Casa de Três Andares: Uma analogia sobre a dinâmica da existência humana

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Gosto de relacionar a existência a coisas práticas e concretas. Quando penso no ser humano, encontro uma dinâmica na estrutura de sua existência e gosto de relacioná-lo a uma casa de três andares. Somos, muitas vezes, mais do que aquilo que representamos.

Em sociedade usamos nossas máscaras sociais para convivermos. Geralmente, apresentamos apenas um lado de nossas vidas. Somos como uma casa em que os moradores deixam a fachada sempre bem pintada e bonita, porém os cômodos vivem sempre desarrumados.

Vejo o ser humano como uma casa de três andares e com móveis específicos para cada andar. Temos um andar abaixo do nível da rua, outro no mesmo nível da rua e outro logo acima. Essa ideia segue, de forma representativa ou ilustrativa, o modelo topográfico (Consciente, Pré-consciente e inconsciente) apresentado por Freud em seus estudos sobre a estrutura da psique humana.

Cada andar tem uma representação na casa de três andares

O andar de baixo

O andar de baixo é como se fosse um sótão fechado a sete chaves: um lugar de mobílias velhas, muita sujeira e escuridão, mesmo em pleno dia. Nesse andar de baixo recalcamos desejos e impulsos reprimidos do andar do nível da rua. Além disso, aquilo que sabemos ser reprovado socialmente, reprimimos.

Muitos passam a vida nesse espaço. São pessoas que vivem com cheiro de naftalina e empoeiradas pelo passado. O problema é que quem vive nesse ambiente acha que está vivendo no nível da rua ou no andar superior. No entanto, a pessoa vive do passado, que acaba sendo mais presente do que a realidade atual. Mas também nesse andar geralmente se escondem tesouros que podem enriquecer a existência.

O andar do nível da rua

No nível da rua somos um espaço de constante circulação de imagens, pensamentos, fantasias, máscaras e comportamentos. Tudo isso é mediado por defesas e censuras inconscientes, mas presentes. Portanto, esse andar é um constante campo de conflito.

Ele é visível e constantemente atacado pelas censuras que vem da realidade ao redor daquelas que vem do andar de baixo, produto dos recalques ali guardados e armazenados durante anos. Nesse andar, usamos máscaras sociais, que são inevitáveis, mas também usamos máscaras emocionais, que são defesas para suportarmos a vida em sociedade.

Esse ambiente geralmente se apresenta arrumado ou desarrumado demais. A realidade desse andar é produto de uma tremenda subjetividade originada no andar de baixo.

No nível da rua vivemos em um aparente estado de consciência. Esse andar seria representado pelo que Freud chama de pré-consciente. O motivo é que vejo nele um constante estado de consciência da realidade imediata e de lembranças facilmente acessadas.

Nesse andar as lembranças permanecem em lugares de fácil acesso, como se estivessem em um armário no quarto, na cozinha ou na dispensa.

O andar de cima

O andar de cima é um espaço vivido por poucos, apesar de estar à disposição de todas as pessoas. Esse é o espaço da consciência: lugar do ego desenvolvido e evoluído.

Nesse andar temos uma melhor visão e domínio da realidade. É por meio dele que acessamos as nossas potencialidades, deixando para trás a vida empoeirada do sótão da existência.

Viver no andar de cima é desfrutar do afastamento do cheiro ruim do sótão e das defesas e censuras do andar de baixo. Esta é uma vida plena de autoconsciência e autocontrole diante da realidade, por mais difíceis que sejam.

Nele retiramos as máscaras e assumimos a nossa verdadeira identidade. Olhamos a vida de cima para baixo, não mais dominados pelos impulsos ou pulsões que vêm dominando tudo de maneira descontrolada. Em uma relação com a tópica de Freud: esse andar está livre do ID com seus impulsos dominadores.

Olhar a vida de cima é dar a ela o controle que ela precisa. Olhar a vida do alto possibilita a percepção das subjetividades que dominam e controlam a vida no andar do nível da rua.

A relação entre os três andares da casa

Os andares do nível da rua e o de baixo vivem ligados e em constante circulação de memórias e lembranças que podem tanto bagunçar, como arrumar a realidade no nível da rua, o qual vive sempre em busca de ser um ambiente prazeroso.

Esse andar vive no princípio do prazer e em busca constante da fuga do desprazer: tudo o que não dá prazer ou machuca, jogamos para o andar de baixo. Desse modo, é nesse ambiente que muitas vezes trazemos para cima realidades do andar de baixo sem percebermos, seja por meio dos atos falhos ou dos chistes, ou brincadeiras, que fazemos.

Vivemos querendo fazer desse andar um lugar de alegrias, porém deixamos entreaberta a porta do andar de baixo, que acaba trazendo o cheiro de morte que existe por lá.

Como você enxerga a sua vida por meio da representação da casa de três andares?

Essa é uma pequena representação de como o homem se estrutura, mesmo que de maneira inconsciente. As coisas acontecem assim e precisam ser interpretadas de maneira correta. Saber em que andar se está vivendo, ajuda na identificação do que de fato está influenciando a vida.


NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ


Passar a vida cuidando apenas da fachada é uma forma de suicídio. Afinal, não adianta cuidar da estética facial e corporal, e abandonar a realidade interior. Precisamos cuidar das mobílias interiores e da maneira como lidamos com cada andar.

O andar de baixo precisa ser conhecido, para que não traga sujeira para o andar do nível da rua. Além disso, viver no andar térreo exige constante análise do que está influenciando a realidade.

Portanto, precisamos trabalhar e lutar para viver sempre no andar de cima, pois só lá desfrutamos de um estado de equilíbrio e de consciência de nossa real essência e potencialidades. Em que andar temos vivido?

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Este artigo foi escrito pelo aluno do Curso de Psicanálise Clínica Samuel Biassi do Nascimento, exclusivamente para o nosso Blog.

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