O gozo lacaniano segundo Lacan, Psiquiatra doutorado em 1932, integra, em 1934, em Paris, a Sociedade Psicanalítica. Em 1938 se torna membro titular dessa Associação. A clínica lacaniana desloca o centro biológico para o antropológico, eis que a pulsão, enquanto fenômeno psicológico, assume autonomia em relação ao biológico.
O conceito do gozo lacaniano
O desejo continua denunciando uma falta em Lacan, porém o conceito de gozo é trazido à luz de empréstimo dos termos jurídicos já fundados na concepção de Santo Agostinho, de fruição, assim como de Arendt, recuperando a noção de que o ser humano está no mundo sem testamento, isto é, a herança humana foi legada, mas sem um manifesto, declaração ou aval.
O gato sabe ser gato, o ser humano precisa de uma receita para ser humano.
Eis que o Homem pode livremente criar-se dada a ausência de um registro. Nessa empreitada, consegue até reprimir as pulsões como não comer quando está com vontade.
Desejo e Gozo não serão mais sinônimos, mas serão compreendidos por semânticas diferentes.
Se em Freud era equivalente a prazer, em Lacan, terá a semântica jurídica de repartir e distribuir inicialmente. Assim, o gozo está no real e não no significante.
O gozo pode ser autoritário: exigir que o outro tenha prazer, pode ser narcisista, que ignora o Outro, ou fantasmático, que se desdobra do desejo do Outro.
Até a década de sessenta dos anos 1900, não há sujeito do gozo em Lacan porque o gozar abole o sujeito.
O gozo no Outro
O corpo goza, mas não o sujeito, pois é interditado àquele que fala.
Por este motivo, o pensamento irônico de Lacan afirma que não há relação sexual e, o amor, por fazer signo, é sempre recíproco.
O gozo está ligado a repetição, pulsão de morte. Capta-se uma parcela do gozo do Outro e goza-se de novo, repetidas vezes, se for o caso.
Em sua peripécia pelo gozo, Lacan vai colocando um acento maior no gozo em relação à ética de forma que cada discurso do esteta, do juiz, do professor, do psicanalista e outros, produz e institui uma forma de gozo: o gozo no nível do outro (objeto a) no campo do real.
O gozo é uma imposição, requer uma satisfação, é uma captura do sujeito.
Mais precisamente, o gozo começa no lúdico, numa fronteira próxima ao prazer e termina nas chamas, no perder-se no gozo.
Daí ser a Psicanálise um tratamento da ‘coisa gozosa’.
O gozo lacaniano no tratamento psicanalítico
O gozo depende da repetição, só é possível na contramão da lei. O gozo como aquilo que não conseguimos abrir mão.
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Nas expressões diminutivas há exemplos: “só um cigarrinho”, “só mais um pouquinho”: a fantasia se sobrepõe.
Como nem tudo é significante, há passagem da necessidade para a demanda e, ao colocar em palavras a demanda, essa não traduz o que se busca integralmente.
Não se sabe o que está pedindo naquilo que está a pedir. O campo do gozo é o de uma satisfação inconsciente, é a objetificação do sujeito (capturado pelo gozo).
Já o fantasma é a forma repetitiva de se relacionar com o que falta e, ainda, é colocar-se no lugar de objeto para aquilo que falta ao outro (objetivação).
O corpo como um lugar do medo, nesse sentido, medo do corpo, justamente porque só haverá gozo na dimensão do real.
A dimensão que não é a realidade, é o que não tem sentido, que não pode ser nomeado e aparece pela repetição, escapa ao simbólico (inconsciente) e ao imaginário (dimensão pela qual falamos a partir do ego).
O gozo em Lacan é um conceito que busca dar conta da noção de pulsão freudiana, dada a trilogia: necessidade, pulsão e demanda e a necessidade (instinto) é o elemento bruto e esta compõe a pulsão.
A demanda é o que oferta pulsão (passa para a fala) a expressão verbal.
O desejo e o gozo
Porém, toda necessidade não se transforma em demanda, toda a necessidade que não se torna significante é o desejo, o desejo é a necessidade menos a demanda e é inatingível.
É a parte do não conseguir definir, expressar, é da ordem do sentir. Quando movida pelo desejo, a pulsão não tem um objeto permanente, a incompletude se restaura, caso tenha sido minimante satisfeita.
Todavia, a trilogia não dá conta de explicar a pulsão, afirma Lacan, o gozo da transgressão está ligado ao excesso, ele sempre excede (repetição), o desejo não dá conta da pulsão, pois ao realizar um desejo, o excesso (o mais) se presentifica novamente.
O gozo quer estabilidade, ele quer manter a satisfação inconsciente, a completude, mas isso é impossível.
Daí conscientemente o gozo causa insatisfação, o desprazer.
Por isso, a Psicanálise como o tratamento do gozo.
Como o sintoma é uma relação que o sujeito estabelece com o objeto mediante a linguagem e, se estabelece mediante a transferência, organizando algo que de outra forma não foi possível, pois é uma dimensão linguística o sintoma.
Assim, ao falar o sintoma é uma forma de reconhecer o desejo e encontrar um espaço para vivenciar o sintoma e atravessá-lo.
Como o inconsciente é linguagem, o significante vivifica o corpo, é a causa do gozo. Por isso, necessariamente, o sintoma não é a amoralidade encarnada, mas uma metáfora porque o desejo é uma metonímia.
Ao falar, o paciente se escuta e, essa escuta, é ressignificada ao ser dita, ou seja, vai se ressignificando o sintoma.
O signo é aquilo que representa algo para alguém e dependendo da posição o signo é revalorizado, o significante tem primazia sobre o significado, essa é a forma como Lacan compreende o inconsciente.
A fantasia do gozo lacaniano
Na lógica da comunicação a estrutura que se estabelece não tem a ver com o fazer, mas com a fantasia.
Dessa, como quase nada é dito, muito se houve do sintoma numa sessão, o sintoma é como uma defesa.
Em Lacan há a ‘Fantasia Fundamental’ como uma ficção que busca conciliar o prazer com o objeto perdido.
Para Lacan a fantasia reside na origem do sujeito e o bom trabalho psicanalítico é o de atravessá-la e não a interpretar.
O final da análise, seria, portanto, um saber sobre sua fantasia fundamental. Parafraseando Lacan, não ceder em seu desejo, seria então a ética da psicanálise, já que o desejo é metonímia e existe somente para sustentar nossas demandas.
O que se faz quando se faz psicanálise é a pergunta de Lacan e essa pergunta carrega uma carga ética.
Não ceder a seu desejo pode ser pensando como não exagerar nos limites? Será a Psicanálise uma forma de dizer ao sujeito que goze, mas que ao menos não ultrapasse os limites colocados pelo próximo?
O saber sobre sua fantasia, como o fim de uma análise, seria o responsabilizar-se pelo gozo.
A intervenção psicanalítica
O término de uma análise, um bom trabalho psicanalítico, não tem a ver com a interpretação, mas com uma forma de experimentação imagética.
Adquirir consciência sobre a fantasia primária, responsabilizar-se pelo gozo, gozar, é a ética na Psicanálise lacaniana, pois cada ser é ético no exato sentido de buscar a felicidade e a justiça e, como bem já explicava Aristóteles o hábito (a repetição?) leva cada Homem a reconhecer o Bem (a felicidade e a justiça) naquilo que lhe é comum.
O rude dirá que a justiça está na rusticidade e, assim, se vê (se sente) feliz.
O filósofo dirá que o bem é a intuição intelectual, assim, se vê (sente-se) feliz e contemplará a justiça.
A relatividade existe tanto na lei extrema do ‘eu devo’ kantiano ou na ‘libertinagem extrema’ do libertino sadiano e, são chaves de acesso ao tratamento do gozo lacaniano, somente no campo do real se goza, pois, somente no espaço heterotópico da sessão clínica se é ético.
Artigo escrito por Kátia Vanessa Tarantini Silvestri com exclusividade para o Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.
