Livro Psicopatologia da Vida Cotidiana, de Freud

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O estudo da psicopatologia nada mais é que a análise das doenças mentais ou psíquicas. Como vimos, existem para a psicanálise três estruturas psicopatológicas, a Neurose, a Psicose e a Perversão.

Quando Freud escreve o livro Psicopatologia da vida cotidiana seu principal interesse não é a análise das estruturas psicopatológicas. Seu interesse é, antes, demonstrar como o inconsciente se expressa no cotidiano. Sua intenção, ainda, é demonstrar que a psicanálise não se limita ao estudo da anormalidade. Ela se dedica também a descrever e compreender o funcionamento da mente humana como um todo.

O inconsciente se expressaria, segundo Freud, de três formas. Isso pode se dar através dos sonhos, através dos sintomas psicopatológicos ou no cotidiano. Em sua expressão cotidiana, na qual Freud foca nessa obra, o inconsciente pode ser percebido por meio dos atos falhos.

Existiriam algumas formas identificáveis de atos falhos. Elas seriam o erro na fala, o erro na escrita, o erro na leitura e o erro dos atos (quando você tropeça ou derruba algo). Mas eles se enquadrariam em três tipos basicamente, os da linguagem, o dos atos e os de esquecimento.

O conceito de ato falho designa, basicamente, atos que acontecem a partir da firmação de um compromisso entre o inconsciente e o consciente. O ato falho, então, pode ser considerado uma forma de realização dos desejos do inconsciente e do consciente conjuntamente.

Através da atividade psicanalítica Freud pode constatar que eventos do dia a dia tinham mais significado do que imaginávamos. Determinadas escolhas de palavras, esquecimentos, troca de palavras ou acidentes não seriam aleatórios. Nem desprovidos de significado. Esses equívocos cotidianos, os atos falhos, seriam formas de expressão do inconsciente.

Como já vimos, o inconsciente representa a maior e mais importante parte do nosso aparelho psíquico. O conteúdo nele armazenado não nos é acessível por meio da razão. Nesse nível mental estariam os nossos medos, nossos traumas e dores. Tudo aquilo sobre o que não queremos pensar para não sofrer. Estão lá também alguns desejos inconscientes que não poderiam ser satisfeitos sem desrespeitar nenhuma norma moral da sociedade. Esses conteúdos sublimados estão inacessíveis à nossa consciência, mas existem dentro da psique e exercem sua influência.

Os atos falhos seriam então uma forma de realizar esses desejos negados. Através deles, esses desejos intencionais podem vestir a fantasia de um acidente fortuito. Enquanto acidentes, podem se expressar sem causar problemas ao indivíduo.

EXEMPLO DE ATO FALHO

Um exemplo bastante simples, utilizado por Freud no livro Psicopatologia da Vida Cotidiana, é o da conversa entre uma moça e um senhor. Durante a conversa, o senhor falava sobre como a cidade de Berlim estava bonita, graças aos preparativos para a Páscoa. Ele disse então: “viu a loja Wertheim? Está toda decotada, oh, quis dizer decorada!”. Para Freud, esse pequeno equívoco não é aleatório. Sob a aparência de acidente, o que observamos é uma expressão inconsciente. Nesse caso, seria a interferência de pensamentos inconscientes do senhor quanto ao decote da moça. O senhor sabia que aquele seu pensamento não deveria ser expressado e o suprimiu. Ele, no entanto, rompeu a barreira do consciente e se impôs.

TRÊS TIPOS DE ATOS FALHOS

Já mencionamos acima que para Freud existiriam três tipos de atos falhos. Os três tipos são explicados e exemplificados no livro Psicopatologia da Vida Cotidiana. Eles seriam de linguagem (fala, escrita e leitura); de esquecimento e de comportamento (cair, derrubar ou quebrar algo). Vejamos agora uma explicação mais detalhada de cada um deles, além de alguns exemplos.

Atos Falhos na Linguagem

Esse tipo de ato falho é provavelmente o mais conhecido. Vocês, assim como eu, com certeza já cometeram vários.

Quando lemos uma palavra diferente da que está escrita, ou trocamos palavras durante uma conversa, muito provavelmente estamos cometendo um ato falho. É claro que algumas vezes podem acontecer erros que não foram provocados pela força do inconsciente. Segundo Freud, no entanto, esses casos seriam minoria.

Atos Falhos de Esquecimento

Um dos exemplos mais simples, e que já aconteceu com todos nós, é o da ligação. Sabe quando a gente garante que vai ligar para alguém, mas esquece? Bom, esse esquecimento pode resultar do fato de que uma parte de nós não queria mesmo realizar a ligação.

Nesse sentido, o ato falho é um erro, mas é também um acerto do “ponto de vista” do inconsciente que, através dele, tem seu desejo realizado.

Atos Falhos no Comportamento

Os atos falhos de comportamento são muitas vezes chamados de “equívocos de ação” por conta da tradução para o português. Eles são perturbações da coordenação motora que, quando analisadas, nos levam a um compromisso firmado entre o inconsciente e o consciente.

O exemplo mais interessante que encontrei quanto a esse tipo de ato falho, além daqueles dados pelo próprio Freud, é o do “sem querer, querendo”.

Quando Chaves, personagem da série mexicana homônima, bate no Senhor Barriga, sempre alega ter feito “sem querer, querendo”. Com a frase, ele pretende indicar que foi um acidente. Mas esses acidentes que constantemente se repetem podem ser atos falhos. Por um lado (o lado consciente), pode ser que o Chaves realmente não quisesse acertar Seu Barriga. Por outro lado (inconsciente), pode ser que o órfão desejasse acertar o dono da vila.

Ou seja, todas as pancadas acertadas no homem não eram conscientemente planejadas pelo garoto. No entanto, o fato de mesmo assim este sempre acertar aquele revelaria um desejo inconsciente.

CONCLUSÃO

Podemos concluir, portanto, que no livro Psicopatologia da Vida Cotidiana o que Freud visa é tratar das expressões inconscientes ocorridas no cotidiano. O autor, para isso, nos oferece uma completa explicação do que seriam os atos falhos. Além disso, demonstra nesse livro que a psicanálise não trata apenas dos distúrbios, mas é um ferramente de análise a mente humana de forma geral.

(Créditos da imagem original: apsicanalise.com)

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