Freud mostrava-se pessimista quanto à psicanálise na terceira idade, estudos atuais demonstram que a psicanálise é benéfica aos idosos.

Terceira idade: um olhar psicanalítico

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Freud em seu trabalho “Sobre a Psicoterapia” de 1905, mostra-se pessimista e até um pouco preconceituoso, quanto a psicanálise voltada para pessoas idosas.

Foi estabelecido a importância da idade do paciente para o bom aproveitamento do processo de análise.

Para o pai da psicanálise pessoas com mais de 50 anos possuíam pouca elasticidade mental diminuindo sua capacidade de beneficiar-se de uma análise.

No entanto, precisamos contextualizar historicamente as afirmações de Freud, era o início da psicanálise, cujos métodos ainda estavam em desenvolvimento e em fase de ajustes.

Velhice ao longo do tempo

Na época era pequeno o número de pessoas que chegavam a velhice, por outro lado, o conceito de indivíduo idoso também era outro.

Devido ao menor tempo de vida, que se tinha em média, uma pessoa de 50 anos era considerada idosa, pois a ciência e a medicina ainda não estavam suficientemente evoluídas.

Para garantirem à população uma maior expectativa de vida, as pessoas morriam cedo, ou de doenças, ou pelas guerras, que ceifavam muitas vidas.

Apesar dessa afirmação de Freud a respeito da idade dos pacientes, não podemos deixar de citar temas significativos, tratados por Freud, que lançam visão sobre o envelhecimento.

O processo de envelhecimento

Em sua obra “Luto e Melancolia”, publicada em 1917, ajuda-nos a compreender o que é comum.

E também o que se diferencia em cada um desses sentimentos das perdas vivenciadas no processo do envelhecimento.

As perdas de pessoas queridas e perdas de si mesmo, como a juventude, o vigor físico, a beleza, o trabalho, entre outras coisas.

Em “O Mal-Estar na Civilização” de 1930, onde aprofunda aspectos da origem da infelicidade e conflitos entre indivíduos e sociedade.

Com suas configurações distintas na vida entre os povos chamados civilizados, nos leva a reflexão sobre a situação dos idosos em uma sociedade onde já não são mais considerados produtivos e muitas vezes relegados ao abandono.

Um outro fato relevante é a própria velhice de Freud.

Seus anos mais maduros foram os que ele mais e melhor produziu.

Ele também sofreu perdas e vivenciou o luto, lutou muitos anos contra um câncer e submeteu-se a várias cirurgias.

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No entanto, sua mente continuou dinâmica e produtiva.

Provou que a mente humana, desde que saudável, não perde a capacidade de criar, não sofrendo o mesmo processo de envelhecimento do corpo.

A longevidade na terceira idade

Levemos em conta, que se o envelhecimento é inerente a vida do ser humano, o fenômeno da longevidade é algo novo.

Nunca na história da humanidade, se alcançou idades tão avançadas em parcela tão significativa da população.

Uma sociedade tão rápida em suas mudanças científicas e tecnológicas também encontra dificuldades em lidar com a longevidade de seus membros e com suas necessidades.

Quando falamos de psicanálise, falamos do ato de escutar indivíduos.

Onde expõem suas angústias e inibições e que apresentam respostas sintomáticas diante da vida real.

Jovens e idosos são indivíduos que precisam ser ouvidos e compreendidos.

A preocupação da terceira idade no setting

O que vai divergir no discurso de uma pessoa mais velha são suas dores e os problemas que a terceira idade traz, sejam físicos ou sociais.

É o conhecimento sobre questões sociais, como aposentadoria, afastamento da vida profissional, diminuição na renda financeira ou institucionalização, sobre questões emocionais como luto e afastamento da família.

Também há o enfrentamento de preconceito, dificuldades em lidar com um mundo tecnológico.

As questões de saúde como a menopausa, a perda da libido, as doenças e limitações físicas, que farão a diferença na escuta e elaboração analítica do psicanalista.

Freud nos revelou um inconsciente isento da lei do tempo cronológico.

Esse inconsciente é fundamentado através de fatos significativos e que vêm geralmente através da intervenção de um Outro na realidade do indivíduo.

O molde da infância

As marcas inscritas no inconsciente vêm na sua maioria da fase da infância.

Essas marcas não se perdem, vão se reinscrevendo e se atualizando, conforme a movimentação psíquica do sujeito, funcionam como um polo de atração para outros traços, que vão de agrupando aos primeiros.

Sendo assim, mesmo que o corpo apresente as marcas do tempo, o que se inscreve e se apresenta, são aqueles mesmos traços de sua constituição inicial.

Podendo-se dizer, que o indivíduo é o mesmo, que não se tornou outro porque envelheceu.

Alguns estudos realizados com idosos, mostram esse inconsciente incessante e atemporal.

A capacidade de elaboração dos processos do envelhecimento, como os responsáveis por uma compreensão e identificação de alternativas consistentes para essa fase da vida, capaz de atribuir-lhe uma ressignificação.

É importante a percepção de que a velhice ou terceira idade, não é feita somente de perdas, mas também de aquisições.

É certo de que a capacidade de superar dificuldades não se adquire somente por se estar mais velho.

E sim através da experiência em superações no decorrer da vida.

Auxilia a não se ficar estacionado em um lugar próximo ao fim, à espera da morte e, continuar vivo, sentindo-se vivo e ativo, capaz de fazer novas opções.

O idoso como indivíduo

Lembremos, no entanto, que o conceito de indivíduo idoso ou velho também não era o mesmo que conhecemos hoje, uma vez que a idade média de vida do ser humano era bem menor.

Além disso, envelhecer era um privilégio dos ricos, o conceito de velho pobre surgiu somente com a revolução industrial.

Em uma sociedade narcísica e globalizada dentro dos padrões americanos como a que vivemos, a beleza, o vigor físico e o poder fálico são muito valorizados, colocando, dessa forma, os idosos a margem.

Em contrapartida, para uma sociedade capitalista e de consumo, não passa desapercebido o aumento da população mais velha, em relação aos mais jovens.

Produtos destinados a faixa etária 60+ surgem no mercado, buscando o consumo dessa população.

Produtos e serviços relacionados a saúde, beleza, estética, vestuário, entre outros visando o retardamento do envelhecimento, surgem com frequência.

Diante desse cenário resta ao idoso a tentativa de apegar-se ao que não se globaliza.

Ou seja, a sua individualidade, o que o define como um sujeito único, com suas dores, perdas, afetos e conhecimentos e é nisso que a psicanálise pode ajudar.

O olhar psicanalítico na terceira idade

A psicanálise mostrou a forma de se acolher com maior profundidade o ser humano.

A psicanálise é fundamentada na escuta.

Escuta-se pessoas e não jovens, adultos ou idosos.

Também há o que cada um tem a dizer sobre suas dores emocionais e seus conflitos internos e externos e as respostas emocionais que dão a realidade da vida.

Conhecimento sobre o contexto social que vem a causar sofrimento nos idosos, ajuda o psicanalista em sua análise.

Apesar do pessimismo de Freud quanto ao aproveitamento das pessoas mais velhas a análise, alguns autores revelam em seus estudos que a psicanálise pode ajudar as pessoas a trabalhar seus conflitos na terceira idade com sucesso.

Descrevem como os idosos apresentaram suficiente condição interna e flexibilidade emocional para aproveitarem o processo psicanalítico ou psicoterápico e realizarem suas mudanças.

As características de personalidade são mais importantes do que a idade, para que se aproveite as psicoterapias.

Elaboração além do tempo

Freud nos revelou um inconsciente atemporal, isento da lei do tempo cronológico.

O que se inscreve no inconsciente não tem ordem ou tempo.

Colocar acontecimentos, sentimentos e impressões em ordem é trabalho do consciente e não do inconsciente.

Sendo assim, mesmo que o corpo envelheça, o que se inscreve e se apresenta, são aqueles mesmos traços da constituição inicial, podendo-se dizer, que o indivíduo é o mesmo, que não se tornou outro porque envelheceu.

Esse inconsciente incessante e atemporal, juntamente com a capacidade de elaboração do processo de envelhecimento tornam o indivíduo capaz de uma ressignificação de seu momento de vida.

Envelhecer não traz somente perdas, pode trazer ganhos, o principal é a disponibilidade de tempo.

Portanto quem precisou aprender a superação no decorrer da vida, traz em si a capacidade de fazer novas opções a partir da terceira idade se aproveitando totalmente dos benefícios da Psicanálise.

Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Nancy Padial.

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