mito de Thanatos

Thanatos: mito, morte e natureza humana

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O presente artigo tem por objetivo de estudar o mito de Thanatos e a concepção sobre morte. O princípio de tudo e Thanatos no princípio de tudo era o Caos, de acordo com a mitologia grega. Na exposição de Evaldo D’ Assumpção:

“E Caos, em grego significa o abismo insondável. Mas o Caos não é um conceito exclusivo da mitologia grega. No livro do Gênesis lemos que “no princípio, a terra era informe e vazia e as trevas cobriam a face do abismo”. Era o Caos primordial. Na cosmogonia egípcia, o Caos é uma energia poderosa do mundo informe e não ordenado. Na tradição chinesa, o Caos é o espaço homogêneo, anterior à criação do mundo” (ASSUMPÇÃO, 2017).

A história de Thanatos

Do caos nasceram Érebo, personificação das trevas subterrânea e Nix, noite e trevas superiores. “[…] De Nix nasceram Urano (o céu) e Gaia (a Terra). Gaia se uniu a Urano que a fecundava continuamente. Deles nasceram os 12 Titãs, entre eles Crono (o tempo), os Hecatonquiros e os 3 Ciclopes.

Urano detestava seus filhos e Crono, revoltado contra aquela situação, castrou seu pai e libertou a sua mãe. Casou-se em seguida com sua irmã Réia. Contudo, Crono temia uma profecia segundo a qual um dos seus filhos usurparia seu trono.

Por isso, também ele não gostava dos seus filhos e os devorava após seu nascimento. Infeliz com aquela situação, Réia decidiu salvar Zeus, o filho que acabara de dar à luz, enrolando uma pedra com as roupas que envolveram o menino” (ASSUMPÇÃO, 2017).

Mitologia da morte

Zeus seria o próximo a ser devorado, mas Réia salvou ele, ela tinha acabado de parir Zeus. Ela enrolou as roupas do menino numa pedra e Crono, percebendo o cheiro do menino na pedra, a devorou.

Zeus escapou, ressuscitou seus irmãos e tornou-se pai dos deuses e dos homens. “Numa genealogia discutível, Nix também gerou Éter (o céu superior, onde a luz é mais pura) e Hemera (o dia). Gerou Moro (o destino), Momo (o sarcasmo), Gueras (a velhice), Éris (a discórdia) e as Moiras (o destino), que são três: Cloto (a fiandeira do fio da vida), Láquesis (sorteadora dos que vão morrer) e Átropos (a que corta o fio da vida). E ainda Nêmesis (a justiça distributiva), Queres (a destruição), Hipno (o sono) e Thanatos (a morte)” (ASSUMPÇÃO, 2017).

O poder de Thanatos na Grécia Antiga

Na Grécia Antiga, os gregos evitavam pronunciar o nome de Thanatos. Eles criam que o nome poderia atrair algum tipo de destruição. Conforme Assumpção (2017), Thanatos possuía o coração de ferro e as vísceras de prata.

“Numa luta com Sísifo, que era rei de Corinto, foi por ele vencido e acorrentado. Com Thanatos preso, já não morria ninguém e assim o reino de Hades (dos mortos) foi empobrecendo, pois já não recebia ninguém. Vendo isso, Zeus interveio e libertou Thanatos, que ao se ver livre procurou Sísifo e fez dele sua primeira vítima” (ASSUMPÇÃO, 2017).

Sísifo

Como bem explicitou Assumpção (2017), Sísifo, antes de morrer, pediu que sua esposa não fizesse rituais fúnebres. Chegando no mundo inferior, ele reclamou que sua esposa não havia feito o cerimonial fúnebre.

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Portanto, Sísifo conseguiu uma possibilidade de ir para o mundo dos vivos para falar com sua mulher. Mas era um plano e Sísifo e a esposa fugiram, entretanto, Thanatos voltou para o mundo superior e prendeu Sísifo.

“Como castigo, recebeu a tarefa de rolar, penosamente, uma pesada pedra até o alto de uma montanha. Mas, sempre que chegava próximo do cume, a pedra escapulia-lhe das mãos e rolava morro abaixo. E Sísifo tinha de voltar para buscá-la, começando tudo outra vez. E isso por toda a eternidade” (ASSUMPÇÃO, 2017).

A relação de Thanatos e a Psicanálise

Thanatos é a percepção da morte, pulsões voltadas para a destruição. Sigmundo Freud e a guerra sempre foi parte da vida humana, ela já foi tida como uma espécie de evolução, em outras palavras, o combate aperfeiçoa o conhecimento tecnológico do ser humano.

Sigmund Freud esteve perto da guerra, como sinaliza Juliana Vecchi Marinuchi:“Além disso, são bem conhecidas as contribuições de Freud relativas aos momentos de guerra e paz” (MARINUCHI, 2019).

O desejo de poder

Existe no ser humano um profundo desejo pelo poder, embora os padrões sociais constituam inúmeras regulações, o aspecto primitivo não desaparece, ele é apenas reorganizado.

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    “No final do século XVIII e início do século XIX, o mundo passou por grandes transformações. Com o fortalecimento do capitalismo , o crescimento da população, as transformações no sistema de transporte, a urbanização. Além disso, as duas grandes guerras” (MARINUCHI, 2019).

    Como foi colocado por Marinuchi (2019), Sigmund Freud viveu o tempo da Primeira Guerra. Ele estava entusiasmado no início da guerra, Freud era nacionalista. Entretanto a guerra foi trazendo seus sintomas conforme o passar do tempo: medo, aflição, angústia, etc.

    “[…] Por isso, Freud compartilha suas aflições da Primeira Guerra, e coloca como uma dos temas centrais a morte, em Reflexões para os tempos de guerra e morte” (FREUD, 1915). Ele que, à distância, guarda o posto e anseia pelo retorno de seus entes queridos” (MARINUCHI). Certa vez, por entre reflexões, Freud constituiu o seguinte questionamento: qual é o porquê da guerra? É de suma importância, leitores, estabelecermos alguns trajetos para compreendermos o questionamento de Freud.

    O homem é o lobo do próprio homem

    O título acima foi mencionado pelo filósofo Thomas Hobbes. Segundo Hobbes, o ser humano é naturalmente mau e regido pela autopreservação. De acordo com ele, o ser humano possui um instinto que o rege para o caminho da violência.

    O aparelho social é o instrumento regulador da natureza destrutiva do indivíduo. Para Thomas Hobbes, paz e segurança são palavras próximas e instrumentos políticos com a finalidade de preservar. Interessante que a afirmação do filósofo traz algumas lembranças do pensamento freudiano.

    A cultura possui dois objetivos para Freud: o controle da natureza e o ajuste das relações entre os seres humanos. Tanto que as instituições sociais intermedeiam o homem a viver em sociedade, em outros termos, elas minoram os impulsos hostis humanos. Porque o sujeito é inimigo da civilização, ele tem um forte tendência para a aniquilação.

    A evolução do homem

    Todo o tipo de projeto civilizatório é atacado pela rebeldia dos homens, o desejo de matar o outro é instintual, ou seja, o instinto e o civilizado precisam ser separados. E o real é o espaço evolutivo do homem, tecnologia e ciência são aparatos imprescindíveis para o melhoramento mental do ente.

    Unidades culturais são essenciais para o bom desenvolvimento do homem, pois o sujeito possui suas inclinações e ideias latentes. O que a civilização busca é a privação dos instintos, sua grande protetora é a ciência.

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    Ela é a guardiã que afasta o primitivismo e o estado ferino, é a fornecedora de ideias para os homens.

    A natureza humana

    A ciência visa humanizar o real, enfim, a sociedade almeja proteger o homem da morte, do lobo que circunda, melhor dizendo, do outro homem.

    A criança, por meio dos pais e com a finalidade de adentrar no mundo civilizatório, passa por um processo de repressão, ela precisa saber o que é certo e errado. O ambiente social também interfere nas decisões do indivíduo, ele passa por repressões, claro, com o objetivo de atingir o amadurecimento para a salutar convivência em sociedade.

    Os preceitos culturais

    Os preceitos culturais são pontes para a transformação da pessoa. O intelecto precisa ser uma caminhada persistente no indivíduo, reprimir o que é instinto e expandir o que é tido como correto. Enfim, leitores, reprimir é represar os impulsos nocivos dos seres humanos.

    Porque o homem é voltado para o aspecto individual, por ele ser individual, ele necessita de um líder que o conduza por entre os caminhos de uma vida social.

    O líder é o elemento que priva os demais dos ímpetos destrutivos e egóicos. Civilização é sinônimo de renúncia, é a organização das ordens psicológicas do indivíduo para um bem comum.

    A relação do indivíduo com a sociedade

    O ser humano organiza sua libido, canaliza a mesma no líder, no ideal do EU. A relação do indivíduo com a sociedade é edípica, ou seja, ele redireciona sua libido instintual nos discursos tidos como certos. Ordenando, por meio dos códigos sociais, os aspectos materiais e simbólicos.

    O sujeito é moldado para ser um representante de preceitos públicos, em outros termos, uma castração civilizatória para a preservação da vida.

    Quando pensamos em instituições ordenadoras, eu já comentei em linhas anteriores, elas visam constituir o aspecto identitário do cidadão. Os dispositivos sociais são combustíveis para a pulsão voltada para a vida. Eles são essenciais para a organização da salutar convivência por entre os seres humanos.

    Sociedade de consumo

    As sociedades do Ocidente são caracterizadas pelo consumismo. Os discursos consumistas dão expressão para o que é sublimado para uma realidade competitiva. Organizando os indivíduos para a inimizade e destrutividade, ocorrendo lacunas acerca da preservação.

    A libido é direcionada para a satisfação do consumo. A pessoa anseia pelo modelo de vida que a sociedade impõe como paradigma. As pessoas, ansiadas pela proposta social, vão em busca da proposta para satisfazer o ego.

    Quando falamos em sociedade de consumo, é válido ter ciência que o seu consumo é retórico. Ele tem um fim em si próprio, ele almeja imbuir sua mensagem nas pessoas. O século XXI é marcado pela necessidade de realizar os paradigmas determinados pela sociedade.

    E diante de tal necessidade, acaba emergindo o sentimento competitivo e a desigualdade. E a desigualdade gera pulsão de morte, Thanatos, devido o consumismo e o desgaste emocional propiciado pelo consumo. É a castração libidinal ocorrida pela exclusão social e cultural. Caso as pulsões não sejam devidamente cuidadas, pode haver um desencadeamento de morte real do sujeito.

    Thanatos: uma reflexão

    Portanto, a pulsão de morte é uma objeção que é parte da existência humana. Embora o ser humano viva e conviva em sociedade, tal pulsão não é exaurida, o homem vive entre duas pulsões: vida e morte.

    Mesmo diante do espaço destrutivo que existe no homem, o sistema social é a engrenagem essencial para a preservação. Ela constitui abnegações para os indivíduos que ela organiza, isto é, a partir do outro o indivíduo desperta o Eros, oposto de morte.

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    A empatia é o sentimento que necessita ser despertado na pessoa, ter empatia é preservar a si e o outro. É sabido que o sistema social está em uma constante mudança, ele é forjado por discursos, culturas e desejos manejados. As felicidades paradoxais não são poucas, sendo assim é importante o ser humano estar atento aos paradigmas propostos.

    O preço da felicidade

    O presente oferece uma felicidade com preço, ou seja, você alcança ou não. Caso a pessoa consiga os degraus necessários para alcançar tal felicidade, ela tem seu ego sustentado; caso não alcance, pulsões de morte podem vir à tona.

    No fim das contas, leitores, os lobos internos precisam ser ensinados para um contínuo retraimento e o incentivo para a boa orquestração da libido, assim dizendo, a verdadeira busca pela felicidade.

    Referências sobre Thanatos

    ASSUMPÇÃO, Evaldo D.’ Thanatos- a morte, na mitologia grega. Dom Total, 2017. Disponível em: https://domtotal.com/noticia/1204071/2017/11/thanatos-a-morte-na-mitologia-grega/. Acesso em: 17/03/21.

    BRAGA, Ive. O mito de Thanatos e a pulsão de morte. Psicanálise Clínica, 2020. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/mito-de-thanatos/. Acesso em: 22/03/21.

    VECCHI MARINUCHI, Juliana. Primeira e Segunda Guerra Mundial para Freud. Psicanálise Clínica, 2019. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/guerra-mundial/. Acesso em: 25/03/21.

    Este artigo sobre foi escrito pelo autor Artur Charczuk([email protected]), pastor luterano no Rio Grande do Sul. Também formado em Letras, com ênfase em português e literatura (2010) pela Universidade Luterana do Brasil, ULBRA. Possui especialização em Línguas, Literaturas e Mídias (2011) pela Universidade Luterana do Brasil, ULBRA. Formado em Teologia e Filosofia e possui especialização em Aconselhamento Pastoral (2020) pelo Instituto Mineiro de Formação Continuada, ZAYN.

     

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