A obra ‘Identidade’, escrito por um dos melhores literatos deste século, Milan Kundera. Apesar da literatura psicanalítica estar repleta de textos que tratam minuciosamente sobre o campo de quem somos e sua fantasia e realidade, o escritor Theco expõe o tema na simplicidade do romance entre dois personagens que, como a grande maioria de nós, já experieciamos algo semelhante em algum momento da vida.
Esta semelhança, portanto, ao fazer nos ambientarmos melhor no assunto, nos leva a absorver a filosofia com o prisma de um grande poeta.
A Fantasia e realidade
A obra conta a história de Chantal, publicitária bem sucedida e à flor da idade, cujo problema de autoestima se reflete na insistência de que, “os homens não se viram mais para olhá-la”.
Jean Marc, homem mais jovem que, embora declarado seu amor a experiente mulher, se vê em meio a constante luta entre o que ela é, e o que ele desconfia (ou deseja) que ela seja.
Essa confusão é manifestada em sonhos com sua amada, quando ele a vê trajada sob o rosto de outra no momento do contato e na beira-mar ao confundi-la com uma moça mais jovem, e ao vê-la atuando de forma brilhante, diferente de tudo o que vira, diante dos colegas de trabalho.
A angústia da identidade
O conflito das identidades é uma marca-passo de sua relação com Chantal.
Nesse cenário, a identidade de Chantal torna-se fluida, interpelada não apenas por suas angústias pessoais, mas pela lente distorcida de Jean Marc.
A narrativa explora a angústia de perceber que, mesmo na união mais profunda, o outro permanece um enigma inalcançável, e que o amor muitas vezes sobrevive, não no que conhecemos do amado, mas nas lacunas do que imaginamos sobre ele.
Por outro lado, Chantal encara um sério dilema quando, num belo dia, recebe a carta de um admirador secreto.
No documento de caráter hermenêutico e provocante, o misterioso descreve cada vírgula de seu cotidiano e cada detalhe de sua beleza, se colocando na presença de promotor dos seus traços.
Ao ver sua imagem escancarada na descrição romântica das cartas recebidas, Chantal é novamente percebida como objeto de desejo, visto que a confissão do autor desconhecido expressa palavras que se são como espelhos, refletindo de maneira cirúrgica toda a curvatura do seu corpo.
O enfrentamento do Eu
O confronto consigo se transforma em contemplação, emergindo a vaidade feminina outrora escondida sob o pudor da idade.
Seu modo de se vestir, de falar, sorrir e agir, é um espetáculo diante de seu fã misterioso, uma vez entendida que da sua fantasia e realidade, saindo da penumbra da solidão, deixa de ser invisível e passa a ser notada.
Este holofote é a chama que acende sua sensualidade e da vazão para o seu existir.
Contudo, a trama segue uma importante reviravolta quando, por um detalhe da observação, Chantal descobre que o misterioso que a perseguia é nada mais que Jean Marc.
Seu amado se camufla sob a pele de um apreciador qualquer, na clara intenção de mostrar a ela toda a grandeza de seu charme.
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O conflito entre a fantasia e realidade
Em razão de toda a mudança no comportamento de Chantal, o namorado passa a encarar um difícil impasse.
O seu ciúme com relação ao outro responsável em despertar os caprichos da mulher e se colocando, assim, numa posição de mero espectador diante de um romance que não existe e em conflito de fantasia e realidade.
A mistura entre a sombra que paira na percepção da individualidade de Chantal.
A vulnerabilidade de Jean Marc, quando este se vê incapaz de reacender a chama de sua mulher, passa a tomar caminhos que estreitam a imperceptível relação entre sonho e realidade.
Por um lado, diante da visão do outro, a identidade surge como a imagem direta que responde as exigências do mundo.
E na calada do inconsciente, ela é volátil e imprevisível, dado que, por vezes, o mundo age como entrave de suas pulsões, e não como condutor.
A idealização da realidade
É justamente nessa fronteira construída para separar a idealização do real, que Milan Kundera expõe a grande fatalidade das relações.
O contato humano funciona no limiar entre o que esperamos do outro e sua misteriosa fantasia e realidade.
A capacidade de amar é mensurada pelo nosso envolvimento sobre o que o outro nos devolve, após projetarmos nele as nossas fantasias.
Nesse pequeno espaço, coexistem uma série de vias sinuosas cujos encontros transformam a vida como ela é.
Artigo escrito por Eli Vieira com exclusividade para o Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.
