O meio corporativo é desafiador na vida adulta e a relação mãe e filho é determinante na construção de autoridade no meio profissional.

Do Berço ao Meio Corporativo: Relação materna e vida profissional

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O meio corporativo é desafiador para o indídivuo na vida adulta e a relação mãe e filho é determinante na construção de autoridade no meio profissional.

Melanie Klein revolucionou a psicanálise ao postular que o bebê não é um ser passivo. 

Para ela, a criança possui uma percepção inata da existência da mãe.

Porém,  o que fundamenta essa hipótese? O bebê percebe o outro através do cuidado: o toque, o alimento e conforto térmico.

É nesse campo de visão limitado, mas focado no rosto de quem cuida, cujo qual o Ego começa a ensaiar seus primeiros passos.

O ego precoce e a batalha dos impulsos

Diferente de Freud, que via o Ego como algo que se desenvolveu tardiamente, Melanie Klein defendeu que ele existe e atua desde o nascimento, operando em uma intensa vida de fantasia inconsciente.

Esse Ego primitivo tem a missão vital de proteger o bebê da ansiedade avassaladora gerada pelo mundo externo.

Por seus próprios impulsos destrutivos, buscando preservar o núcleo da personalidade em formação.

Logo, como o bebê é totalmente dependente, qualquer demora no atendimento de suas necessidades é sentida como uma ameaça ao seu equilíbrio interno.

Aqui nascem os mecanismos de introjeção (trazer o bom para dentro).

Como também a projeção (jogar o “ruim” ou a agressividade para fora)

Os processos contínuos que estruturam a forma como o sujeito perceberá a si mesmo e ao outro ao longo de toda a vida.

O amor e o ódio no objeto único

A mãe é, simultaneamente, a fonte de todo prazer e em contrapartida o alvo de toda a frustração.

Ela é amada quando acalenta e odiada quando se retira para atender suas próprias demandas, por exemplo.

Porém, o processo de “amar e odiar” o mesmo objeto é o que inicia a construção do nosso inconsciente e define como lidaremos com a ambivalência emocional na vida adulta.

A pergunta que fica é: quando deixamos de ser essa criança que projeta seus desejos no outro?

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A resposta, muitas vezes, é: nunca totalmente.

Observamos isso claramente no meio corporativo.

É comum vermos colaboradores que depositam em seus gestores uma carga emocional desproporcional.

Visto que o gestor deixa de ser apenas um líder técnico e passa a ocupar o lugar simbólico do “cuidador”.

A transferência no meio corporativo

A busca pelo Holding: Assim como na teoria de Winnicott, o colaborador busca um “ambiente facilitador”.

Ele espera que o gestor ofereça o holding (sustentação), protegendo-o das ansiedades do mercado e validando sua existência.

O Ciclo de Identificação: Quando o gestor falha ou impõe limites, o colaborador pode reviver a agressividade inata da infância, passando do amor à desvalorização extrema.

O processo de compreensão cujo qual nossas reações no meio corporativo podem ser ecos profundos de nossas primeiras relações objetais é, acima de tudo, libertador.

No entanto, essa jornada é marcada por uma complexidade que envolve a estrutura psíquica de cada indivíduo.

Quando olhamos para um sujeito ferido pela ausência da “mãe suficientemente boa” de Winnicott, por exemplo, percebemos que a lacuna deixada por esse cuidado falho reverbera na vida adulta como uma busca incessante por validação e amparo.

Entretanto, no meio corporativo, essa demanda é frequentemente transferida para a figura do gestor.

A maturidade emocional no meio corporativo

Ao reconhecermos, através da análise, que o gestor não é (e nem deve ser) a mãe idealizada que desejamos.

E sim um profissional com suas próprias limitações, vulnerabilidades e competências, damos um passo crucial.

Começamos assim a abandonar a posição de dependência infantilizada para abraçar a autonomia.

Essa transição permite que o colaborador deixe de reagir a partir de suas feridas precoces e passe a responder a partir de sua realidade atual.

Portanto, o autoconhecimento psicanalítico não deve ser restrito ao divã, pois ele se revela uma ferramenta estratégica para as organizações modernas.

Gestores possuem esse entendimento conseguem sustentar uma liderança mais humana e empática, sendo capazes de identificar as projeções de seus liderados sem se deixarem capturar por elas.

Logo, o resultado prático dessa “gestão psicanaliticamente informada” é a criação de um ambiente de holding corporativo mais saudável, o que atenua significativamente os índices de rotatividade e o adoecimento mental no trabalho.

Através da técnica da associação livre e da escuta sensível, no entanto, a psicanálise auxilia o colaborador a dar voz às suas demandas emocionais.

Ao nomear seus sentimentos, o sujeito torna-se consciente de suas próprias projeções, ou seja, transformando o ambiente de trabalho onde antes era um palco de repetições traumáticas em um espaço de produtividade consciente e desenvolvimento mútuo.

Artigo escrito por Cirlei Felipe com exclusividade para o Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.

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