Controle emocional: A neurose do aviso

Publicado em Publicado em Psicanálise

A “neurose do aviso” se apoia no misticismo para invadir fronteiras psíquicas, instaurar hierarquias e capturar a atenção do outro por meio da ansiedade, controle emocional e sobretudo, discute por que estabelecer limites claros é a forma mais eficaz de proteção: espiritual, emocional e psíquica.

Nem todo aviso como: “Senti uma energia estranha.” ou “Fica esperto(a).” é intrusivo, nem toda preocupação é narcisista, assim como nem toda sensibilidade é projeção.

Há pessoas que realmente se importam e redes de apoio que trazem paz, não ansiedade e há intuições que acolhem, não assustam.

Intuição ou invasão? Como diferenciar

Para diferenciar devemos nos perguntar qual o efeito a mensagem nos produz.

Uma intuição genuína: acalma, esclarece, oferece apoio, respeita seu espaço, não cria dependência e não exige submissão.

Uma invasão emocional: inquieta, confunde, cria suspense, te coloca em posição inferior, exige que você siga instruções, te faz sentir vulnerável.

Invasão narcisista é barulhenta, urgente, dramática. A primeira amplia sua autonomia, respeita seus limites e oferece presença.

Já a segunda sequestra sua paz e exige controle emocional.

Quando alguém diz “senti algo ruim sobre você”, mas não consegue explicar, não acolhe, não sustenta, apenas lança a bomba e vai embora, isso não é intuição.

É vampirismo de controle emocional e como todo vampirismo, depende da sua permissão para entrar.

O controle emocional do “aviso espiritual”

Para entender por que esses avisos têm tanto impacto, é preciso olhar para o funcionamento psíquico humano.
Freud, em ‘O Inquietante’, explica que a superstição nasce da projeção de desejos hostis reprimidos.

Quando tememos o “mau-olhado”, estamos, na verdade, temendo nossos próprios impulsos agressivos.

O “aviso espiritual” funciona porque toca em zonas primitivas da psique e o faz sentir medo: do abandono, da inveja, da punição, do desconhecido e de perder o controle emocional.

Estes medos são universais, quando alguém os ativa, mesmo que de forma sutil, o corpo responde.

A ansiedade sobe, a imaginação se agita e a pessoa começa a se perguntar:
“E se for verdade? ”

É nesse ponto que o emissor ganha poder.

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O “aviso espiritual” funciona como um gatilho que ativa fantasias inconscientes.

Ele se apoia em crenças antigas, em medos infantis, em memórias arcaicas. Por isso, é tão eficaz e por isso, também, é tão perigoso.

O papel da cultura: por que o “olho gordo” é tão sedutor

O imaginário do “olho gordo” é antigo e atravessa diversas culturas.
No Brasil, ele se mistura com religiosidade popular, espiritismo, catolicismo, umbanda, misticismo e crenças familiares.

É uma narrativa que oferece explicações rápidas para sentimentos difíceis como: inveja, fracasso, insegurança, medo e instabilidade.

É mais fácil acreditar que alguém “mandou energia ruim” do que reconhecer a própria vulnerabilidade.

O problema não está na crença em si, mas no uso que se faz dela.

Quando o “olho gordo” vira justificativa para controlar o outro, estamos diante de uma distorção.

Ao virar-se uma arma de controle emocional estamos diante de uma intrusão.

Quando vira forma de manipulação, estamos diante de uma dinâmica psíquica tóxica.

Proteção para o controle emocional

A espiritualidade, quando saudável, liberta, já a superstição, quando usada como controle, aprisiona.

A proteção real não está em rituais, rezas obrigatórias ou amuletos impostos por terceiros.

A proteção real está em limites emocionais.

Algumas estratégias:
Não responder imediatamente a mensagens que induzem ansiedade;
Não pedir explicações quando alguém diz “depois te conto”;
Não assumir responsabilidade por emoções que não são suas;
Não aceitar práticas espirituais impostas;
Não se sentir obrigado a seguir conselhos que não ressoam com você;
Não permitir que o outro defina seu estado emocional.

A proteção mais poderosa é a capacidade de dizer:
“Isso não é meu.”
E devolver ao outro aquilo que pertence a ele.

A espiritualidade não é controle emocional, a espiritualidade verdadeira não invade, não assusta, não manipula, na verdade ela acolhe, sustenta, ilumina.

Quando alguém usa o discurso espiritual para induzir ansiedade, criar suspense ou estabelecer hierarquia, não está oferecendo cuidado, está exercendo poder.

O “olho gordo” que essa pessoa vê em você pode ser apenas o reflexo da própria sombra.
E a melhor forma de se proteger não é temer, mas limitar.

Não é rezar por obrigação, mas escolher o que faz sentido.

Não é se submeter ao aviso, mas se escutar.

A verdadeira blindagem é emocional, a verdadeira proteção é psíquica e a força é saber onde você termina e onde o outro começa.

Artigo escrito por Julieta Pedrosa com exclusividade para o Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.

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