O divã na psicanálise é uma questão curiosa no processo da associação livre, pois nenhum analisando necessita deitar-se no divã para fazer análise, pois a mesma não acontece só se a pessoa estiver deitada no divã, o objetivo vai muito além, ele aparece na sessão como uma espécie de herança da hipnose.
A psicanálise se origina também da prática hipnótica e esta prática prevê que o paciente fique completamente relaxado, onde ocorre uma espécie de ausência da sua consciência de vigília momentânea, a visão passa a ser, não uma visão direta, dirigida, focada entre uma pessoa e outra, entre analista e analisando.
Onde o divã se encaixa na Psicanálise
Ambos durante a sessão se permitam uma espécie de flutuação daquilo que vão dizer, aquilo que vão pensar.
Se eu não olho no olho de alguém, eu não tenho compromisso de dizer alguma coisa baseado no que esse alguém supostamente quer ouvir.
Ou também baseado nas reações que essa pessoa faz sobre o que eu estou falando, cada situação, cada momento de análise, faz com que o divã tenha ou não um lugar privilegiado.
Para alguns pacientes deitar no divã seria como perder totalmente as estribeiras.
Perder totalmente o controle e entrar numa viagem sem volta, eles dizem: eu não posso deixar de ver com quem eu estou falando, se eu deitar aqui eu vou dormir, eu não quero deitar porque eu tenho vergonha.
A perda do controle
Várias razões podem levar alguém preferir não deitar no divã e até ter um certo horror quanto a isso, mas disso não depende o sucesso da análise.
Quanto ao analista, ele pode talvez ficar um pouco mais à vontade para escutar o som, as sonoridades, quando analista e analisando relaxam.
Deixam fluir pensamentos e sensações, eles entram em uma área cujas fronteiras são menos delimitadas e com isso, podem aspirar uma viagem mais longe, do que aquilo que eles conseguem controlar na chamada conversa habitual.
A psicanálise não é uma conversa habitual e o divã pode ser uma espécie de mística onde a pessoa se entregue totalmente ao desconhecido.
O divã na Psicanálise: desafios na associação livre
Freud começa a usar o divã na psicanálise por uma série de fatores, uma das coisas que a gente pode dizer que quebra com o imaginário, com a imagem que se cria em torno da imagem do analista.
Suas expressões faciais, os seus olhares.
Na medida que o analisando está deitado no divã, e o analista está sentado atrás do divã, fora do campo visual do analisando, há uma quebra nessa pessoalidade.
O analista fica sendo mais uma escuta do que uma pessoa que reage com expressões ou com feições diante daquilo que está sendo dito.
A quebra do imaginário
Há uma quebra desse imaginário, pode-se dizer de uma certa suspensão do sujeito, na medida em que ao deitar-se no divã e ao falar da sua intimidade, das suas questões, para alguém que ele não está vendo.
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Não há outra situação social que isso ocorra, em todas as situações sociais a gente fala olhando para pessoa e principalmente se for uma fala mais íntima, no sentido de falar coisas mais pessoais.
É comum buscar o olhar do interlocutor.
Há uma quebra em que o sujeito fala das suas questões, da sua intimidade para alguém que ele não está vendo, e fala deitado, também uma outra situação bem atípica do ponto de vista social.
Não há também outro momento em que você vai falar dessa intimidade deitado.
Os casais muitas vezes falam de suas intimidades quando estão na cama, mas, neste ponto há uma paridade, um casal justamente um par que está ali colocado, mas, entre analisando e analista, há uma disparidade subjetiva, como disse Lacan.
A importância do divã na associação livre
Por outro lado, Freud percebeu a importância da associação livre que seria justamente o método para se chegar à questão do conteúdo inconsciente, sem necessariamente precisar utilizar hipnose.
Neste estágio já estava percebendo que não tinha o resultado.
Neste sentido vale lembrar que a utilização do divã na psicanálise, varia de pessoa para pessoa.
Depende do seu analisando, depende de se ter em algumas situações, inclusive quando você quer conduzir o analisando depois das entrevistas preliminares.
De repente percebe-se que ele está começando a entrar em associação livre de uma forma mais fácil.
O divã como símbolo da Psicanálise
A simbologia do divã na psicanálise é muito importante principalmente para quem trabalha com a psicanálise ou em psicoterapia de base psicanalítica.
A teoria que nasceu de Freud ou de alguma forma dentro de algumas ramificações, Melanie Klein, Winnicott, Lacan que são outros teóricos que deram sequência a obra de Freud, mas o divã nasce em Freud.
No começo Freud como neurologista eles usavam técnicas rudimentares, técnicas antigas uma delas era a hipnose.
O método antigo arcaico e que Freud com o processo de hipnotizar alguns pacientes psiquiátricos, alguns pacientes que decorrentes da clínica da “loucura” de sanatórios, nesse processo de fazer esta regressão hipnótica.
O paciente narrava as coisas mas depois que tomava o estado de consciência, não aceitava aquilo que eles descreviam a paciente que eles tinham verbalizado.
Freud criou a associação livre que através da livre fala.
O paciente vai se encontrar consigo mesmo e vai desvendando seu próprio inconsciente, escavando sua história, mas não de forma indutiva.
Ele vai fazendo isso naturalmente e Freud percebeu que o divã na psicanálise era um meio excelente para a pessoa se deitar sem a influência do olhar do analista.
A laço de confiança no divã
No divã quando já entra no estágio onde a pessoa quer falar e elaborar as coisas a partir de si mesma, ela já está no estágio avançado do processo.
Ou seja, já está no estágio evoluído de relação consigo mesma, onde o analista quase não tem função.
Nesse sentido, o paciente transfere muitas necessidades dele ao analista e o analista vai ajudar ele a chegar por ele mesmo.
As interpretações, aos insights, não é o analista que dá os insights ao paciente, é o paciente que tem os insights.
O divã na Psicanálise como instrumento
O divã na psicanálise não é uma fantasia, é um instrumento para ajudar as pessoas a se encontrarem consigo mesmas, por elas mesmas.
O papel do analista, é apenas de intermediar essa viagem que a pessoa faz no seu subterrâneo da mente, seu inconsciente. Então, o divã é uma simbologia do inconsciente.
Muitas vezes as pessoas dizem, ‘vou deitar-me aqui no divã para relaxar um pouquinho’, o divã não é um ‘SPA’, não é um lugar de relaxamento, o divã na psicanálise é um lugar de tensão na medida que há a fala, na medida que há associação livre.
Esse efeito siderante é muito mais no sentido de produzir associação livre e não tanto no sentido de um relaxamento como se fosse um SPA, ou um lugar de massagem, tal que o sujeito vai relaxar, não se trata desse relaxamento.
O divã pode até ser um lugar simbólico de uma entrada em análise, quer dizer, ‘eu estou no divã’, estar no divã significa estar em análise e que está empenhado no processo, ou seja, significa construir um sintoma e trabalhando na elaboração deste sintoma.
Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica do aluno Edmilson Lacerda de Santana.
