o que é fantasia

O que é Fantasia para a Psicanálise?

Posted on Posted in Psicanálise e Cultura

Vemos o que é Fantasia aparecer com certa frequência no cotidiano, como no carnaval, nas estórias infantis e estilos artísticos. Quando alguém sai de um relacionamento sem bases reais, pode até refletir sobre isso, dizendo-se algo como: “acho que era muita fantasia”.

Entretanto, em linhas gerais, o que a Psicanálise tem a dizer sobre a fantasia? Será que você não tem até fantasias guardadas sem ter consciência disso?

Observações iniciais sobre o que é Fantasia por Freud

Freud (1856-1939) observou, ainda quando trabalhava com Josef Breuer no século XIX, a formação de fantasias em histéricas, em que uma situação imaginária, como uma “estória”, é empregada pelo indivíduo para encobrir algum trauma, especialmente os sexuais e infantis.

Os relatos da paciente Anna O., por exemplo, não eram como os fatos reais, mas nasciam de desejos inconscientes e proibidos, como simbologia de defesa. Relatos iam mudando com o tempo, remodelando-se.

Dessa forma, Freud passou a privilegiar a vida imaginária do sujeito em detrimento à questão da sedução relatada por pacientes, que podia não passar de uma fantasia. O conceito de fantasia é, portanto, de grande importância em Psicanálise.

Definição de “o que é Fantasia”

Em Psicanálise a palavra “fantasia” empregada em português vem do termo original alemão “Phantasie”. A tradução do francês fornece a palavra “fantasma”.

O Dicionário de Laplanche e Pontalis resume fantasia a “roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente” (LAPLANCHE & PONTALIS, 2001, p.169). Tipos de fantasia: – Fantasias conscientes ou sonhos diurnos; – Fantasias inconscientes identificadas em análise; – Fantasias originárias.

Fantasias conscientes

São aquelas das quais o indivíduo tem consciência. O devaneio define-se como ficar sonhando acordado, realizando uma fantasia de compensação. Poderia ser o caso da pessoa que se imagina descoberta como inteligente, vencedora em determinada situação, ou como herói. Na categoria romance o indivíduo poderia imaginar que “lutou até que o amor venceu”, por exemplo.

Podem ser fantasias voltadas a realizações que na vida real seriam até destrutivas, entre outras. Geralmente o conteúdo das fantasias conscientes é ocultado cuidadosamente pelo indivíduo.

Freud separa as fantasias conscientes, os devaneios, os romances que o indivíduo conta para si mesmo, criações artísticas de conformação fantasística das fantasias inconscientes. As inconscientes estão, porém, relacionadas às conscientes.

Fantasias inconscientes – mobilidade da fantasia

Para Freud a fantasia apresenta mobilidade. Se a quantidade de libido investida numa fantasia aumenta e o indivíduo é incapaz de realizá-la, a fantasia será provavelmente lançada ao inconsciente e recalcada, provocando sintomas neuróticos, por exemplo.

Uma fantasia consciente atua sobre a formação do conteúdo manifesto de um sonho, enquanto a fantasia inconsciente “inscreve-se na origem da formação do sonho” (ROUDINESCO, 1998, p.225) como processo primário, ou seja, o que o sonho realmente está querendo dizer.

O lugar das fantasias é uma parte da mente que não se deixou levar pelo princípio da realidade, à medida em que o indivíduo amadurece, ela permanece associada ao princípio do prazer.

Leia Também:  Filme O Maquinista: a Psicanálise por trás do filme

E o que seriam as fantasias originárias?

Segundo Freud as fantasias originárias são derivadas de cenas originárias traumatizantes, como observar o ato sexual entre os pais, o que é denominado de “cena primária”.

Nas fantasias o indivíduo não apenas é expectador, mas faz parte das cenas. Já na fase sádico-oral, por exemplo, com o aparecimento dos dentes, poderia surgir uma fantasia de ser comido, destruído pela mãe.

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    O que é Fantasia de castração

    A fantasia de castração, que para a criança é uma explicação do porquê meninas não terem pênis (porque estes teriam sido amputados), origina o Complexo de Castração. O menino sentiria isso como ameaça que o mesmo lhe aconteça e a menina sentiria a falta do pênis, o que iria ter que compensar de alguma forma.

    A fantasia de castração tem diversos impactos em Psicanálise, desde o sentimento de inferioridade, imagem do ego, passando por tabus e fobias, entre outros. No “Caso Schreber” (1911), por exemplo, Freud analisou o caso de um homem, sujeito a delírios psicóticos, cuja fantasia era tornar-se “a mulher de Deus”, enquanto partes de seu corpo iam sendo retiradas para gerar sua nova forma.

    Melanie Klein (1882-1960) e fantasia

    Por volta de 1926 com a psicanalista Melanie Klein a fantasia é observada na criança através de brincadeiras. Para Klein os brinquedos eram como substitutos dos sonhos e através deles a criança mostrava seus conteúdos recalcados.

    Por essa época ela já descrevia um menino com sérios problemas de aprendizagem “decorrentes de suas fantasias de um ataque sádico contra o corpo da mãe” (ZIMERMAN, 2007, p.49).

    Na mente, objetos totais e parciais iriam descrever a atividade psíquica, como crianças que identificam seus pais por partes do corpo, como um seio, por exemplo. Nesse ramo psicanalítico o inconsciente é formado de fantasias relacionadas a objetos.

    A visão de Lacan sobre fantasia

    Na obra de Jacques Lacan (1901-1981) a fantasia assume grande importância como mecanismo de defesa a bloquear o surgimento de uma lembrança traumática, estando associada ao que ele denominou “parada na imagem” (ROUDINESCO, 1998, p.225), uma imagem cristalizada.

    Para ele a fantasia não estava restrita ao imaginário. Lacan cunhou o termo “lógica da fantasia”, decorrente da lógica do desejo. Desde cedo um indivíduo teria criado uma noção de objeto de acordo com o desejo do outro, como a mãe, associando a ele uma falta.

    Para Lacan cada indivíduo tem diversas fantasias, mas haveria uma lógica fundamental, a fantasia fundamental. Abordar isso significaria alterar defesas, modificar a relação da fantasia com o gozo, o prazer e o desprazer.

    Devaneios em Excesso

    Um assunto que vem chamando atenção sobre a questão das fantasias é o devaneio em excesso. Quando a capacidade de fantasiar é intensa, este quadro pode chegar a ser confundido com esquizofrenia. Entretanto, ao contrário do esquizofrênico, quem devaneia excessivamente tem noção de que são apenas fantasias.

    Afetados irão demonstrar distração à vida real, inclusive com expressões faciais e movimentos característicos, especialmente em situações de angústia ou tédio, e dificuldade para dormir, entre outros aspectos.

    Passam bom tempo nesse estado, pelo desejo de substituir a frustração da vida por algo satisfatório. O tratamento para esse transtorno recai sobre a Psicologia/ Psiquiatria.

    Abordagem Psicanalítica e o que é Fantasia

    Como visto, fantasias atuam como mecanismo de defesa, de forma a fornecer ao indivíduo compensações diárias pela sua existência ou frustrações. Compreender a fantasia é de vital importância na prática psicanalítica.

    Leia Também:  Vigilantes do Peso: o que é e quais princípios fundamental?

    Este conceito está intrinsecamente associado ao desejo, a alguma satisfação na vivência de uma recordação. As formações fantasísticas tendem a se exprimir de alguma forma, sendo necessário saber discernir uma fantasia aliada a um conteúdo inconsciente, revelado através de sonhos, sintomas, comportamentos repetitivos, por exemplo.

    O intuito é que um analisando consiga superar a questão fantasística, observando-a de outra maneira.

    Bibliografia

    PONTALIS, Jean-Baptiste; LAPLANCHE, Jean. Vocabulário da psicanálise. Santos: Martins, 2001. ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos [recurso eletrônico]: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática/David E. Zimerman. Dados eletrônicos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

    O presente artigo foi escrito por Regina Ulrich([email protected]). Autora de livros, poesias, tem PhD em Neurociências, e gosta de contribuir em atividades de voluntariado.

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *