O tempo possui uma natureza dupla: ele é uma grandeza física e uma experiência psicológica e pode levar a angústia do tempo na sessão.
Na ciência, o tempo é modelado por meio da matemática para descrever a realidade.
Na psicologia, ele é uma construção sociocultural e uma percepção cognitiva subjetiva.
Contagem Subjetiva
Diferentemente do direito, por exemplo, o tempo consiste na contagem de anos, semanas, horas, minutos e segundos, ao passo que o direito é uma construção social.
O primeiro, em tese, é objetivo e o segundo construído a partir de necessidades humanas com o objetivo de segurança jurídica (se a temos, são outros quinhentos).
O tempo é racional e pragmático.
O direito, a mediação e a psicologia irracionais, não lineares e subjetivos.
Mas será que o tempo é mesmo uma matemática racional?
O tempo pode ser também uma percepção.
Angústia do Tempo
Às vezes uma hora não passa em uma hora.
Depende da dor.
Depende da angústia.
Para Lacan, o tempo da análise não é o tempo do relógio. É o tempo do sujeito.
A angústia não é o relógio parado, mas sim o afeto que emerge quando nos deparamos com o vazio da falta, em outras palavras, os sentimentos humanos – que são subjetivos – podem parar o tempo.
Tempo esse que não é o do relógio, não é a matemática.
O tempo da análise e do autoconhecimento não são cronológicos.
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Vivência Do Tempo
Quantas vezes não sentimos que o tempo não passa?
Depende muito da situação concreta que a pessoa está vivendo.
A morte de um pai, uma mãe com câncer, o término de um relacionamento, um problema no trabalho. Independente da gravidade da situação, nós sentimos um turbilhão de emoções que não passam na ordem cronológica do tempo.
A dor interrompe o tempo matemático. Dito isso, fato é que o tempo passa.
Tanto o cronológico quanto o subjetivo. E quanto mais nos conhecemos, mais rápido ele passa.
É incrível a nossa capacidade de enfrentamento da dor. Quanto mais lastro, mais suporte, mais apoio se tem, mais o relógio matemático tende a nos inserir na linha do tempo subjetivo.
Relógio Não Para
Quantos menos esperamos do outro, mais tranquilo ficamos com nós mesmos. Quanto mais confiamos que teremos ferramentas emocionais para enfrentar os desafios da vida – que são muitos e intermináveis – mais o tempo passa.
Essa perspectiva é importante para aqueles que estão enfrentando desafios.
Fato é que o tempo passa, o matemático e o das emoções. E, apesar da dor e da angústia pararem o tempo, ele sempre volta a correr.
Nunca me esquecerei da minha primeira sessão de análise em 2020.
Advogada que sou, levei comigo dois documentos:
(i) um NDA (acordo de confidencialidade);
(ii) um fluxograma com prazos definidos para cada tema que gostaria de trabalhar, sendo que em três meses os teria esgotado.
Coitada!
A Rotina
Levei um tempo cronológico e matemático para temas totalmente subjetivos e que, hoje, seis anos depois, ainda não finalizei meu fluxograma racional, pragmático, linear e objetivo.
Com o tempo, nós ressignificamos o tempo.
Tempo do nosso dia que vale à pena trabalhar, cuidar de nós mesmos, passar tempo com quem gostamos e com quem se importa com a gente.
Organizar esse tempo é fundamental.
A vida não são os dez dias de férias por ano, a vida é a rotina.
É ver um pingo de felicidade (se é que isso existe e não foi também criado) na corrida matutina, no sorriso da sua mãe com saúde, no tratamento humano com a copeira do seu trabalho.
A vida é isso e nada mais.
A Ressignificação
Também descobri que o tempo volta a correr e a dor diminui, mas ele não cura nada – ele apenas muda o lugar da dor.
Ela continua ali, só que mais quieta, sentada ao lado da vida.
O tempo nos ensina a conviver com o que não se resolve (uma mãe com câncer, por exemplo), e é nesse convívio que a gente cresce, fica menos teatral, mais verdadeiro.
O tempo não apaga nada, ele apenas volta a correr de forma cronológica, e passa… Amadurecer talvez seja isto: deixar de disputar com o tempo e começar a caminhar – ou correr, para quem gosta – com ele.
Função Além das Horas
Entender que ele não é mediador e nem juiz, mas matéria-prima da vida.
O amadurecimento nos faz compreender que viver não é ter tempo sobrando, mas estar inteiro quando ele acontece.
O tempo passa, mas o que é vivido com inteireza, esse, fica.
Que percebamos que ainda há tempo – e que ele, mesmo finito, é o bem mais vasto que temos.
Este artigo foi desenvolvido pela aluna Lívia Maffei Costa exclusivamente para o Blog Psicanálise Clínica.
