O tempo na psicanálise revela-se como um inconsciente atemporal, onde passado, presente e futuro se fundem em experiência analítica.

Tempo na Psicanálise: fundamentos e o inconsciente atemporal

Publicado em Publicado em Conceitos e Significados

Neste artigo damos início à série “Tempo na Psicanálise”, composta por quatro partes que exploram como a concepção psicanalítica de tempo se diferencia da noção cronológica. A cada parte, analisaremos um aspecto central: os fundamentos teóricos, a ruptura do DSM-III, a crise da psiquiatria e psicologia e, por fim, os novos caminhos na pós-modernidade.

Este artigo de opinião abordará um tema que é muito polêmico e gerou muitos atritos, conflitos e choques dialéticos, que teve sua vertente (origem) na crítica generalizada de vários operadores das ciências ou campo Psi com relação à duração das sessões psicanalíticas e outros argumentos.

Com o foco direcionado na tentativa que não prosperou ainda, de gerar a ideia de que a Psicanálise estaria se tornando defasada, obsoleta, depreciada e fora de compasso temporal com a evolução de novos campos do saber, como a Neurociência.

Vamos demonstrar os vários equívocos e, no fecho, em conclusão, vamos responder à problematização levantada na introdução.

Questão central

Neste primeiro texto, vamos examinar a pergunta: “Ocorreu um equívoco grave no passado quanto à forma como foi percebido o tempo na Psicanálise?”. Para isso, revisitamos o objeto da psicanálise e discutimos como o inconsciente atemporal molda a experiência analítica.

Recapitulando o objeto da Psicanálise

Nosso primeiro passo é compreender e entender bem o que é o tempo sob o ângulo ou enfoque da Psicanálise. Para que ocorra êxito nessa intenção, temos que rememorar qual é o objeto, o sujeito, as ferramentas e o campo de aplicação da Psicanálise.

O sujeito da Psicanálise como ciência é o par analítico, ou seja, o analista e o analisando. Não é conveniente utilizar o termo ‘paciente’ na Psicanálise e nem ‘partilhante’. Partilhante tem sido usado na Filosofia Clínica, e paciente é o termo mais adequado para Medicina, Psiquiatria e Psicologia.

Porque, na Psicanálise, o analista não comanda nem supervisiona o analisando, não indica rumos. O próprio analisando é quem deve achar os caminhos para sair de seu labirinto. Portanto, não é paciente.

Campo, ferramentas e objeto

O campo de aplicação da Psicanálise é todo o tecido social. A Psicanálise não compete com outros campos do saber, senão ela se descaracteriza.

As ferramentas da Psicanálise são as suas teorias que foram construídas ao longo do tempo pelas várias gerações de psicanalistas. E o mais importante: o seu objeto é tão somente o inconsciente.

Não é o ego, não é superego, não é comportamento, não é crise psíquica, surto, nada disso. É tão somente o inconsciente. Esse entendimento levou anos para se firmar.

Entretanto, o inconsciente não é exclusivo da Psicanálise. Outras ciências usam também do inconsciente e, relembrando, a Psicanálise não compete com outros campos do saber justamente por isso, porque o operador da Psicanálise tem em mente que ela não tem o monopólio do inconsciente, porque ele é singular, subjetivo e intersubjetivo.

Vai depender da escola do operador da Psicanálise escolher como poderá acessar o inconsciente de seu analisando. Senão não haverá remissão.

Outro ponto a ser bem destacado: não existe em Psicanálise cura. Existe a remissão. Cura é da Medicina, da Psiquiatria, da Psicologia. A remissão poderá possivelmente ser total. Mas, geralmente, é parcial.

Outro equívoco da Psiquiatria foi acreditar cegamente na cura total dos pacientes de saúde mental usando seus instrumentos.

O tempo na Psicanálise e o inconsciente atemporal

Entendido bem o objeto da Psicanálise, que é o inconsciente (e que não é exclusivo dela), poderemos entender o tempo nessa ciência, porque é um conceito mediado pelo inconsciente.

QUERO INFORMAÇÕES PARA ME INSCREVER NA FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE

Erro: Formulário de contato não encontrado.


Na Psicanálise, o tempo não pode jamais ser compreendido como sequência linear e cronológica, porque ele tem uma outra dimensão, complexa e multifacetada, onde o passado, o presente e o futuro se interligam e vão mutuamente se influenciar numa interface muito forte, uma fusão atemporal.

Tempo cronológico x tempo do inconsciente

Porque o inconsciente opera fora do tempo cronológico, com experiências passadas sendo constantemente revisitadas e atualizadas no presente, gerando comportamentos e sintomas singulares.

Portanto, o inconsciente não tem temporalidade. A Psicanálise é essencialmente atemporal: passado, presente e futuro se misturam, e as experiências traumáticas podem ser revividas no presente, influenciando o comportamento e as emoções.

O inconsciente age por repetições, ou seja, padrões e experiências são características do inconsciente, onde nunca o passado está totalmente encerrado, mas pode emergir e ser atuante e fornecer respostas.

Experiência analítica e transferência

O inconsciente não tem um tempo lógico do relógio, ele é um tempo não lógico. O ser humano é quem tem um relógio no pulso e pode metrificar ou parametrizar eventos e compromissos, menos o seu inconsciente. O inconsciente é totalmente atemporal.

Ele pode se manifestar em qualquer momento do tempo lógico humano, mas ele, o inconsciente, não tem relógio. Isso será bem captado na prática da experiência analítica.

Ele não pode ser balizado por sessões. O inconsciente interage na transferência, ou seja, tem seu tempo de transferência na relação entre analista e analisando, no par, nunca num só.

E ele permite ao analisando reviver experiências passadas e elaborar seus conflitos, com o objetivo de produzir uma mudança subjetiva, porque o inconsciente é atemporal, lugar onde o tempo cronológico não se aplica jamais.

Todas as experiências passadas podem ser revividas no presente e projetadas no futuro. O inconsciente pode inclusive direcionar uma pessoa sem ela perceber.

Duração das sessões analíticas

Portanto, a duração ou tempo da sessão analítica, onde interage o par analítico (analisando e analista), não é relevante, porque é necessário tão somente a busca de um equilíbrio entre ambos, para que ocorra a correta exploração do inconsciente e fornecimento de pistas e evidências.

Evidente que haverá a necessidade de um tempo finito para encerrar a sessão no plano material humano. Portanto, a duração da sessão nunca e jamais terá conotação com um tempo de remissão, porque no inconsciente não existe a cronologia linear.

Tudo vai depender da experiência da transferência na elaboração dos conflitos psíquicos, visando à transformação do sujeito.

Compreendido este tópico, vamos examinar rapidamente a tentativa malograda de ruptura com a Psicanálise no DSM III em 1980.

Conclusão

Com isso, encerramos o primeiro artigo da série sobre o tempo na psicanálise, apresentando os fundamentos e a noção de inconsciente atemporal.

No próximo artigo, vamos discutir a exclusão da psicanálise do DSM-III e como essa ruptura marcou a história da saúde mental.

Série baseada no artigo originalmente intitulado “O tempo cronólogico na Psicanálise” escrito por Edson Fernando L Oliveira, formado em Psicanálise, possui PG em Psicanálise, cursou Pós em Psiquiatria e Saúde Mental e concluindo Psicofarmacologia. Contato: [email protected]

Parte 1: Tempo na Psicanálise: fundamentos e o inconsciente atemporal

Parte 2: Tempo na Psicanálise: o DSM-III e a ruptura histórica
DSM-III psicanálise

Parte 3: Tempo na Psicanálise: a crise da psiquiatria e psicologia

Parte 4: Tempo na Psicanálise: novos caminhos da psicanálise na pós-modernidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *