Ato clínico e processo clínico

Ato clínico e processo clínico na Psicanálise

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Em meados dos anos 90 (a partir de 1995) do século XX, milênio passado, virou uma espécie de moda corrente acrescentar o termo “Ato clínico e processo clínico” em vários campos do saber.

O surgimento do Ato clínico e processo clínico

Surgiu a Engenharia Clínica ou de Patologias de Obras ou Diagnóstica; a Administração Diagnóstica e Clínica; a Contabilidade Diagnóstica, que prescreve uma clínica; a Filosofia Clínica; a Pedagogia Clínica; a Arquitetura Clínica; Gestão Ambiental Clínica ou Diagnóstica, as propostas de RHDC, Relações Humanas Diagnóstica Clínica; Sociologia Clínica, Ciências Políticas Clínica, Geografia Diagnóstica e Clínica; História Diagnóstica e Clinica, Pedagogia Clínica, Teologia Clínico, Direito Clínico, Antropologia Diagnóstica e Clínica. O termo “clínico” ganhou pujança e tração.

Mas, afinal, o que significa Ato clínico e processo clínico ?

Seria possível denominar vários campos do saber como clínicos? Cabe a Psicanalise ser clinica?!

O terno clínico (a) usualmente é atribuído ao espaço de trabalho dos profissionais que fazem diagnósticos e prognósticos de patologias, anomalias ou disfunções sejam de que natureza for. Clínico provém de termo grego ‘klinikós’ tendo na sua composição ‘klíno’, inclinar, ou ‘klíne’, leito. A imagem do profissional como sujeito, inclinado e numa relação com o objeto, o documento ou artefato ou alvo do exame, o sujeito esta em clínica ou clinicando (examinando).

Seja na condição de ator ou paciente, par analisando e analistas, partilhante e partilhado, doente e curado ou em remissão, a formulação da palavra ‘inclinado’, ou que age inclinado depreende-se estar em ato de clínica, portanto, passou a designar prática a beira de um leito, cama, mesa, bancada, suporte gerando um tratamento sobre os objetos ou sujeitos. Significa o que é realizado ‘junto com’ seja sujeito ou objeto.

Conceitos, teorias, hipóteses

Toda pessoa que se dedica ‘junto com’ outra ou outros, operando perante o objeto a fazer exame, diagnóstico, tratamento, prognostico, projeção, indagação, persecução, reparo, conserto, previsão, prospecção efetivamente estará exercendo uma clínica ou em ato clínico.

Também, todo o indivíduo que percebe pela observação realizando pesquisas e estudos, utilizando dados, metadados, informações, conhecimentos e saberes, consagrados e especializados, gráficos, meta analises, conceitos, teorias, hipóteses, e mesmo sendo elas de cunho generalista, mas focado em descobrir causas, motivações, razões e efeitos, estará realizando uma clínica e estará em última análise em ato clínico.

O termo processo clínico é uma visão ampliada da clínica por serem desencadeadas e deflagradas por partes, fases, etapas, períodos e passos todos eles concatenados. Quando a dedicação é de situação diária usa-se o termo perscrutando o quadro ou situação ou ainda processo clínico. Realizar clinica também passou a designar promover ou buscar vertentes ou diferenças epistemológicas mediante uso de técnicas ou ferramentas ou instrumentos dedicados.

Causas ou soluções com diagnósticos e prognósticos

Seria o caso do aviador (PIC, piloto em comando) que usando a ‘práxis’, ou seja, a teoria na prática, inspeciona e realiza ‘check list’ buscando perceber possível alterações, estaria clinicando ou em ato clínico. O clínico pode ou não realizar a intervenção no motor na nacele.

Quando o sujeito esta diante do objeto com a meta ou o objetivo de agregar valor usando e focando uma gama de informações e implicando e relacionando os dados e metadados, na busca de causas ou soluções com diagnósticos e prognósticos manejando os conhecimentos especializados com ou sem registros entende-se como esteja realizando um processo clínico por atos clínicos.

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Outro termo usual seria o olhar clínico, que seria no jargão especializado uma antiga expressão que denota capacidade de identificar uma patologia, anomalia ou disfunção no objeto, embora ainda não disponha de recursos para intervenção, mas bastando o diagnóstico do achado ou suspeitas para que caracterize a o ato clínico.

Nem todas as situações caracterizam ato clínico

Quando o sujeito esta numa etapa cognitiva estabelecendo um diagnóstico correto ou não correto, e propondo uma conduta entendida como adequada que também pode ser inadequada esta em tese e a priori, realizando um raciocínio clínico portanto em ato clínico. Quando descobre uma razão, motivação, causa, efeito ou consequências estaria diante de um problema clínico, desde que vá demandar uma tentativa de resolução ou equacionamento usando um método clínico.

Portanto, quando um profissional seja de que área for, estiver em ato, ou ação e potência clínica num atividade que envolva cuidados, promoção, prevenção, orientação, recomendação, terapia, escuta, fala, exposição, projeção, prognóstico estará realizando ato clínico sem margem de dúvidas. Isto implica que não necessariamente o graduado seja, bacharel, licenciado, mestre ou doutor venha se apropriar e ser o detentor exclusivo do ato clínico.

O pagé ou um xamã de uma tribo indígena detentor de conhecimentos de tradição intrínsecos de uso de ervas e rituais poderá estar em ato clínico diante de uma patologia na sua tribo. O termo tem sido mais usado por médicos, farmacêuticos, enfermeiros, área de saúde onde estão de forma mais imediata engajados em escutas, diagnósticos, orientações e tratamentos com prognósticos e projeções.

Ato clínico e processo clínico e outros termos

Outro termo muito usual se refere a pesquisa clínica, que seria a investigação objetivando descobrir e verificar os efeitos de medidas mitigadoras ou fármacos e entender reações seria igualmente estar em ato clínico de pesquisa que envolvem seres humanos, semoventes (animais) ou objetos variados, documentos, peças de arte, enfim uma gama de possibilidades. O ato de fazer uma clínica implica no uso do exame clínico ou entrevista clínica que possui um roteiro e quesitos técnicos.

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    Quando ocorre uma entrevista profissional com o uso relativo da chamada ‘anamnese’ buscando uma memória da patologia ou disfunção ou anormalidade sem a identificação do problema a ser tratado, os sintomas ou relatos principais, o histórico evolutivo, a vida pregressa, inspeção, palpação, a ausculta, busca de diagnostico por imagem, a percussão, a busca de amostragens e extrações de dados e informações, como a biópsia, o enraizamento da questão.

    Dados divisórios, a localização de uma causa ou motivação ou a busca dos efeitos entende-se que é um exame de ato clínico, portanto o sujeito está em ato e processo clínico porque busca entender fatores, variáveis, condicionantes, as implicações e correlações as indicações possíveis de um tratamento ou superação com ou sem exames complementares a posteriori. Isso de per si caracteriza o ato clínico.

    O ato clínico não é o ato médico

    Muito importante e oportuno salientar que o ato clínico não é o ato médico. O ato médico é um conjunto de atividades e ações de diagnóstico, tratamento, encaminhamento de um paciente e prevenção de agravos, com prognósticos buscando a remissão (cura) por médico agindo sobre as patologias médicas codificadas e catalogadas que seria o diagnostico categorial.

    Mas também existe o dimensional e o translacional. Ato médico é privativo de médicos. Diferente do estar em ato clínico. O médico, o dentista, o veterinário, o engenheiro podem estar em ato clínico. O ato clínico não é monopólio de nenhum campo do saber.

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    Posto isto, a primeira indagação do que seja a clínica ou o termo clínico, qual seu significado e o que seja também o processo clínico já esta plenamente explicada. Resta satisfazer mais duas indagações exposta no preâmbulo, ou seja, se é possível aplicar o termo clínica em outros campos do saber, entendemos que sim, porque a maior objeção seria por parte da área de saúde, que faz o ato médico fazendo um pré juízo de que esta em ato clínico quando na verdade muitas vezes não esta ou que tem o monopólio do ato clínico.

    Ato clínico e processo clínico na área da saúde

    A área da saúde exerce o ato médico também usando o ato clínico. pratica o ato médico através dos atos e processos clínicos. Nada impede que os objetos denominados de fato social, ato psíquico, fato histórico, fato geográfico, ato pedagógico, fato antropológico, a práxis de engenharia ou ato de engenho, e outros dos vários campos do saber também estejam em ato clínico ou realize o ato, o diagnóstico, processo, tratamento e o prognóstico ou projeção clínica nas suas especificidades e peculiaridades.

    Resta compor a indagação e percepção da visão se cabe à Psicanálise ser clínica?! A Psicanálise teve sua gênese na clínica; ela é por natureza e origem uma linha da psicoterapia, portanto ela é de natureza e forma inata e ainda por sua vertente hereditária essencialmente clínica.

    Não existe como dissociar a Psicanálise do ato e processo clínico porque ela tem na sua essência o ato de ‘anamnese’ pela entrevista ao sondar o ato psíquico, centrada no seu objeto, que é o inconsciente ou ato clínico da prospecção da patologia. Não fica na superficialidade mas vai na alma. Ao passo que outras áreas do saber como a Filosofia é que estão ainda envolvidos nesta discussão se são ou não uma forma de tratamento.

    Considerações finais

    Temos que frisar bem que o ato clínico não requer que um conhecimento como o objeto da Filosofia, da Geografia, da História, da Pedagogia, da Sociologia, da Contabilidade e Engenharia entre outras sejam essencialmente uma forma de psicoterapia como a Psicanálise é; a contrario senso, historicamente muitas não eram e estão despertando para serem clínicos.

    A Psicanálise já nasceu como uma linha consagrada de psicoterapia ao passo que outros saberes poderão ser uma forma de tratamento psicoterápico. Neste sentido a Filosofia Clínica (1980) sistematizada pelo filósofo, psicólogo e pesquisador gaúcho do RS, Lúcio Packter busca ser uma abordagem terapêutica com base na Filosofia pela via prática de entrar e estar em ato clínico.

    O tema ainda não é pacificado e comporta vários juízos de valor objetivos e subjetivos a priori e em tese, mas na práxis e a posteriori vamos aos poucos abrindo as cortinas e vislumbrando o que está no palco técnico.

    O presente artigo foi escrito por Edson Fernando Lima Oliveira([email protected]), licenciado em História; PG História; PG em Ciências Políticas, ; acadêmico de Psicanálise e Filosofia Clínica.

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