Avisos disfarçados de cuidado é uma das formas de controle emocional de 'olho gordo' com efeito de produzir ansiedade e inquietação.

Controle emocional: O ‘olho gordo’ do outro

Publicado em Publicado em Psicanálise

Há avisos que chegam como cuidado, demonstração de zelo, porém é uma das formas de controle emocional, soam também como ameaça. Quem nunca recebeu ou ouviu uma mensagem do tipo: “Senti algo estranho sobre você… depois te conto”? Ou então: “Reza, porque tem gente te olhando com inveja”?

No entanto, basta observar o efeito que produzem: inquietação, suspense, ansiedade, sensação de que algo ruim está prestes a acontecer.

Esses “alertas espirituais” se tornaram tão comuns que já fazem parte do repertório cotidiano. Circulam em conversas, redes sociais e até em encontros familiares.

Mas, quando examinados pela lente da psicanálise, revelam uma dinâmica muito mais complexa do que simples superstição. O que se apresenta como intuição ou sensibilidade espiritual pode, muitas vezes, operar como identificação projetiva.

É um mecanismo descrito por Melanie Klein em 1946, no qual partes indesejadas do psiquismo são expulsas e depositadas no outro.

O “olho gordo” que alguém diz perceber em você pode ser, na verdade, o reflexo da própria inveja, angústia ou desorganização de controle emocional dessa pessoa.

O prenúncio do caos como controle emocional

Há frases que não informam nada, mas dizem tudo. “Depois te conto.”, “Os sinais são evidentes.”, “Senti uma energia estranha.” E também o famoso: “Fica esperto(a).”

Essas expressões funcionam como pequenas bombas-relógio emocionais.

Não trazem conteúdo, apenas suspense. Não oferecem ajuda, apenas inquietação, são iscas de ansiedade.

Do ponto de vista psicanalítico, esse tipo de comunicação cria uma assimetria de saber:
O emissor se coloca como alguém que sabe, o receptor é colocado como alguém que não sabe e nesta posição precisa aguardar, depender, temer.

É uma forma de poder.

Ao insinuar que possui acesso privilegiado ao invisível, seja espiritual, intuitivo ou energético, o emissor se coloca em posição de autoridade.

Ele passa a ocupar o lugar daquele que detém o conhecimento sobre o destino do outro.

Essa dinâmica lembra o que Freud descreveu em ‘O Inquietante (1919)’, quando fala da onipotência do pensamento: a crença de que ideias, desejos ou intuições têm poder real sobre o mundo.

Quem diz “senti algo ruim sobre você” assume, implicitamente, que sua percepção tem valor profético.

Ao mesmo tempo, induz no outro a sensação de vulnerabilidade.

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O aviso não traz paz, traz dependência.

Não oferece clareza, oferece suspense, não acolhe e sim captura, é  o prenúncio do caos como forma de controle.

A identificação projetiva

Melanie Klein descreveu a identificação projetiva como um mecanismo primitivo no qual o sujeito expulsa partes intoleráveis de si: angústia, inveja, raiva, confusão e as deposita no outro.

O outro, então, passa a carregar aquilo que não lhe pertence.

Quando alguém diz:
“Tem gente te invejando.”
“Senti uma energia pesada em você.”
“Cuidado, tem olho gordo no seu caminho.”

É importante perguntar: de quem é essa inveja?

Muitas vezes, o que está sendo percebido como “energia ruim” é, na verdade, a própria inveja do emissor, projetada no outro para que ele a carregue.

A pessoa não suporta reconhecer sua própria hostilidade, então a externaliza. Ao externalizar, tenta fazer com que o outro sinta exatamente aquilo que ela não consegue elaborar.

É como se dissesse: “Eu não quero lidar com essa angústia, fique você com ela.”

Esse processo não é consciente.

Não se trata de manipulação deliberada, mas de um funcionamento psíquico que busca alívio às custas do outro.

O “olho gordo” é, muitas vezes, o próprio olhar invejoso de quem avisa.

E, ao depositar essa sombra no outro, o emissor tenta controlar não apenas a narrativa, mas também o estado de controle emocional do receptor.

A identificação projetiva, nesse contexto, funciona como uma forma de invasão psíquica: o outro passa a sentir algo que não é seu, mas que foi induzido.

O narcisismo por trás do “aviso espiritual”

Há avisos que não querem ajudar, mas querem ser reconhecidos.

Quando alguém diz:
“Você precisa rezar o terço.”
“Faça isso porque eu sei o que é melhor para você.”
“Eu tenho uma sensibilidade que você não tem.”

O que está em jogo não é espiritualidade, mas narcisismo de controle emocional. O emissor assume o papel de “salvador”, mas um salvador que só existe se o outro estiver em perigo.

Ele precisa que você esteja vulnerável para que sua superioridade espiritual seja validada.

Esse tipo de narcisismo se alimenta da dependência alheia.

O sujeito não quer apenas ajudar, quer que você reconheça que ele sabe mais, vê mais, sente mais.

Quer que você se curve diante da sua suposta sensibilidade.

É o que, na literatura psicanalítica contemporânea, se chama de Narcissistic Entitlement: o direito narcisista de invadir o espaço emocional do outro sob o pretexto de cuidado.

O aviso espiritual vira, então, uma forma de intrusão.

Como toda intrusão, desrespeita fronteiras.

O narcisismo espiritualizado é especialmente perigoso porque se mascara de bondade. Ele se apresenta como preocupação, mas opera como controle e se veste de luz, mas age como sombra.

A Blindagem contra o controle emocional

A resposta mais eficaz diante desse tipo de invasão de controle emocional não é contra-ataque, nem explicação, nem justificativa e sim limite.

Uma frase simples como: “Estou bem à minha maneira. ” Interrompe o circuito da neurose alheia.

Por quê? Porque devolve ao outro aquilo que é dele. Na psicanálise, isso é fundamental: não carregar o que não nos pertence.

Não aceitar projeções como verdades e não permitir que o outro nos use como depósito de suas angústias.

Wilfred Bion, ao falar da relação continente–conteúdo, descreve como algumas pessoas tentam despejar no outro aquilo que não conseguem metabolizar.

Quando você diz “estou bem”, você recusa o papel de continente.

Você não se oferece como recipiente para a ansiedade alheia. O limite funciona como blindagem ao controle emocional.

Ao contrário do que muitos imaginam, não é agressivo. É um ato de cuidado consigo mesmo, é uma forma de manter o próprio campo psíquico íntegro.

O limite devolve ao outro a responsabilidade por suas emoções e nesta lógica você se protege, não de “energias ruins”, mas da invasão emocional travestida de espiritualidade.

Artigo escrito por Julieta Pedrosa com exclusividade para o Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.

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