Este artigo propõe uma reflexão psicanalítica sobre o fenômeno dos “amores líquidos“, conforme formulado por Zygmunt Bauman, articulando-o com a noção de trauma psíquico. Parte-se da hipótese de que a fluidez dos vínculos afetivos na contemporaneidade não é apenas uma consequência sociocultural, mas também uma manifestação subjetiva de defesas contra experiências traumáticas precoces. A partir de Freud, Winnicott e autores contemporâneos, discute-se como o medo do colapso emocional pode impulsionar relações descartáveis, marcadas por evitamento do contato profundo e pela busca incessante de gratificação imediata.
Introdução
Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, cunhou o termo “amor líquido” para descrever o tipo de vínculo afetivo predominante na modernidade líquida, uma era marcada pela instabilidade, pela efemeridade e pela aversão à solidez dos compromissos.
Em suas palavras, trata-se de um amor “frágil, solto e leve”, onde os vínculos são mantidos enquanto convenientes e abandonados ao menor sinal de desconforto. Esta constatação sociológica nos leva a uma questão profundamente psicanalítica: o que sustenta ou impede o sujeito de se vincular de modo estável ao outro?
O presente artigo busca refletir sobre como a fluidez dos laços afetivos pode ser compreendida à luz dos traumas psíquicos, muitas vezes silenciosos, que moldam a subjetividade. Ao articular o pensamento de Bauman com a teoria psicanalítica, propomos que os amores líquidos também funcionam como defesas contra o risco do sofrimento emocional, contra o medo de repetir experiências de abandono, invasão ou negligência emocional vividos na infância.
Bauman e a liquidez dos afetos
Na modernidade líquida, segundo Bauman, a identidade é instável e relacional, moldada por padrões de consumo, redes sociais e expectativas voláteis. Os relacionamentos amorosos tornam-se descartáveis, sujeitos à lógica do mercado: busca-se maximizar o prazer e minimizar o sofrimento. O “amor líquido” é marcado pelo paradoxo: o desejo de conexão é real, mas o medo da dor é maior, levando à superficialidade dos vínculos.
Bauman não propõe que os indivíduos não queiram amar; ao contrário, há um anseio por vínculos. O problema é que o medo da dor leva à criação de vínculos frágeis, facilmente dissolvíveis. A liberdade individual é celebrada, mas essa liberdade cobra um preço: a solidão, a ansiedade e a sensação de que algo essencial está sempre faltando.
Trauma e a formação do Eu: um olhar Psicanalítico
Na Psicanálise, o trauma não é apenas um evento externo, mas uma experiência subjetiva de ruptura na capacidade do ego de simbolizar e processar afetos. Freud, em “Além do princípio do prazer”, introduziu a ideia de que o trauma se caracteriza por uma excitação que ultrapassa as defesas do aparelho psíquico, deixando-o à mercê da repetição compulsiva.
Autores como Ferenczi e Winnicott aprofundaram essa compreensão, ressaltando o impacto das falhas ambientais precoces na constituição do Self. Para Winnicott, o trauma mais devastador não é o evento dramático, mas a falha contínua da figura cuidadora em oferecer um ambiente suficientemente bom. Isso gera um falso Self adaptativo e relações futuras marcadas por desconfiança e retraimento emocional.
Amores líquidos como defesa contra o trauma
Quando o amor é temido tanto quanto desejado, algo do registro do trauma está em jogo. O sujeito que internalizou a experiência do abandono ou da invasão tende a estabelecer vínculos que reproduzem esse mesmo padrão, ou a evitá-los completamente. O ideal contemporâneo de autonomia pode funcionar como uma defesa contra o medo de depender – medo esse enraizado em vivências em que depender foi sinônimo de dor.
Assim, os amores líquidos não são apenas produtos culturais, mas também sintomas psíquicos. Eles revelam um Self que teme se mostrar, que prefere relações fugazes a enfrentar a dor de se vincular profundamente. O outro, nesse cenário, é muitas vezes idealizado e rapidamente descartado quando se mostra humano demais.
A cultura atual, ao reforçar o narcisismo e a lógica do desempenho, contribui para esse movimento. Mas a Psicanálise nos lembra que a cultura é, também, o palco onde os dramas internos são encenados.
Considerações finais: é possível amar na liquidez?
A Psicanálise não é nostálgica: não propõe o retorno aos vínculos fixos, muitas vezes opressivos, do passado. No entanto, aponta para a importância de reconhecer as defesas que estruturam nossa forma de amar. O amor maduro, como disse Freud, exige a capacidade de sublimar, de tolerar frustrações e de reconhecer o outro em sua alteridade.
Superar os efeitos dos traumas não significa apagá-los, mas poder nomeá-los e integrá-los à narrativa de si. Somente assim é possível amar sem repetir compulsivamente padrões destrutivos. O desafio na era líquida é sustentar vínculos em meio à fluidez, encontrar firmeza sem rigidez e presença sem posse.
Amar, portanto, exige coragem. E talvez, no fim, seja essa a mais sólida das verdades em tempos tão líquidos.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
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