Este artigo propõe uma leitura psicanalítica e estética dos principais personagens de Oscar Wilde, com especial atenção às obras: O Retrato de Dorian Gray e A Importância de Ser Prudente. A presente análise irá articular sobre os impasses entre o desejo e a moralidade, a aparência e a verdade, a performance e a identidade, considerando o sujeito como uma instância dividida.
Utilizando os conceitos de máscara, duplicidade, narcisismo, nomeação e gozo, investiga-se como Wilde dramatiza a constituição do sujeito em um contexto atravessado pela repressão vitoriana e pela hipocrisia moral da burguesia inglesa. Os seus personagens encenam, com ironia e angústia, a teatralidade do Eu e a impossibilidade de uma identidade plena. Esta leitura propõe, portanto, um gesto interpretativo que escuta, através da literatura, o sujeito em sua precariedade estrutural.
Introdução
Oscar Wilde não escreveu sobre personagens, mas sobre superfícies que escondem abismos. Em sua prosa e teatro, o sujeito aparece sempre cindido entre a norma social e o desejo inconsciente, entre o ideal do eu e a pulsão, entre o nome civil e a máscara que se permite viver.
São dramatizações estéticas do mal-estar moderno, em um momento histórico onde a repressão sexual se articulava à exigência de um Eu coeso, moral e respeitável. A sua biografia confunde-se com a sua obra: ele próprio viveu entre o brilho da aparência e o abismo do desejo.
Ao propor uma leitura analítica de seus personagens, tentamos escutar algo do sujeito que se oculta por trás das palavras de salão, não para desmascará-lo, mas para reconhecer que – talvez – o sujeito só exista enquanto mascarado.
O Desejo e a Cisão em O Retrato de Dorian Gray
Dorian Gray é a figura paradigmática do narcisismo e da cisão do Eu. Ao desejar que seu retrato carregue os sinais do tempo e da degradação moral (em seu lugar), Dorian encena a fantasia da permanência imaginária. Ou seja, mantém representações mentais idealizadas, mesmo diante das mudanças e da realidade.
A recusa da castração – tal como tematizada por Freud – manifesta-se aqui como uma tentativa de manter o Eu em estado de completude narcísica, anterior à perda constitutiva imposta pela entrada no simbólico.
Na ótica lacaniana, poderíamos dizer que Dorian é aquele que tenta habitar o registro do imaginário em sua pureza especular, recusando a alienação simbólica. Mas o pacto fáustico tem um custo: ao abdicar do envelhecimento e da alteridade, Dorian se torna imagem pura, mas também objeto do próprio gozo.
O retrato, escondido no sótão, funciona como o retorno do recalcado, encarnando o real que insiste — aquilo que não se simboliza e retorna como horror, como pulsão de morte. É o “das Ding” lacaniano — o objeto impossível de integrar, que se impõe como excesso.
Lord Henry, por outro lado, encarna o discurso cínico. Ele sabe que a moral é uma ficção, mas atua dentro dela, subvertendo-a com ironia. É, na estrutura, o sujeito que opera como superego invertido: um agente de sedução, não de repressão. Ele goza da palavra e não do desejo. O seu discurso é encantatório, mas estéril — nunca se compromete, nunca se arrisca.
Já Basil representa o sujeito apaixonado que, ao pintar Dorian, deposita no outro a própria falta. Seu amor é transferencial: ele projeta no retrato a imagem idealizada que sustenta o seu desejo. Mas como o amor revela o que deveria permanecer oculto — o desejo homossexual, o excesso da pulsão —, torna-se insuportável. Dorian destrói o objeto que o nomeia, repetindo a lógica da pulsão de morte, que, segundo Freud, visa a um retorno ao inorgânico.
Identidade como Ficção em A Importância de Ser Prudente
Neste texto dramatúrgico, Wilde abandona o gótico de O Retrato de Dorian Gray e envereda pela comédia, sem abrir mão da crítica à identidade como construção ficcional. Jack e Algernon criam personagens imaginários como Ernest, uma identidade falsa que funciona como um dispositivo simbólico que lhes permite escapar da vigilância social e viver o desejo sob a aparência da respeitabilidade.
Wilde antecipa, de modo intuitivo, a noção de performatividade de gênero: o sujeito não é algo que “é”, mas algo que “faz”. O nome próprio, Ernest, torna-se fetiche ou, nos termos lacanianos, um significante-mestre em torno do qual o desejo se organiza. Gwendolen declara amar apenas um homem chamado Ernest — é o significante que garante o amor, não o sujeito por trás dele.
O desencontro entre o nome e o sujeito revela que a identidade é sempre uma montagem, um efeito de linguagem. Como escreve Lacan, “o sujeito é o que um significante representa para outro significante”. A comédia de Wilde é, portanto, uma farsa do Nome-do-Pai: a função simbólica está presente, mas esvaziada — todos desejam o nome, mas ninguém é aquilo que ele nomeia.
Lady Bracknell representa a instância superegóica da Lei. Sua fala funciona como gramática da moral, do status e da hereditariedade. Mas Wilde a escreve como caricatura: seu autoritarismo é tão excessivo que se desfaz em comédia. Ela não simboliza a Lei — é uma paródia da sua rigidez. Trata-se do Supereu em modo de jouissance: ordena, mas de forma absurda e gozada.
Uma curiosidade sobre o título
O título em inglês “The Importance of Being Earnest” faz um jogo de palavras: “Earnest” significa “sério, honesto”, mas também é um nome próprio masculino. O autor brinca com esse duplo sentido para ironizar o valor exagerado que a sociedade vitoriana dava às aparências e à respeitabilidade.
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A Máscara em Wilde
A obra de Wilde é uma poética da máscara, mas não no sentido clássico da ocultação. Aqui, a máscara não esconde um “verdadeiro eu”, e sim, revela a estrutura do sujeito como falta. Com fulcro na teoria lacaniana, o sujeito do inconsciente é dividido, alienado na linguagem, constituído pela falta-a-ser (manque-à-être) – um vazio ontológico que impulsiona o desejo. A máscara em Wilde não cobre: constitui.
Se em Freud o sujeito é efeito da tensão entre pulsões e interditos, em Wilde ele é constituído pela performance, pela ironia, pelo artifício. Os seus personagens não são aquilo que escondem, mas o modo como encenam sua própria divisão. Falam demais, porque não podem dizer o que realmente desejam.
A ironia, nesse contexto, funciona como defesa psíquica, como nos mecanismos neuróticos descritos por Freud. Wilde dramatiza esse mecanismo com precisão clínica: a frase espirituosa, o comentário mordaz, o duplo sentido, tudo opera como escudo contra o confronto com o real.
Mas o real retorna: na forma de um retrato horrível, de um nome impronunciável, de um amor impossível.
Considerações Finais
Oscar Wilde, esteta e exilado, capturou com rara acuidade o drama do sujeito moderno: dividido, disfarçado e desejante. A sua obra, embora marcada por leveza formal, é uma escuta refinada do inconsciente. Ao aproximá-la da psicanálise, descobrimos que seus personagens são sintomas falantes: revelam, na duplicidade, algo do desejo que os funda.
Dorian, Jack, Lady Bracknell — todos encenam a angústia de um sujeito que só existe através da falta. A máscara, longe de ser uma mera superfície, é aquilo que permite habitar o mundo simbólico. Bem como Lacan nos ensinou, “a verdade tem estrutura de ficção”.
Ler Wilde com Freud e Lacan é reencontrar, no espelho da literatura, o drama de todos nós: desejar ser outro, temer ser descoberto e, em alguns momentos, fingir para sobreviver. E, talvez, reconhecer que não há rosto sob a máscara — apenas o vazio onde o sujeito se constitui.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
