Psicanálise Cura

Psicanálise Cura? Mitos e verdades

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O tratamento por meio da psicanálise cura? Qual é o conceito de cura e quem pode dizer que o paciente está curado? Vamos juntos refletir sobre estes temas em prática psicanalítica?

De onde vem a palavra Cura?

Na psicanálise, a palavra Cura é utilizada somente em um contexto teórico, justamente porque Sigmund Freud, conhecido como o Pai da Psicanálise, era médico de formação, sendo que muito do seu jargão profissional transposto para a Psicanálise veio da área médica.

A etimologia da palavra cura é de origem latina e curare significa “cuidar”, “olhar por”. Na área medica, seu significado é de “tratamento”, como ferramentas para reobtenção da saúde perdida.

Existe entretanto, na Psicanálise, dificuldades com relação á utilização da palavra e do significante “cura” uma vez que, quanto à função prática da psicanálise, nos indagamos se seu objetivo ultimo é curar, ou com mais propriedade, nos apropriaríamos da palavra transformar?

Cura na Medicina Tradicional X Cura em Psicanálise

Se a Medicina Tradicional busca extirpar o sofrimento, a Psicanálise trilha o caminho da busca por um ponto de equilíbrio suportável para o sofrimento psíquico.

Podemos examinar a questão partindo de dois pontos: de uma lado, a diferenciação entre o que seria considerado normal ou patológico, e portanto, a sugestão de um modelo médico, todavia inadequado para descrever a psicanálise ou, por outro lado, enfocando a busca por extirpar um sintoma e dessa forma, “livrar” o paciente de seu sofrimento.

Desaparecer com um sofrimento psicológico através de terapias medicamentosas ou outras invasivas que são território integrante da Medicina Tradicional, não são nem de longe uma possibilidade para a psicanálise. Isso posto, poderíamos dizer que o objetivo ultimo da Psicanálise não seria curar, embora a cura possa acontecer no decorrer do processo analítico, mas sim transformar.

Poderíamos ilustrar esse ponto com um pensamento de Freud que diz que a Psicanálise poderia transformar no individuo “a miséria da neurose em miséria do mundo”.

A ideologia da Felicidade

A sociedade contemporânea é fixada na ideia de Felicidade e dessa forma, busca-se por ela a qualquer preço, como se fosse o objetivo máximo da vida, numa idealização de vida feliz e sem sofrimento.

No entanto, a felicidade, ainda que alcançada, não se sustenta como condição interna do individuo por muito tempo.

Trata-se de um sentimento momentâneo, e ainda que sua duração seja incerta, podendo estender-se por segundos, horas ou dias, inevitavelmente, em algum momento, o ser humano regressa a um estado diferente ao da Felicidade.

As demandas trazidas ao consultório de psicanálise buscam por uma solução, por uma cura.

No entanto, é irreal a ideia da possibilidade de extirpar a fonte de sofrimento, e mais ainda, cessar em definitivo as origens do sofrimento, de forma que o paciente não sofra nunca mais. A psicanálise não se arroga essa pretensão.

O que move o Ser Humano?

O homem é movido por suas pulsões, e, grosso modo, pulsões são desejos.

Schopenhauer diz que os desejos apresentam duas maneiras de nos humilhar, de nos fazer sofrer.

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    • Uma é pela não satisfação do desejo,
    • outra é pela satisfação do desejo, o que nos levará, quase que automaticamente, ao próximo desejo, e assim sucessivamente.
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    Coloca-se assim, um paradoxo à felicidade advinda dos desejos, sejam eles satisfeitos ou não. A psicanálise se proporia a transformar, a modificar a maneira como o paciente se sente frente a algo determinado, de forma a construir uma certa resiliência que lhe propiciaria uma melhor forma de estar no mundo como ele é, repleto de desventuras.

    A doença orgânica x doença psicológica

    Michel Foucalt em seu artigo A Casa dos Loucos, discorre sobre a prática da psiquiatria no século XVIII (entre 1860-1890) e aponta que as técnicas da sugestão e hipnose cabiam muito bem nessa época, porque se buscava arduamente a diferenciação entre a doença orgânica e a doença psicológica.

    Foi necessário algum esforço para delinear a diferença da ordem da etiologia das doenças orgânicas e psicológicas, de forma a delimitar um espaço onde os pacientes acometidos por doenças de ordem psicológica pudessem ser assistidos por terapias mais condizentes com a condição que apresentavam.

    Com o crescente interesse de Sigmund Freud pelas ideias de Charcot, foi possível o inicio de novas formas de tratamento à doenças que até então, eram necessariamente tratadas em hospitais psiquiátricos.

    Pela sistematização da Psicanálise, desenhou-se um novo modelo possível de assistência às doenças psicológicas onde a supressão dos sintomas não se pautava na busca pelo retorno ao estágio antecedente onde eles não existiam, mas por uma perspectiva completamente nova frente à um antigo fato, evento ou trauma.

    Freud e a Cura pela Psicanálise

    No tocante à cura, Freud em seus escritos intitulados Recordar, Repetir e Elaborar de 1914, sintetiza o que se faz na análise, e diz que o ato de lembrar-se, recordar-se, rememorar, retornar a origem, numa espécie de arqueologia dos sentidos, é uma forma de evitar que continuemos a repetir, por falta de consciência dos fatos, atos que não nos propiciem boas experiências.

    Seria o equivalente a uma solução, uma cura para a repetição indesejada. No livro A Eficácia da Cura em Psicanálise, do Professor e Psicanalista Daniel Omar Perez, lemos que, diferentemente da cura na medicina – que busca reintegrar o sujeito a uma condição anterior onde havia saúde – a cura na psicanálise busca um estado novo que jamais existiu.

    Nesse sentido, poderíamos afirmar que a cura psicanalítica busca libertar o sujeito de sua compulsão a repetição.

    Afinal, a Psicanálise cura?

    De qualquer forma é preciso ter claro que existe uma parcela do sofrimento humano que não é passível de ser extirpada de maneira definitiva.

    Portanto, a cura na psicanálise não seria um objetivo estanque, porque, conforme ocorram as transformações do sujeito e seus conflitos trabalhados na analise individual psicanalítica, novos conflitos surgirão e ressurgirão.

    Em conclusão, percebemos que grande parte da literatura psicanalítica que faz referência a palavra “cura” como objetivo último de extirpação de sintomas, lança mão de uma certa ambiguidade e jamais afirma que a psicanálise cura, mas sim, que transforma, se levada a cabo de maneira completa e satisfatória. Sintoma, na psicanálise, é secundário e portanto, sua cura relativizada.

    O trajeto terapêutico ampara o paciente em reconhecer, assumir e conviver com os sintomas e a isso sim, poderíamos chamar de uma espécie de “cura” em psicanálise.

    Este conteúdo sobre Psicanálise Cura? foi escrito por Milena Morvillo ([email protected]), formanda em Psicanálise Clínica pelo IBPC, especialista em Acupuntura pela ABA, especializada em Língua Inglesa e Traduções pela UNAERP e Artista Visual.

     

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