Feminicídio: o que é, origens, estatísticas e quais ações

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Introdução

O objetivo desse trabalho é utilizar a visão da psicanálise como base analítica e investigativa no processo de entendimento dos crimes de feminicidio.

Não busco com esse trabalho a verdade absoluta, ou mesmo um caminho definitivo sobre as razões pelas quais alguém comete esse tipo de crime. Contudo, acredito que o saber psicanalítico possa contribuir grandemente com busca pelo entendimento dessa e de diversas questões da sociedade.

Ademais, acredito que todas as questões que envolvem pessoas são bastante complexas. Portanto, difíceis de serem desvendadas de forma rápida e simples.

O presente trabalho

Nesse trabalho, podemos aprofundar o olhar para algumas questões inerentes ao desenvolvimento e natureza humana. São exemplos o narcisismo próprio do ser humano e os desdobramentos do complexo de Édipo, fase que também é natural do desenvolvimento humano.

No texto a seguir, poderemos nos deparar com a questão da castração, e como o homem lida com ela (ou com a falta dela). Ademais, abordaremos a questão da ferida narcísica e como ela afeta o ego masculino. Outro tema relevante trata das pulsões que, aqui nesse texto, nos ajuda a entender agressividade como uma consequência das forças pulsionais.

Para conseguir desenvolver esse trabalho, e o seu conteúdo, utilizei como base a própria obra de Freud e seus escritos acerca, de pulsão, sexualidade, narcisismo e castração, e também a obra do Psicanalista e escritor Marcell Felipe Alves dos Santos, que possui um trabalho bem atual e voltado para a questão do feminicídio sobre a perspectiva da Psicanálise.

Conceituando o termo Feminicídio

Para iniciarmos o estudo desse tema, precisamos conceituar a princípio o termo usado como título dessa pesquisa.

O que é feminicídio?

Curiosamente, o termo Feminicídio foi cunhado a pouco tempo e, de início, foi incompreendido. Esse conceito até sofreu certa resistência, principalmente pela falta de conhecimento a respeito do que se tratava.

Em linhas gerais, a palavra denota uma violência imposta contra o sujeito do gênero feminino. Perceba que aqui abordamos o termo gênero, e não sexo, observando a identificação do sujeito com o gênero adequado, e não necessariamente com o sexo de nascimento. 

O termo feminicídio descreve um crime de ódio, no qual a motivação da morte precisa estar relacionada ao fato de a vítima ser do sexo feminino.

A história do feminicídio

Essa palavra foi difundida na nos anos de 1970, pela socióloga sul-africana Diana E.H. Russell (“femicide”, em inglês).  O objetivo com esse novo conceito era contestar a neutralidade presente na expressão “homicídio”. Utilizar somente o termo homicídio, sem uma separação ou categorização do crime, contribuía para manter invisível a vulnerabilidade experimentada pelo sexo feminino em todo o mundo.

Russell entende que essas mortes não são casos isolados ou episódicos. Na verdade, estão inseridos dentro de uma cultura, na qual a sociedade naturaliza a violência de gênero e limita o desenvolvimento livre e saudável de meninas e mulheres”.

Podemos considerar como exemplos de feminicídio os crimes encobertos por costumes e tradições e que são justificados como ações pedagógicas. Alguns exemplos são:

  • o apedrejamento de mulheres por adultério,
  • os estupros de guerra,
  • a mutilação genital,
  • e os crimes “em defesa da honra”.

Ademais, há que se considerar:

  • os assassinatos de mulheres por seus maridos e companheiros,
  • morte por preconceito racial,
  • e a morte pelo tráfico e a exploração sexual.

Feminicídio no Brasil

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio. Assim, fica atrás somente de países como El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres.

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    Olhando para dados como os do Mapa da Violência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vemos que o número de mulheres assassinadas aumentou no Brasil.

    Entre 2003 e 2013, passou de 3.937 casos para 4.762 mortes. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no país. 

    Por que falar sobre Feminicídio?

    Diante de dados e informações alarmantes como as mencionadas acima, a pergunta que fica é: por que esses dados se constituem para nós como uma realidade cada vez mais comum? Por que esse tipo de crime não para de acontecer, mas, pelo contrário, continua crescendo de forma exponencial, sobretudo no Brasil?

    Essas perguntas geram dúvidas, incômodos, e preocupação em relação a posição da mulher na sociedade, mas também em relação ao nosso papel enquanto sociedade.

    Será que esse tipo de ação é punida e combatida de forma adequada? Nós cuidamos e acolhemos as vítimas de feminicídio de forma adequada? Será que entendemos e direcionamos os agressores que cometem esses crimes de forma adequada? O que fazemos com essa realidade?

    A importância de analisar as causas

    Acredito que para chegar em algumas das respostas acima, precisamos primeiramente entender as causas do problema. Assim sendo, o que poderia responder, explicar as origens do feminicídio?

    Aqui utilizaremos dos conceitos e conhecimentos psicanalíticos para tentar entender e jogar luz sobre essas questões. Dessa forma, poderemos desvendar os caminhos que podem nos mostrar a origem do desejo de extermínio, da agressão, de ferir o gênero oposto (tendo em vista que o feminicidio é cometido sumariamente por pessoas do sexo masculino).

    A extensão dos efeitos do feminicídio dentro da família

    O feminicídio é um tipo de crime que afeta diversas áreas da sociedade. Ademais, traz consigo muitas consequências nos quesitos de comportamentos, perfil, respostas e traumas. Isso se observa porque a consequência do feminicídio muitas vezes é a destruição de um contexto familiar, mesmo que até esse momento não seja considerado como o melhor ambiente familiar, sobretudo para crianças.

    Quando há um crime de feminicídio dentro de uma família, há ali também:

    • uma quebra de um laço afetivo e familiar,
    • o abandono de filhos,
    • a quebra de sonhos e inocência,
    • o entendimento de que um relacionamento amoroso, concebido com muito afeto inicialmente, se tornou dia após dia em uma relação de ódio, culminando em uma agressão, e em muitos casos morte.

    O que resta de um crime como esse? Dúvidas, dores e muitos questionamentos, impunidade. Ademais, sobra a certeza de que esse ato voltará a acontecer.

    A importância de não emitir um juízo de valor

    Nesse estudo, não faremos juízo de valor.

    O nosso objetivo é realmente olhar e abordar as causas do ato utilizando os conhecimentos da psicanálise. Dessa forma, será possível tentar entender os mecanismos que permitem que um indivíduo o cometa.

    Além disso, também é importante olhar a dinâmica da mulher (vítima) em todo esse contexto. Não raras vezes vemos como a mulher a própria vítima acaba sendo culpada e colocada nas situações como agente ativo. Ou seja, a mulher passa a ser quase que responsável pela violência da qual é vítima.

    A situação da mulher que fica

    Também não é raro encontrar mulheres que perdoam, entendem e até mantém o relacionamento com o seu agressor.

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    Em muitos casos, isso se dá devido a dependência financeira. Muitas mulheres vítimas de relacionamentos abusivos já não possuem um trabalho, carreira, ou sequer independência para se manter longe do seu algoz.

    Por outro lado, em muitos outros, podemos ver mulheres independentes. Portanto, são bem sucedidas em seus trabalhos e carreiras. Nesses casos, como explicar a dinâmica da mulher que perdoa, entende, e ainda se mantém naquele relacionamento com a genuína esperança de que algo vá mudar? Ou até mesmo naturalizando o comportamento do homem e aprendendo a conviver com isso?

    Nesse texto, também tentaremos jogar luz sobre esse aspecto, que pode sim ser a chave para muitos comportamentos destrutivos dentro de um relacionamento. Ademais, pode ter a explicação para o julgamento da sociedade que recai sobre a mulher.

    Um breve olhar para a metapsicologia Freudiana

    Iniciamos a análise sobre feminicídio utilizando como bússola os ensinamentos da psicanálise. Para tal, precisaremos abordar alguns conceitos e teorias que servirão como base para o nosso estudo.

    Sabemos que a pulsão é uma força constante. Todavia, não é a própria pulsão que se apresenta no inconsciente, mas sua representação (Freud, 1915/2006 p. 13 – 69). Ou seja, sabemos que o nosso consciente não tem e nem poderia ter acesso a pulsão (pressão, força, carga genética). Isso porque segundo a teoria freudiana do funcionamento psíquico, há uma série de mecanismos que servem como um filtro ou barreira, à essa pulsão.

    O objetivo primário do inconsciente é obter prazer, independente das consequências, ou de um possível desprazer que esse mesmo ato possa causar. Exatamente nesse sentido é que age o mecanismo de recalque, que barra essa pulsão caso ela signifique também um desprazer. A seguir, vamos detalhar melhor como funciona a nossa engrenagem psíquica:

    Uma representação é investida pelo inconsciente com o objetivo de satisfazer a pressão pulsional. Assim, a partir daí, ela pode ou não chegar a pré-consciência. Caso ela ultrapasse o recalque, e seja investida pela pré- consciência, encontraremos um novo obstáculo, a repressão. Por sua vez, essa repressão é uma função cultural do nosso psiquismo.

    O recalque por ser um mecanismo inconsciente, pode admitir algo que causará desprazer, seguido de prazer. Porém, a repressão não. Ela não admite algo que fuja da constituição cultural do sujeito.

    Agressão, símbolos de violência

    Em um de seus textos mais famosos, conhecido como “O pequeno Hans”, Freud nos leva a entender que a agressão é um “atributo universal e indispensável de todas as pulsões” (p. 145). Assim, relaciona o conceito de pulsão com a concepção de agressividade.

    Freud ainda diz que: “a essência mais profunda da natureza humana consiste em pulsões de natureza elementar, semelhantes em todos os homens e que visam à satisfação de certas necessidades primevas. Em si mesmo, essas pulsões não são nem boas, nem más. Classificamos essas pulsões, bem como suas expressões, dessa maneira, segundo sua  relação com as necessidades  e exigências da comunidade humana.” (Freud, 1915a/2006, p. 291).

    Amor e ódio

    Aqui, Freud nos mostra que há em todos os seres humanos pares complementares. Todos nós somos capazes de sentir amor e ódio, por exemplo. Assim sendo, não há nada só bom ou só mau.

    Ademais, ele nos mostra que, como pessoas que convivem em sociedade, adaptamos nossas pulsões e expressões, de acordo com a sociedade, cultura etc. Isso garante que possamos continuar vivendo em grupo e existindo.

    Essas expressões podem e fatalmente serão modificadas de tempos em tempos. Contudo, é fato que os seres humanos transformam essa força pulsional em algo que caiba dentro do contexto cultural a qual o indivíduo pertence. Assim, transformando essa pulsão em serviços, respostas, devolutivas para aquela comunidade.

    O papel da sociedade e da civilização

    Segundo Freud, a civilização se constrói a partir da repressão da agressividade do sujeito, na renúncia de satisfações pulsionais de cada um. Assim sendo, a civilização apresenta um padrão moral rigoroso que deve ser respeitado pelos seus membros.

    Tal conduta exige que o indivíduo renuncie às suas pulsões naturais. Ademais, incentiva a busca de obtenção de prazer, direcionando essa pulsão para um outro objeto, caso o processo de recalcamento se dê de maneira satisfatória. Porém, o outro caminho dessa renúncia é permitir ao sujeito tornar-se agressivo, por meio da não realização dos seus desejos, que são barrados através do processo civilizatório.

    Podemos caracterizar o ato da violência da seguinte forma: ao adentrar o processo simbólico e não respeitar o processo civilizatório, a agressão se apresenta como uma violência. Portanto, caso a pulsão não seja recalcada, nem barrada pelo processo civilizatório, ela adentra o trabalho de cultura. Assim, essa agressividade tem contato com a linguagem e se torna violência.

    Feminicídio e a ferida narcísica no homem

    O narcisismo é uma característica universal à constituição do ser humano. Por intermédio de Freud, entendemos que todo narcisismo é o direcionamento da libido no objeto, em tentativa de suprir a falta do próprio sujeito.

    Aprendemos ainda que o sujeito investe no objeto, e o retorno desse investimento libidinal coloca o Eu como o próprio objeto.

    Portanto, podemos entender que as energias agressivas e o narcisismo são processos inerentes ao sujeito. Nesse ponto, podemos encontrar uma relação entre o feminicídio e o narcisismo, já que poderia ser essa uma das causas de um sujeito atuar criminalmente contra o outro, de forma fatal.

    Libido, recalque e perversão

    Freud nos diz que “ o estado de paixão consiste em um transbordamento da libido sobre o objeto. Assim, este estado tem o poder de suspender recalques e de restaurar perversões” (Freud,1914/2004, p.118). Ademais, entendemos que este transbordamento deixa o sujeito sem a lógica da razão.

    A suspensão dos recalques por si só, seria bem preocupante, e capaz de causar uma tragédia. Porém, além disso, temos também a restauração da perversão, quer dizer, o retorno da perversão ao estado infantil. Porém, atualizada no adulto.

    Perversão

    A perversão no adulto é diferente do que a perversão infantil. No caso dos adultos, a perversão é tomada por um ponto de fixação. Assim, o sujeito se fixa em um objeto. Por outro lado, a fixação no adulto busca uma completude. Portanto, a separação pode ser intolerável.

    Segundo Marcell Santos em seu livro “Feminicídio e Psicanálise uma questão atual” pág. 133 – “Quando faz o investimento no objeto, o sujeito está sempre referenciando as situações de amor que tivera na infância”.

    Esse momento de separação do seu objeto de fixação, fere o narcisismo e leva o sujeito a pensar que é tudo que o outro precisa. Assim, não faz sentido ele não ser desejado e querido. Na verdade, essa afirmação seria exatamente o oposto, colocando o Eu no lugar do objeto, afirmando que o outro é quem precisa do sujeito, e não que ele é quem precisa do outro.

    Entendemos então que o estado de paixão leva o sujeito ao retorno às perversões. Porém, segundo Freud (1914/2004, p. 118), podemos afirmar que a paixão se baseia nas condições de amor vigentes na infância.

    O alívio da tensão

    É possível dizer que objeto sexual é um objeto no qual depositamos a possibilidade de um apaziguamento de nossas tensões psíquicas. Nessa mesma linha, Freud nos diz que toda escolha de objeto é uma escolha narcísica: “Amaremos aquilo que fomos e deixamos de ser, ou aquilo que possui qualidades que nunca teremos”.

    Aliada às escolhas narcísicas em um relacionamento, temos uma cultura que evidencia e sustenta o machismo. Essa cultura dá ao homem uma possibilidade de exteriorizar o seu narcisismo a partir da supervalorização do objeto sexual. É possível dizer que a sociedade machista não desenvolve o status de castrado do homem neurótico. Portanto, a angústia não tem para onde escoar.

    O machismo se comporta como um aliado dessa situação de angústia. Quando um homem se encontra em uma situação de angústia, de impotência diante do desejo do outro, ataca com o respaldo da cultura  sociedade, que espera que o homem “faça o seu papel de macho”.

    O macho que ataca, que é o pilar central do lar, que defende a sua fêmea, que garante o alimento através da caça, enquanto a sua fêmea fica em casa responsável pela prole.

    Dessa forma, os homens possuem um respaldo maior para realizarem o seu comportamento narcísico, sem grandes questionamentos ou consequências. Em nome de uma satisfação maior, o homem agride, assassina, comete absurdos, isso tudo porque sua constituição social o permite.

    O Retorno do objeto

    Como sabemos, durante o processo edípico de um menino, o relacionamento que se desenvolve com sua mãe, trata-se de um relacionamento com investimento direcionado ao objeto. O símbolo maior desse investimento é o seio materno. Entretanto, diante do pai o menino encontra a sua identificação, assim essa relação permanece por um tempo.

    O complexo de Édipo se solidifica a partir do crescente interesse pela mãe e do entendimento que esse pai significa um obstáculo à satisfação do desejo. Porém, o complexo de Édipo evolui assim como o próprio indivíduo. Logo, esse menino terá que fazer uma escolha e renunciar o seu investimento objetal, seguindo com o caminho da identificação (seja pela mãe ou pela acentuação da identificação pelo pai).

    Nesse momento o objeto é inserido na instância do Eu. O recalcamento do romance edípico começa a validar a introdução do objeto no Eu, através da angústia de castração, seguindo a escolha narcísica de se manter fálico. Ou seja, podemos entender que para que haja a elaboração do objeto inserido no Eu, é necessário que uma escolha narcísica em se manter com o falo seja feita.

    Disposição bissexual

    Freud define que em toda criança há uma disposição bissexual, pois diante das heranças cruzadas, características masculinas e femininas são cruzadas. Diante disso, o autor Marcell Felipe Alves dos Santos, em seu livro “Feminicidio & Psicanálise – Uma questão atual, pág. 137, disse: “…Tal afirmação freudiana nos direciona a dizer que a escolha fálica não é apenas uma escolha narcísica, mas também uma forma de dissolver a feminilidade marcada na constituição do sujeito…”

    Podemos dizer que homem, em sua constituição psíquica, faz a exclusão do feminino por meio do falo. Para ele, a ideia de castração é insuportável. Assim sendo, aqui entendemos que o sexo oposto (feminino) é apresentado ao homem como a castração.

    Mulher, sociedade e feminicídio

    Não é novidade que as mulheres ainda não estão em patamar de igualdade em relação aos  homens na sociedade. Aliás, essa é uma batalha travada há muitos anos por essas mesmas mulheres, que ainda ocupam o lugar de subjugadas, entre tantos outros adjetivos que poderíamos usar para descrevê-las.

    A luta feminista

    Reconhecemos que a luta dos movimentos femininos por igualdade conseguiu importantes avanços nos últimos anos. Porém, como sociedade, devemos fazer a autocrítica constatando que ainda não conseguimos ter e existir em uma sociedade com igualdade entre homens e mulheres, e igualdade de gêneros.

    Porém, neste trabalho, propomos algo muito mais profundo do que direitos, sem obviamente diminuir essa temática que é urgente para a sociedade.

    O enfoque deste trabalho é a mulher em sociedade. Além disso, focamos em suas relações de forma profunda, contemplando a complexidade da natureza humana. Dessa forma, objetivamos tentar compreender as razões pelas quais as mulheres ainda não conseguiram avançar com ênfase na luta por igualdade de direitos.

    Ademais, refletimos sobre como essa mesma mulher constrói suas relações e as mantém. Observamos também como a sociedade vê e convive sem grandes assombros com as vítimas de feminicídio diariamente.

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    A história do movimento

    Em termos de sociedade e civilização, sabemos que somente em 1962, a mulher teve permissão para trabalhar e receber herança sem a assinatura (autorização) do marido. Isso se deu através da criação do Estatuto da mulher casada. Ademais, somente em 2006 houve a promulgação da Lei Maria da Penha. Essa lei coíbe a violência doméstica contra mulheres, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral.

    Essa lei é um importante instrumento de enfrentamento à violência doméstica para as mulheres. Ademais, em março de  2015 tivemos a criação da Lei do Feminicídio, que torna crime hediondo o homicídio de mulheres em razão do gênero.

    Os atos citados acima são com certeza grandes avanços e conquistas. Contudo, perceba que são extremamente novos.  Esse é o retrato da história recente do país (e do mundo).

    Os direitos e deveres da mulher

    Isso nos leva a entender como a mulher é e sempre foi vista na sociedade: como um indivíduo desprovido de direitos, vontades, poder de decisão e de escolha, inteligência e até competência para as suas tomadas de decisões.

    Por muitos anos, a sociedade reservou à mulher um lugar invisível. Contudo, ela tinha um papel com responsabilidades, do qual muito se esperava. Esse papel era o de fazer o trabalho base para:

    • a criação e edificação de um lar,
    • criar e educar os filhos,
    • cuidar do sustento e da saúde física e espiritual deles,
    • zelar por suas maiores e menores necessidades, bem como as de seu marido e dos demais membros da família se fosse o caso,
    • obedecer e ajudar o marido.

    Um olhar compreensivo

    Olhando para esse cenário, também conseguimos compreender o motivo pelo qual grande parte das vítimas não recorrem às autoridades, à sua família ou amigos próximos. Podemos ver o lugar destinado às mulheres, esse lugar de subserviência, contemplação, de silenciamento, e de pouca voz.

    Além disso, muitas são acometidas pelo estado da vergonha por se encontrarem em determinadas situações. Se envergonham por deixar que algo acontecesse (como se coubesse a vítima a culpa de seu algoz). Por fim, sobretudo, as mulheres sofrem com a vergonha por não ter tido êxito em seu papel destinado pela sociedade. Ou seja, o papel de dona do lar, a que cuida, cria, cozinha, ama e é amada pelo seu príncipe encantado.

    Todas essas expectativas e julgamentos contribuem para o aprisionamento de muitas mulheres, vítimas de relações abusivas e destrutivas. Assim, observamos que elas sofrem por pensar em abandonar aquele que parecia o lugar onde devem estar. Portanto, sentem que não há como sair do ciclo de sofrimento e que não tem a quem recorrer.

    Dinâmica pulsional e feminicídio

    Diante desse cenário, é possível dizer que o homem comete o assassinato no exato momento em que a mulher lhe apresenta a castração. Esse homem que teve uma criação fálica nessa mesma sociedade que apoia e potencializa os seus desejos, vontades, excessos, não consegue se dar conta de sua própria castração. Ele não pôde realizar o desejo mais absoluto, sua relação edipiana.

    Esse homem se depara com somente duas opções: a aceitação e entendimento de sua impotência naquele momento. Diante dessa escolha indigesta, resta como opção possível a consumação de sua agressividade e perversão.

    Momentos de conflito

    Este homem não consegue conceber que o seu desejo nunca será o mesmo desejo do outro. O abandono do outro traz à tona a fase de ameaça e a perda do seu lugar dentro do romance familiar. Um exemplo disso é quando o homem vive uma ruptura amorosa com a sua parceira e se sente abandonado. Assim, como consequência, ele terá a atualização da sua primeira ferida narcísica no romance familiar.

    Marcell Felipe, na pág. 138, cita “…Ou seja, o feminicidio refere-se ao primeiro momento de paixão, atualizado na relação amorosa vigente. Nesse sentido o crime não equivale  a matar a mulher por si só, mas sim rememorar o se desamparo e com isso matar o primeiro objeto que o sujeito investe  a sua paixão, ou seja, sua mãe.”

    Freud (1914/2004, p. 118) também diz: “Onde houver obstáculos reais a satisfação narcísica, o ideal sexual poderá ser utilizado como satisfação substitutiva”.

    Esse trecho é de suma importância, pois entendemos que o homem deposita em sua parceira um lugar de ideal sexual. Porém, no momento em que essa parceira se mostra como um obstáculo para a satisfação narcísica, esse homem encontra no feminicidio uma satisfação substitutiva.

    Conclusão

    Falar desse tema não é fácil, pelo contrário. É extremamente delicado é difícil, afinal de contas estamos falando de um ato de violência que destrói famílias, destróis sonhos, e vidas. Ademais, trata-se de um problema que vem de onde menos se espera, a fonte de amor, o ideal do amor romântico. 

    Estamos aqui falando de um paradoxo famoso, amor e o ódio. Durante essa pesquisa a dúvida que pairava era, quando o amor se torna ódio? Quando aquele relacionamento, aquele casal que se uniu por um sentimento de afeto, cai na armadilha do ódio, raiva, brigas e na maioria dos casos, chegando a uma fatalidade?

    É difícil entender, explicar e até conceber essa realidade. Porém, esse trabalho fala sobre ideal, objeto, sobre o Eu, e narcisismo, sobretudo sobre a perda, a frustração, a castração daquele individuo que até então, não se reconhecia como castrado. Quando a relação com esse objeto é interrompida, o que resta é o ódio.

    A regressão que o ódio traz

    Ou seja, aquele amor se transforma em ódio. Freud nos diz que o ódio nessas circunstâncias se fortalece pelo regresso para a fase sádica. Assim, o ódio se veste de erótico, o que permite uma continuidade da relação amorosa.

    Acredito que muito ainda temos muito para pesquisar e descobrir em torno dessa temática. A nossa realidade e a situação atual pede que seja assim. Espero que em breve esse tema receba a atenção que merece. Que possamos entender melhor como essa relação se dá e que possamos acolher e cuidar das mulheres que sofrem com relacionamentos abusivos.

    Dessa forma, evitaremos o aumento de feminicídios. Espero ainda que possamos punir os homens criminosos e, sobretudo, que possamos entender as causas sociais que criam o cenário perfeito para essa relação de amor e ódio.

    Que possamos compreender o que pode ser de fato modificado em nós como sociedade! Assim, poderemos evitar esse tipo de violência. Ela pode ser evitada a partir do  momento que houver diálogo e entendimento sobre esse tema, que não é fácil nem simples. Contudo, é com certeza de extrema urgência que nós falemos sobre ele.

    Este conteúdo sobre feminicídio foi escrito por Jéssica Romão para o Curso de Formação em Psicanálise Clínica.

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