Sigmund Freud foi um pesquisador notável no que tange o conhecimento da mente humana,trazendo à tona ideias complexas a respeito dos elementos que permeiam a vida humana. Nota-se que boa parte de suas ideias desafiam o senso comum, fazendo com que deixemos de lado os caminhos mais fáceis de compreender o ser humano. A propósito, vamos entender melhor sobre a pulsão de vida e pulsão de morte.
A ideia de pulsão
Na teoria de Freud, pulsão designa a representação psíquica de estímulos originados no organismo e chegam até a mente. É como se fosse um impulso energético agindo internamente, de modo que conduz e molda as nossas ações. O comportamento resultante se diferencia do gerado por decisões, já que este é interno e inconsciente.
Ao contrário do que é popularmente divulgado, a pulsão não designa necessariamente equivalência ao instinto. Mais ainda na obra freudiana, onde existem dois termos específicos para trabalhar o seu significado. Enquanto Instinkt mostra um comportamento animal hereditário, Trieb trabalha o sentido de pulsão caminhando sobre a pressão irrefreável.
Na obra de Freud, o trabalho com as pulsões era visto com dualidade, tanto que se dividia em várias vertentes. Ao longo do tempo a premissa inicial foi se modificando, gerando uma nova roupagem à teoria. Com isso, surge o duelo entre a pulsão de vida, Eros e a pulsão de morte, Thanatos.
Diferenciando pulsão de vida e pulsão de morte: Eros e Tânatos
Assim, no campo de saber sobre o que é psicanálise, a pulsão é uma ideia que se relaciona a uma força interna essencialmente inconsciente que impele o comportamento humano para determinadas finalidades. Duas pulsões básicas se destacam na teoria psicanalítica:
- A pulsão de vida: conhecida também como Eros (o deus grego do Amor, equivalente em certa medida ao Cupido dos romanos). A pulsão de vida é a pulsão pelo acontecimento e pela resistência (no sentido “físico”, que Freud se apropriou), seria o “um”, o “existir”. Este é o “um” (em oposição ao “zero” da pulsão de morte). Quando contamos uma novidade, quando queremos criar algo ou participar de um evento (por exemplo), quando cuidamos de nossa saúde e nos preocupamos com uma dor, é a face da pulsão de vida que tende a estar presente.
A pulsão de vida é a tendência do organismo humano para buscar a satisfação, a sobrevivência, a perpetuação. Em certo sentido, é às vezes lembrada como uma movimento em direção de novidades e acontecimentos. Relaciona-se ao desejo sexual, ao amor, à criatividade e ao desenvolvimento individual e coletivo. Enquanto vivemos, estamos sujeitos a dores e incômodos, além, obviamente, do prazer. A pulsão de vida relaciona-se a uma busca por prazer, alegria, felicidade, mas também a resistir à inexistência.
- A pulsão de morte: conhecida também como Tânatos (na mitologia grega, a personificação da morte). A pulsão de morte é a pulsão pelo não acontecimento, é o “zero”, o desejo de “ficar quieto”. É neste sentido que não podemos pensar a pulsão de morte como algo meramente negativo, pois a vivenciamos o tempo inteiro. Também quando nos indignamos com uma atitude ou opinião de alguém: a sanha “bárbara” seria aniquilar esta pessoa ou pensamento (impulso à destruição), mas ao mesmo tempo há o superego da “civilização” ou “cultura” que nos penalizaria moral ou criminalmente se este impulso fosse levado a cabo. Freud teria dito, após despertar-se de um desmaio: “Como deve ser doce morrer!”. Esta fala é um funcionamento da pulsão de morte. A inexistência de dor ou de surpresas seria uma forma de entender como a pulsão de morte caminha lado a lado com a pulsão de vida.
A pulsão de morte é a tendência do organismo humano para buscar destruir, desaparecer ou aniquilar (a si ou a outra pessoa ou coisa). É uma tendência ao “zero”, a romper com resistências, romper com o exercício físico de existir. Esta pulsão impele o comportamento agressivo, as perversões (como o sadismo e o masoquismo e a autodestruição, mas também impele a um instinto de preservação, em que reduzir acontecimentos implicaria em reduzir riscos.
Para Freud, essas pulsões de vida e de morte, de Eros e Tânatos, não são totalmente excludentes. Vivem numa tensão e, ao mesmo tempo, numa dinâmica de equilíbrio. A saúde mental de um sujeito depende em grande medida dessas duas pulsões.
Por exemplo, a pulsão de morte não é sempre negativa: pode suscitar alguma dose de agressividade para mudança de determinadas situações.
Vejamos mais detalhes e exemplos dessas duas pulsões.
Pulsão de vida
A pulsão de vida dentro da Psicanálise fala a respeito da conservação de unidades e dessa tendência. Basicamente, se trata de preservar a vida e existência de um organismo vivo. Assim, se cria movimentos e mecanismos que ajudem a mover alguém em escolhas que priorizem sua segurança.
A partir daí se alimenta uma ideia de ligamento, de modo que se possa juntar partes menores para formar unidades maiores. Além de formar essas estruturas maiores, o trabalho também é fazer a conservação delas. Para exemplificar, pense em células que encontram condições favoráveis, se multiplicando e criando um novo corpo.
Em suma, a pulsão de vida almeja estabelecer e manusear formas de organização que ajudem a proteger a vida. Trata-se de ser constante positivamente, de modo que um ser vivo se direcione à preservação.
Exemplos de pulsão de vida
Há diversos exemplos corriqueiros que podem estabelecer um conceito prático da pulsão de vida. A todo o momento, estamos procurando uma forma de sobreviver, crescer e fazer mais em nossas ações e pensamentos. isso fica bastante simplificado quando observamos:
Sobrevivência
A princípio, todos nós mantemos uma rotina de nos alimentarmos sempre que o corpo exigir ou mesmo sem necessidade aparente. O ato de comer indica o fornecimento de subsistência para que possamos continuar vivos. É algo instintivo, de modo que o corpo e a mente entrem em declínio caso não seja atendido.
Multiplicação/ propagação
O ato de produzir, multiplicar e fazer acontecer é um direcionamento direto para levar a vida. Precisamos fazer crescer em nossa realidade recursos e atividades importantes para a manutenção geral da humanidade. São exemplos o ato de trabalhar para ser remunerado, se exercitar para ter saúde, ensinar para espalhar conhecimento, entre outros.
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Sexo
O sexo se mostra como a união de corpos a fim de se unirem momentaneamente. Indo mais além, também pode dar a origem para uma nova vida, multiplicando e dando origem a uma nova existência. Nisso, além das pessoas envolvidas, o sexo pode dar início a um processo de criação, perpetuando a vida.
Pulsão de morte
A pulsão de morte indica a redução por completo das atividades de um ser vivo. É como se a tensão se reduzisse ao ponto de que uma criatura viva atinja o estado de inanimamento e inorgânico. A meta é fazer o caminho inverso ao crescimento, nos levando à nossa forma mais primitiva de existência.
Em seus estudos, Freud abraçou o termo utilizado pela psicanalista Bárbara Low, o “Princípio de Nirvana“. De forma simples, esse princípio trabalha a redução exponencial de qualquer excitação presente em um indivíduo. No budismo, o Nirvana conceitualiza “a extinção do desejo humano”, de maneira que alcancemos a quietude e felicidade perfeita.
A pulsão por morte mostra caminhos para que um ser vivo caminhe em direção ao seu fim sem interferência externa. Dessa maneira, retorna ao seu estágio inorgânico do seu próprio modo. De forma poeticamente fúnebre, o que sobra é o desejo de cada um morrer ao seu próprio modo.
Exemplos de pulsão de morte
A pulsão de morte pode ser encontrada em diversos aspectos de nossas vidas, mesmo naqueles mais simples. Isso porque a destruição em suas formas faz parte de tudo que é ligado à vida e precisa de um fim. Por exemplo, vemos isso nos âmbitos destacados a seguir:
Alimentação
A alimentação, obviamente, pode ser vista com um impulso direcionado à vida, já que faz a nossa manutenção existencial. Contudo, para que isso ocorra, precisamos destruir o alimento e somente então se alimentar dele. Existe aí um elemento agressivo, se contrapondo ao primeiro impulso e tornando-se contraparte dele.
Suicídio
Acabar com a própria vida é um sinal claro de retorno para a não existência do ser humano. De forma consciente ou não, alguns indivíduos conseguem contrapor seu impulso de vida e encerrar os seus ciclos. Como dito linhas acima, cada um escolhe o modo de terminar com sua própria vida.
A saudade
Relembrar o passado pode ser um exercício doloroso para quem não abriu mão de algo ou alguém. Sem perceber de início, o indivíduo está se machucando, procurando inconscientemente uma forma de sofrer. Por exemplo, uma criança busca a foto da mãe falecida para lembrá-la, mas vai sofrer com a ausência da mesma.
O meio em que vivemos define a nossa jornada construtiva e destrutiva
Quando se fala em pulsão de vida e pulsão de morte é bastante comum se deixar de lado o ambiente em que crescemos. Através dele é que construímos uma identidade pessoal que nos distingue dos demais. Sem contar que isso também significa a construção da pluralidade cultural, de modo que encontremos elementos que façam nossa construção.
De acordo com a Psicanálise, é a implicação do inconsciente que acaba por dividir um indivíduo de sua identidade própria do mundo. Ou seja, nossa parte interna estipula um limite de onde terminamos e onde o mundo externo começa. Com isso, se pode levantar o questionamento de qual força, interna ou externa, iniciou a ação.
Por causa disso que a Psicanálise trabalha a respeito dos sintomas que a nova realidade trouxe à tona. Graças à ela, por exemplo, podemos entender melhor os ingredientes da violência nos tempos atuais. Consequentemente, esse entendimento sobre a pulsão de vida e pulsão de morte ajudará a compreender o inconsciente e a satisfação pulsional.
Equilíbrio e sobreposição
A pulsão de vida e a pulsão de morte, além de outras, trabalham em oposição uma com a outra. Quando essas forças destrutivas são direcionadas para fora, uma das pulsões expeliu agressivamente essa instância. Nisso, o organismo de alguém pode se manter protegido ou mesmo liberar comportamentos agressivos para si e aos outros.
No entanto, no momento em que uma posição subjuga a outra, se inicia a ação, já que não há equilíbrio. Por exemplo, quando o suicídio acontece, a pulsão de morte acabou por prevalecer sobre a pulsão de vida.
Considerações finais sobre pulsão de vida e pulsão de morte
A pulsão de vida e a pulsão de morte designam movimentam naturais para o limiar da existência. Enquanto a outra se inclina à preservação, a outra faz o caminho oposto, de modo a erradicar uma existência. A todo o momento cada uma dá sinais de assumir o controle, desde ações mais simples ou eventos determinantes.
O meio em que vivemos colabora diretamente para a expansão de cada uma dessas instâncias, de maneira que virem reflexos. A exemplo, um depressivo sem qualquer perspectiva de vida pode achar que encontrou o seu caminho por meio do suicídio. Ao mesmo tempo em que construímos nossa identidade pessoal, lidamos com nossa imagem coletivamente.
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13 thoughts on “Pulsão de vida e pulsão de morte”
Esse artigo ajuda bastante a gente compreender como esses conceitos de pulsão de mote e pulsão são fundamentais para compreender a dinâmica psíquica. Muito bom. Obrigado.
Muito esclarecedor. Me fez refletir muitas coisas pessoais.
Excelente essa descoberta. Então essas forças ambivalentes nos acompanham do nascimento até a morte. Conclui que maioria das pessoas prefere a velhice como opção para alcançar a morte.
Gostaria quem foi o autor desse artigo
Uma vez que compreendamos como estes conceitos esclarecem o que ocorre em nossa psique, poderemos atuar melhor de forma curativo destes conteudos
Penso em Bolsonaro, se não tem problemas/conflitos com Pulsão de Morte,
Eu pensei exatamente ao contrário. Quanto que Lula e seu alto grau de destruição de tudo vive a pulsão de morte.
Penso na vida humana, devemos atuar na vida de forma curativa, mas analisando o seu relato, não tem como não pensar em Lula, o mesmo se auto deprecia, através das bebidas, mal caratismo, traições sentimentais e se apropriação do que não lhe pertence, inclusive, seu mecanismo de defesa é a mentira, esses sentimentos e atitudes são destrutivos a qualquer um, deve ter tido uma infância difícil e permissiva à mal conduta, e levou para a sua personalidade.
Ele vive em pulsão de morte, triste realidade, precisaria de terapia continua, pois são muitos atos falhos em seus dizeres e comportamentos.
Olha, com todo respeito, seu comentário demonstra uma completa desconexão com a teoria apresentada no blog. Nem mesmo sob a interpretação mais superficial da teoria das pulsões em Freud seria possível justificar suas colocações…
Durante os governos do presidente Lula, houve redução significativa da fome (o que fez com que o Brasil saísse duas vezes do Mapa da Fome da ONU). Houve também uma expressiva queda nos índices de desemprego e um notável aumento no número de pessoas que ascenderam à chamada “classe média”, indicando, portanto, um crescimento da renda média da população. Esses são dados concretos! Basta você fazer um Google. Além disso, diversos programas sociais implementados durante os governos Lula, como o Bolsa Família, proporcionaram condições mínimas de subsistência a milhões de brasileiros. Tais programas garantiram acesso à alimentação, incentivaram a permanência das crianças na escola e possibilitaram, por exemplo, o acesso ao ensino superior através de iniciativas como o ProUni. O programa Pé de Meia, mais recente, também tem papel fundamental na permanência de estudantes de baixa renda nas escolas, evitando a evasão por necessidade de trabalho.
Em que ordem lógica ou teórica seria possível afirmar que isso representa a pulsão de morte, e não justamente a pulsão de vida? Tudo isso, ao meu ver, aponta para a preservação, para o cuidado com a existência e com o futuro da população brasileira. Só pode ser pulsão de morte a interpretação de pessoas perversas que veem a dignidade de vida de outras como uma ameaça à manutenção do seu status quo. Afinal, só existem pessoas socialmente acima porque há quem se possa dizer que está embaixo.
Insinuar que Lula encarna uma tendência de sobreposição da pulsão de morte é um enorme equívoco e revela, no mínimo, desconhecimento/desfiguração conceitual. Ele foi eleito três vezes democraticamente e é o político mais votado da história do Brasil. Se a pulsão de morte estivesse em jogo, isso significaria estendê-la também aos seus eleitores, não? Você realmente acredita que existam tantos brasileiros com essa sobreposição tão latente, a ponto de elegê-lo três vezes? É preciso usar a consciência crítica, às vezes.
A associação com a pulsão de morte poderia, no entanto, ser feita com maior propriedade ao governo Bolsonaro, que promoveu o uso de tratamentos sem eficácia comprovada, desprezou o conhecimento científico e incentivou o não uso da vacina (uma ferramenta SECULAR de saúde pública mundialmente reconhecida). O resultado dessa necropolítica negacionista foram mais de 700 MIL MORTES por COVID-19. O Brasil está entre os países com MAIOR número de óbitos, mesmo com uma população muito inferior à de países como a China! Você sabia que a população da China é aproximadamente 636% MAIOR do que a do Brasil? Pois é! Mesmo assim, MAIS pessoas MORRERAM de Covid no Brasil do que na China! Isso sim pode ser a expressão mais clara e latente possível de pulsão de morte, de um rompimento com a preservação da vida de si e dos OUTROS.
Dito isso, ainda me surpreende que pessoas com seu nível de leitura e interpretação tenham interesse pela psicanálise. Mas compreendo: toda área do saber está sujeita a ser mal interpretada por quem não possui a formação adequada para compreendê-la. Esse é um dos efeitos de um país ainda assolado pelo analfabetismo funcional. Casos como esse são preocupantes. Olha, já li alguns artigos sobre dissonância cognitiva no Brasil pós-Bolsonaro, mas sempre fica aquele sentimento de: “Não, talvez estejam exagerando”. Porém, de fato, não é mais raro encontrar indivíduos que negam a realidade factual, aderindo a distorções graves da verdade… Mas envolver até o coitado do Freud, que morreu há tanto tempo e nem pode se defender, para distorcer suas teorias e usá-las para apoiar ideias tão delirantes e enviesadas é novo.
Você tentou aplicar uma análise baseada em “atos falhos” para criticar Lula, mas não consegue sequer compreender dados tão substanciais? Só quem vive em uma caverna não conhece esses dados, ou ao menos não tem noção da proporção de alguns, como o número de mortes na pandemia, né? Interpretar corretamente é um exercício mais complexo, mas ao menos compreender o básico deveria ser esperado.
Faço da sua recomendação a minha: terapia continua. Talvez, com acompanhamento contínuo, você consiga reorganizar sua percepção da realidade.
parabéns pelo conteúdo; objetivo, simples. Estava estudando devagar mesmo.
Obgda!
Nada de pressa! Assim como a vida começa ,ela também tem um fim. Muito bom texto, parabéns!
Esclarecedor, posso escolher a vida ou a morte, as duas não pode andar juntas.
0 entender das pulsações de vida nos traz o sentido da morte. Devemos gloriar pelos sentidos de que temos dentro de princípio de vida.