Este é o terceiro artigo da série “Tempo na Psicanálise”, que investiga como a concepção psicanalítica de tempo dialoga com a prática clínica e a história das ciências Psi.
Na primeira parte, exploramos os fundamentos da psicanálise e a noção de inconsciente atemporal. Na segunda, vimos como a exclusão da psicanálise do DSM-III em 1980 representou uma ruptura histórica. Agora, analisamos a crise da psiquiatria e da psicologia diante das consequências do modelo biologicista.
A fase de poucas luzes e a ignorância dos críticos
Esta fase foi resultado direto do equívoco do movimento psiquiátrico norte-americano e europeu que puxou a nova linha “neokraepeliniana”, tendo como referencial a psiquiatria de cunho médico-biológico e diagnóstico por imagens, influenciados pela era do cérebro e da Neurociência.
Porém, foi força motriz dessa fase a ignorância e as “poucas luzes” sobre a distinção dos papéis das ciências Psi, em especial a Psicanálise, que tem seu foco no inconsciente.
O tempo e a percepção equivocada
A percepção equivocada do tempo cronobiológico no inconsciente foi determinante. Essa ignorância, que tentou alinhar a Psicanálise como uma forma de tratamento psicológico sem se atentar para o seu objeto, levou muitos operadores das ciências Psi, sobretudo psiquiatras, a buscar uma via que se revelou perversa com o fluir do tempo.
A própria história do DSM se encarregou de demonstrar isso.
Expansão das categorias do DSM
Em 1994 surgiu o DSM-IV, com 297 categorias ou classificações de patologias. Porém, em 1987, durante a vigência do DSM-III, já havia surgido a necessidade do DSM-III-R (Revisado), com 292 categorias, em cima das 265 que já tinham.
Ou seja, com a mudança do paradigma e a exclusão da Psicanálise do DSM em 1980, apenas 7 anos depois foi necessário acrescentar mais 27 patologias emergentes em face da alta medicalização.
Em 2013, o DSM-5 já apresentava mais de 300 patologias. Atualmente temos o DSM-TR (Texto Revisado), com mais de 947 páginas.
Consequências da ruptura
A troca do paradigma no DSM-III em 1980 só agravou o quadro de saúde mental. Houve uma crítica imensa em cima do empirismo aplicado no rol das classificações da Psicopatologia Clínica, revelando a “esterilidade do DSM”.
Nesse contexto, começou-se a refletir que a saída seria, em tese e a priori, de novo pela Psicanálise. Caiu a ficha geral de que estavam equivocados.
A crise da psiquiatria e da psicologia
De 1980 até meados de 2015, ficou bem claro que tanto a Psiquiatria como a Psicologia mergulharam numa crise profunda e de grandes dimensões.
O primeiro indicador foi o crescimento das categorias nosológicas ou patológicas. Neste mesmo período, pouca coisa mudou na psicopatologia psicanalítica, em especial nas neuroses e psicoses. As parafilias na Psicanálise ficaram praticamente as mesmas.
E a teoria do inconsciente só se fortaleceu. A Psiquiatria e a Psicologia, bem como algumas Psicoterapias esparsas, muitas delas, socorreram-se do inconsciente.
Tendências futuras
A tendência para o futuro DSM-VI, que deverá substituir o DSM-5-TR, será um crescente nivelamento e alinhamento maior com o CID-11, para tentarem debelar a crise.
A Psicanálise poderá voltar com mais força motriz no DSM-VI.
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Diante da situação, um questionamento se impôs: o que fazer? É o que passaremos a abordar no próximo passo.
Conclusão
Assim, concluímos o terceiro artigo da série sobre o tempo na psicanálise, analisando a crise da psiquiatria e da psicologia como fruto da medicalização e da exclusão da psicanálise do DSM.
No próximo artigo, vamos discutir os desafios da pós-modernidade e como a psicanálise pode oferecer novos caminhos clínicos diante do agravamento dos transtornos psíquicos.
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Série baseada no artigo originalmente intitulado “O tempo cronólogico na Psicanálise” escrito por Edson Fernando L Oliveira, formado em Psicanálise, possui PG em Psicanálise, cursou Pós em Psiquiatria e Saúde Mental e concluindo Psicofarmacologia. Contato: [email protected]
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Parte 1: Tempo na Psicanálise: fundamentos e o inconsciente atemporal
Parte 2: Tempo na Psicanálise: o DSM-III e a ruptura histórica
DSM-III psicanálise
Parte 3: Tempo na Psicanálise: a crise da psiquiatria e psicologia
Parte 4: Tempo na Psicanálise: novos caminhos da psicanálise na pós-modernidade
