, p. 107).

A confirmação do raciocínio de Roland Chemama, com relação ao ego, ocorre em Laplanche e Pontalis através de um trecho do mesmo verbete, sobre defesa.

O ego é a região da personalidade

Os autores destacam: De fato, o ego é a região da personalidade, o ‘espaço’ que pretende ser protegido de qualquer perturbação (conflitos entre desejos opostos, por exemplo). E também um grupo de ‘representações’ em desacordo com uma representação ‘inconciliável’ com ele, e o sinal dessa incompatibilidade é um afeto desagradável; ele é por fim agente da operação defensiva” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2000, p. 107).

Vale ressaltar que a defesa é um mecanismo próprio da modalidade de organização psíquica através da qual é definida a personalidade do paciente, sendo ela neurótica, perversa ou psicótica. Já a resistência é, como foi apontado por Chemama, tudo aquilo que se interpõe entre o sujeito-paciente e o tratamento psicanalítico.

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    Feita esta breve ressalva, necessariamente resumida, devido ao formato de artigo para publicação no Portal do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, é possível abordar a maneira pela qual Jaques Lacan entende as resistências e oferece sua explanação na coletânea Écrits (1966).

    Aproximações lacanianas

    Antes disso, preciso declarar que, nesta investigação tópica, não seguirei um itinerário linear ao longo dos “Escritos”, no molde “fichamento”, e sim, recuperarei as aproximações lacanianas ao tema das resistências de maneira a costurar, ou reconstruir um discurso explanatório por meio da fala do autor, de maneira associativa. Bom, não livre!

    É mais ou menos o que Bill Laswell costuma fazer com as músicas folclóricas, ao remixá-las, recombinando-as, ao extrai-las do contexto original. Isso porque, evidentemente, para ponderar de maneira analítica e linear sobre algo que foi tratado reiteradamente pelo autor ao longo de mais de quatrocentos páginas, ia extrapolar o formato de um artigo para o referido Portal do IBPC.

    Com relação ao ego, a fala lacaniana parece ecoar a já mencionada (e citada) perspectiva de Roland Chemama (embora tudo indica se tratar do contrário, isto é, Chemama confirma o pensamento lacaniano, que é anterior à redação do Dicionário de Psicanálise). A este respeito, o autor dos Escritos pondera, “deixemos por aqui a crítica de todos os abusos do cogito ergo sum, para lembrar que o eu, em nossa experiência, representa o centro de todas as resistências ao tratamento dos sintomas” (LACAN, 1998, p. 120).

    Conceito de resistência em Jacques Lacan e o conflito edipiano

    Esta passagem ocorre em meados de uma discussão acerca da agressividade, a partir da qual Lacan se refere ao conflito edipiano. A este propósito, o autor, mencionando Freud, sinaliza que esta agressividade seria constitutiva da “primeira individuação subjetiva” (p. 120).

    É confortante descobrir que Lacan corrobora um insight que, modestamente, enquanto terapeuta (ainda não psicanalista, mas já terapeuta: quântico, de hipnose clínica e PNL practitioner), já tive e a partir do qual fundamentei o meu método terapêutico (uma junção das três terapias acima, além da meditação. Sim, da meditação! A.M.O.R.

    Verdade, não tenho décadas de experiência como psicoterapeuta, mas após ter estudado, aprofundado, atualizado e aplicado, recebi esta “visão” e a traduzi no referido método, cujo acrônimo significa Aceitação, Motivação, Observação, Ressignificação.

    As resistências via Jaques Lacan

    Permaneçamos só na aceitação, até porque não estou escrevendo um artigo sobre o meu método terapêutico (bom, meu ou…do inconsciente coletivo, mas como ninguém admite que “suas” invenções são oriundas do inconsciente coletivo, então digo “meu”, fora o fato que nem todo mundo é junguiano stricto sensu, e talvez nem eu o seja, pelo menos não stricto sensu…), e sim, sobre resistências via Jaques Lacan.

    Mas qual seria, afinal, o porquê desta aparente digressão (admito ser um pouco digressivo)? Nos Escritos, Lacan afirma que, “as próprias resistências (…) são utilizadas pelo maior tempo possível no sentido do progresso do discurso. E, quando é preciso pôr-lhes um termo, é cedendo a elas que o conseguimos” (LACAN, 1998, p. 304). E o que isso teria a ver com o método A.M.O.R. (apenas para fechar parêntese)?

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    Como disse, ficarei apenas no A de aceitação. Lacan era freudiano, mas neste contexto e quesito, ousaria dizer: “Lacan explica”! Voltando às resistências, cuja consideração é fundamental em qualquer processos terapêutico, e não apenas em Psicanálise, Lacan confirma o fato da aceitação facilitar a dissolução destas formas mais ou menos deliberada, egóica, de dificultar o processo psicoterapêutico, aqui com ênfase em seu molde psicanalítico.

    Conceito de resistência em Jacques Lacan, Resistir e aceitar

    Basicamente, duas são as alternativas: resistir ou aceitar. Resistir é entrar em conflito, é inerente à rigidez, pois ao Tanatos, ou ainda, à morte. Enquanto aceitar está intimamente ligado à flexibilidade, pois ao Eros, e enfim, à vida. E também, à sobrevivência do processo terapêutico, já que, “resistir à resistência” comportaria, eventual ou certamente, numa reação terapêutica negativa (RTN).

    Aceitar a resistência, portanto, é o caminho apontado por Jaques Lacan para fazer com que ocorra a natural dissolução da mesma (da resistência). É o mesmo princípio da meditação (por si mesma uma prática psicoterapêutica) através da qual, ao observarmos os pensamentos, sem entrar em conflito com os mesmos e obrigando a mente a ficar quieta, ou seja, ao aceitarmos este transitar dos pensamentos, quais eles fossem nuvens que se deslocam pelo céu – que continua o mesmo com ou sem nuvens – a mente acaba se acalmando, justamente por não se opor…resistência.

    O poder de aceitar

    Enfim, aceitar é um passo fundamental para que se criem as condições terapêuticas. Aceitar desbloqueia, destrava e, psicanaliticamente falando, com Jaques Lacan, proporciona a dissolução das resistências.

    E não só o psicanalista precisa aceitar as resistências, ele precisa também, passar por um processo de mortificação ou despersonalização, de maneira que, se a conditio sine qua non da Psicanálise é haver fala – e, implicitamente, um sujeito falante – logo, é preciso que o psicanalista seja o ouvinte, e que ouça mesmo.

    Curiosamente, ambos os termos, aceitação e escuta parecem remeter para uma postura passiva. Mas a praxis psicanalítica é tudo menos que passiva, se não seria suficiente programar um robô para “ouvir” o paciente em sua “fala vazia” (utilizo aqui uma expressão lacaniana sem citar diretamente, pois o artigo é sobre resistências e eu já admiti minha tendência digressiva, então como se costuma dizer, “fico por aqui”!) e, em certo momento, piscar e tocar um alarme declarando: “conteúdo inconsciente!”.

    O ser humano em seu “avanço” compulsivo

    Bom, que o ser humano – em seu “avanço” um tanto compulsivo, ecologicamente insustentável e também, em algumas ocasiões, um tanto idiota – intensifique exponencialmente a substituição de si mesmo (ou seus semelhantes, quer dizer, heimliche, como diria Freud) por robôs, que, por sua vez, vêm a desempenhar funções e tarefas, ou seja, empregos, anteriormente “humanas”…não é nenhuma novidade.

    Evidentemente, o ofício do psicanalista não se resume ao “identificar” (Bob Marley diria: “I catch you”, com seu sotaque jamaicano) o momento em que, finalmente, no meio de falas (mais ou menos) “vazias”, o inconsciente vem a se manifestar. E a interpretação, ainda (até quando mesmo?), não pode ser atribuída a um robô programado via machine learning, ou machine analyzing que se queira.

    Fechando parêntese, e voltando, embora esta minha digressão nada mais represente do que uma variação no tema, é importante frisar este papel-ativo-e-disfarçado-de-passivo, a ser desempenhado pelo psicanalista, tanto com relação ao aceitar as resistências do paciente, ao invés de se lançar numa investida quixotesca contra as mesmas, como também, no que se refere à escuta, o que, de fato, aponta uma falsa passividade.

    O Psicanalista e o conceito de resistência em Jacques Lacan

    O Psicanalista está presente na escuta, e estar é, por si, uma atitude, algo propositivo, cuja intensidade aumenta proporcionalmente, na medida em que ele está e ainda por cima, ouve. Trocando em miúdos, a postura psicanalítica, de passivo não tem nada. Mas vejamos o que Jaques Lacan fala a este respeito.

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    O autor dos Escritos fala sobre a intervenção do psicanalista, sobre as “resistências significativas que lastreiam, refreiam e desviam a fala” (LACAN, 1998, p. 431) e acrescenta sobre a inserção da exclusão, por parte do psicanalista, evidenciando, a seguir, a referida mortificação, que é assim descrita pelo psiquiatra e psicanalista francês:

    Isso quer dizer que o analista intervém concretamente na dialética da análise se fazendo de morto, cadaverizando sua posição, como dizem os chineses, seja por seu silêncio, ali onde ele é o Outro, Autre com A maiúsculo, seja anulando sua própria resistência, ali onde é o outro, autre com a minúsculo. Em ambos os casos e sob as respectivas incidências do simbó1ico e do imaginário, ele presentifica a morte (LACAN, 1998, p. 431).

    Eliminar a própria resistência

    Trata-se, pois de um duplo papel a ser exercido por parte do psicanalista. Este, além de mortificar a si mesmo – que como já foi destacado, é tudo menos uma postura passiva – precisa ainda eliminar a própria resistência (que deve conhecer, pois, mais uma vez, aceitar, para ter como anulá-la). A duplicidade referida à morte está associada, portanto, à despersonalização, por um lado, e à dissolução (morte) de sua própria resistência (pois é, analista também tem!).

    L’ Autre, maiúsculo, aponta para o inconsciente e isso significa que, para viabilizar o encontro do sujeito- paciente com o próprio inconsciente (dele mesmo), é necessário que o psicanalista mortifique a si mesmo, e despersonalize.

    Paradoxalmente, há psicanálise por haver fala, o que comporta, por outro lado, a escuta, porém, este sujeito-da-escuta, em certo momento, deve anular a si mesmo para que ocorra o referido encontro intrapsíquico do paciente com o próprio inconsciente (de novo, dele mesmo).

    O “outro” humano

    E l’ autre, minúsculo, é o psicanalista, o “outro” humano, no sentido bakhtiniano, mas que aqui, para poder ser tal, precisa renunciar à sua resistência, sendo que, em caso contrário, poderá ativar o processo contratransferencial, com todo o prejuízo que isso comporta.

    L’Autre é um outro-coisa, a coisa outra que não é a mesma coisa (c’est pas la même chose!), ou seja, o “isso” freudiano da segunda tópica (1923): o próprio ID do paciente; Enquanto l’ autre é o psicanalista (lui) quando em condições de ser o outro-próximo (heimliche) para o analisando, e esta condição é a retirada da resistência pessoal do analista, a que ocorre via aceitação (não que eu queira puxar para as minhas sardinhas ou enaltecer minha modesta criação terapêutica, isto é, o método A.M.O.R….).

    Esta contribuição não tem como ser exaustiva e nem pretende, sendo apenas um encontro, um rendezvous de um novato, engatinhando em sua pré-história psicanalítica (enquanto psicanalista clínico em formação) e chupando o mamilo intelectualmente gostoso e o leite estimulante do Jaques Lacan, bebendo, literalmente, à fonte!

    Considerações finais sobre o conceito de resistência em Jacques Lacan

    Lamento desde já qualquer interpretação equivocada ou errônea. Entre outras coisas que estou adorando da Psicanálise há o fato de me deparar com tamanha humildade por parte destes monstros consagrados, como é o caso do próprio Sigmund Freud, Jaques Lacan, Carl Gustav Jung e Marion Milner, entre outros, todos admitindo os próprios erros e estando sempre prontos a mudar de rota, revendo, atualizando, ou mesmo se distanciando de posições anteriores.

    E se as referências forem humildes, os neófitos serão também, e poderão, um dia, rir daquele artigo e reformular a própria leitura dos Écrits de Lacan, talvez quando a maturidade psicanalítica o permitir.

    Enquanto isso, cá está, e que possa servir a alguém, nem que seja para discordar, ou achar que estou me achando, até porque estou me achando mesmo, me encontrando sempre mais, via Psicanálise, no momento enquanto analisando e também, quem sabe, tão logo, psicanalista clínico.

    O presente artigo foi escrito pelo autor Riccardo Migliore([email protected]). Riccardo é Doutor (PhD) em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Terapeuta e Professor de Meditação (Online e presencial). Criador do Método Terapêutico A.M.O.R. Formado em: Hipnose Clínica, Terapia Quântica, Programação Neurolinguística (Practitioner), Análise Comportamental (Disc e HMI), Gestão das Emoções, Inteligência Emocional para Alta Performance, Reiki I,II,III, Professor de Meditação. Cursos em andamento: Master PNL Practitioner, Hipnose Conversacional, Psicanálise Clínica, Pós-graduação em Psicanálise. Maiores informações: www.institutoportaldaalma.com

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