O terno que não serve, nossa adaptação para caber

O terno que não serve: nossa adaptação para caber

Publicado em Publicado em Literatura e Psicanálise

A partir de um conto simbólico, este texto propõe uma reflexão clínica sobre os efeitos da adaptação para caber às exigências do Outro e seus impactos sobre o corpo e a experiência subjetiva. Com referências da psicanálise, o artigo dialoga com profissionais, pacientes e leitores interessados em pensar os modos de existir que se constroem a partir de renúncias silenciosas e pouco questionadas.

O terno que não serve: até onde vai a adaptação para caber

Um homem entra na loja de um alfaiate para encomendar um terno novo. Ele deseja algo que lhe sirva bem, algo que possa usar por muito tempo, o alfaiate o observa atentamente, mede seus ombros, o comprimento dos braços, a largura do peito e tudo começa de forma cuidadosa e promissora.

Durante a primeira prova, o homem percebe que o terno aperta levemente em alguns pontos.

O alfaiate explica que isso é normal e sugere pequenos ajustes.

Um pouco mais estreito aqui, um pouco mais curto ali…

O homem confia, afinal, o alfaiate sabe o que faz.

Na prova seguinte, o desconforto aumenta. Um ombro parece mais pesado que o outro, a manga não acompanha o movimento do braço. O homem comenta, mas o alfaiate o tranquiliza: “É assim mesmo no começo, logo você se acostuma” e mais alguns ajustes são feitos.

Ao final, o terno está visivelmente torto. Não acompanha o corpo, limita os movimentos, exige esforço para ser usado. Ele precisa segurar o colete, puxando-o para baixo para endireitar, assim orienta o alfaiate.

Depois, o homem percebe que a gola está enrolando, e o alfaiate orienta a colocar o queixo na gola, com a cabeça de lado, para que não enrole. Por fim, ele sente algo estranho na calça, no cavalo, e o alfaiate diz, como nas outras vezes: “Não tem problema, é assim mesmo. Você só precisa colocar a mão aqui e puxar”. O que acaba deixando o homem ainda mais torto.

O molde “perfeito”

Ao olhar no espelho, ele percebe que o terno ficou perfeito e decide levá-lo.

O homem então decide usar o terno e dar uma volta na praça. Ele sai todo torto, manco e estranho, mas com seu terno perfeito para que todos vejam. Dois homens sentados num banco conversam:

– Olha aquele homem aleijado, olha como ele anda…coitado!
– Puxa, ele é muito aleijado, mas que terno perfeito ele está usando!

O conto simbólico conhecido como “O Alfaiate de Szabó”, ou “O Terno”, frequentemente utilizado como narrativa complementar em grupos de leitura de “Mulheres que Correm com os Lobos” (Clarissa Pinkola Estés), apresenta uma imagem clínica precisa dos efeitos subjetivos da adaptação para caber às exigências do Outro.

A história descreve um sujeito que, ao adquirir um terno cuidadosamente ajustado por um alfaiate, termina vestindo uma roupa que não respeita o corpo que deveria acolher e ainda assim, ele a aceita e passa a usá-la.

Simbolicamente, o terno representa a identidade socialmente construída, aquilo que Freud já indicava como resultado das exigências civilizatórias impostas ao sujeito em nome do pertencimento  em “O mal-estar na civilização, 1930”.

A renúncia em prol da adaptação para caber socialmente

O conflito se instala quando as renúncias pulsionais exigidas pela adaptação deixam de ser simbolizadas e passam a ser incorporadas como sofrimento silencioso.

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A figura do alfaiate não atua como agente de violência direta, ao contrário, ele encarna o discurso normativo: familiar, social e cultural o que orienta o sujeito sobre como deve ser para existir no laço social.

A ausência de coerção explícita desloca o conflito para o interior do sujeito, que passa a desconfiar da própria percepção corporal e afetiva. Freud descreve esse movimento como a internalização do supereu, em que a exigência externa transforma-se em cobrança interna contínua.

Na leitura winnicottiana, o terno pode ser compreendido como uma imagem do falso self: uma organização defensiva construída para garantir adaptação e continuidade do ambiente, mas que, quando excessiva, afasta o sujeito de sua experiência espontânea.

O corpo, nesse contexto, torna-se um lugar privilegiado de manifestação do conflito, expressando por meio de sintomas aquilo que a adaptação para caber não pôde ser vivido de forma autêntica.

Já na perspectiva junguiana, o terno aproxima-se do conceito de persona, isto é, a máscara necessária para a vida social. O sofrimento emerge quando há uma identificação excessiva com essa máscara, em detrimento do contato com a dimensão instintiva da psique.

Clarissa Pinkola Estés retoma essa ideia ao afirmar que a perda do vínculo com a natureza instintiva pode conduzir a estados de esvaziamento, apatia e depressão, especialmente em sujeitos que aprenderam precocemente a se moldar para sobreviver.

Do ponto de vista clínico, o conto ilustra sujeitos altamente funcionais, adaptados e socialmente competentes, mas atravessados por sentimentos persistentes de vazio, cansaço existencial e perda de vitalidade.

O sofrimento não decorre, necessariamente, de um evento traumático isolado, mas de uma sequência de pequenas renúncias subjetivas que, acumuladas ao longo do tempo, produzem um distanciamento progressivo de si.

Reconhecer que o terno aperta: o primeiro passo

O trabalho analítico, nesse sentido, não consiste em retirar abruptamente o “terno”, mas em criar um espaço onde o desconforto possa ser reconhecido como legítimo.

Ao restituir valor à escuta corporal e afetiva, a clínica possibilita ao sujeito diferenciar adaptação para caber em espaços de autoalienação, favorecendo uma reaproximação gradual da dimensão instintiva da psique. Trata-se menos de romper com o laço social e mais de reinscrevê-lo a partir de uma ética do cuidado consigo.

Muitos sujeitos passam anos se entortando para caber nas expectativas do outro, aprendendo a viver com restrições, dores e perdas de movimento que pouco a pouco se tornam normais.

Há quem atravesse a vida inteira funcionando, produzindo e sendo reconhecido, mas vivendo “aleijado” de si: sustentando um modo de existir moldado por exigências externas.

A análise oferece esse intervalo: um espaço onde o corpo e a experiência subjetiva podem voltar a ser escutados, permitindo ao sujeito, pouco a pouco, experimentar outras formas de existir sem precisar se entortar para caber.

Este artigo foi baseado no artigo da aluna Fernanda Rossi, originalmente apresentado sob o título:
“O terno que não serve: até onde nos entortamos para caber”. Fernanda Rossi é psicanalista, com atuação clínica no acompanhamento de pacientes em sofrimento psíquico, incluindo quadros depressivos, neuróticos e experiências de perda e luto. Desenvolve trabalhos que articulam psicanálise, corpo e dança-terapia, em atendimentos individuais e grupos terapêuticos – [email protected].

2 thoughts on “O terno que não serve: nossa adaptação para caber

  1. Elias Hachem Kerbage disse:

    Sou fã dos artigos publicados e tenho aprendido muito com eles. Gostaria de parabenizar pela iniciativa e continuar recebendo mais conteúdos

    1. Redação Psicanálise Clínica disse:

      Olá Elias, agradecemos seu comentário em nosso artigo.

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