Superei Conflitos Internos com Psicanálise: Depoimento

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Inicio esta primeira redação relatando como a psicanálise me auxiliou a superar os conflitos internos a mim revelados quando me encontrei entre os muros de uma instituição.

O ingresso na faculdade e a descoberta dos conflitos internos

Ingressando na faculdade. Emoções imensuráveis. Coração acelerado, frio na espinha, lágrima incontida. Transpor muralhas, quebrar barreiras e estar ali na condição de aluna.

Talvez, se eu tivesse cursado a graduação em minha mocidade, logo após a conclusão do Ensino Médio, o gosto de vitória não seria tão grande quanto foi naquele momento, como uma mulher madura.

Durante este período, fiz muitos laços de amizade entre as paredes daquele lugar. Amizades que me acompanharam para além dos muros.

As primeiras discussões em sala

Nesta semana, revi as fotos da colação de grau. Nisto, viajei no tempo e relembrei tudo o que vivi naquele lugar. Nem tudo foram flores. Houveram tempestades, angústias, superações.

Em uma de minhas primeiras aulas, com determinado professor, fui apresentada ao ponto de vista de um grande pensador. Não concordei com ele e uma colega de classe, concordou. Transformou-se em discussão. Estes debates se repetiram por inúmeras vezes.

O professor achava produtivo, pois provocavam o surgimento de ideias. Confesso que estes momentos me desgastavam e a postura do professor me irritava profundamente. Seria para tanto?

Narcisismo versus aprendizado real

Quando a fase puramente narcisista cede lugar à fase objetal, o prazer e o desprazer significam relações entre o ego e o objeto. Se o objeto se torna uma fonte de sensações agradáveis, então se estabelece uma ânsia (urge) motora que procura trazer o objeto para mais perto do ego e incorporá-lo.

Falamos da ‘atração’ exercida pelo objeto proporcionador de prazer e dizemos que ‘amamos’ esse objeto. De outro lado, se o objeto for uma fonte de sensações desagradáveis, há uma ânsia (urge) que se esforça por aumentar a distância entre o objeto e o ego. Além disso, passamos a repetir em relação ao objeto a tentativa original de fuga do mundo externo com sua emissão de estímulos.

Sentimos a ‘repulsão’ do objeto, e o odiamos. Esse ódio pode, depois, intensificar-se ao ponto de uma inclinação agressiva contra o objeto — uma intenção de destruí-lo. (Freud, 1915,p.159 )

A ação da psicanálise

Afastar-me seria a solução? Entender esta raiva desenfreada foi o primeiro sinal da psicanálise neste episódio. Fui vítima de um pai alcoólatra por anos e discussões provocavam-me pânico.

Via nele o agressor? A discussão daria lugar a violência? Entre uma aula e outra desvendava a origem de tanto medo. Lembrava-me de meu pai, das brigas, das surras, do sofrimento.

Enfim, mudei de postura. Determinei que esta matéria e ele seriam os meus desafios. Iria me dedicar muito para entender, ir bem e lidar com os meus conflitos internos. Afinal, compreender e aceitar são coisas completamente diferentes. O professor rebateu dizendo que eu também seria seu desafio. Será?

A mudança de postura para resolver conflitos internos

Com o passar dos meses fui relevando e me fazendo de surda, numa fuga inconsciente da situação de conflitos internos. Entretanto, sentia uma barreira enorme entre eu e o tal. Não era ódio, mas uma aversão. Só de me lembrar da aula já me aborrecia.

O “eu” retira-se da representação intolerável (Unerträglich), mas esta se liga de maneira inseparável a um fragmento da realidade objetiva. Ao mesmo tempo em que o “eu” realiza essa operação, desliga-se também, total ou parcialmente, da realidade objetiva.

Esta última é, a meu ver, a condição sob a qual se dá às próprias representações uma vivacidade alucinatória. Desse modo, a partir de uma defesa que teve êxito, a pessoa cai em confusão alucinatória. (FREUD,1894/1986, p.64)

Até quando fugiria, criando uma realidade que satisfaria meus anseios e inibiria meu pavor? Não poderia confundir a disciplina com a pessoa dele.

Um chocolate para ajudar nos conflitos internos

Propus em meu coração trazer um chocolate para este professor em todas as suas aulas. O fato de ir comprar e ter que pensar nele no momento da compra, se gostaria ou não deste ou daquele tipo de doce, me fariam derrubar essas muralhas em meu coração. Assim o fiz.

Em todas as aulas, o presenteava com um chocolate, do primeiro até o quarto ano de curso. Quanto às discussões, sempre estiveram presentes, Entretanto, aprendi a lidar com os sentimentos que a situação me trazia.


NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ


Soube separar a pessoa do professor com a disciplina. Acabei, por fim, desempenhando o papel de monitora nesta matéria no terceiro e quarto ano.

“[…] aqueles que encarnam, na realidade da vida de um sujeito, as funções ou as instâncias de pai simbólico, de pai imaginário e de pai real. Os pais concretos efetuam essas funções paternas, com efeito, […] principalmente em função de sua estrutura, suas identificações e seus sintomas” (De Neuter, 2004, p. 58).

A irritação deu lugar à amizade. E, então, quando me vi perdida entre meus “eus” literários, foi ele quem me deu um norte. Muitas vezes me vi refletindo se o colocava no lugar do pai amoroso que não tive, como descreve a citação acima. Os atendimentos psicanalíticos levaram-me a separar os sentimentos.

A conclusão do curso e a amizade que permaneceu

Conclui este curso em 2011. Tive muitos amigos e amigas ali na faculdade. Mas este professor foi, sem dúvida, um amigo especial, conselheiro acadêmico, e incentivador para o meu talento como poeta.

Por meio dele, publiquei 5 livros e por meio da psicanálise, pude colocá-lo em seu papel real. Nossa amizade atravessou os muros do Centro Universitário e perdurou por anos. Sua fé em meu talento me impulsionava a publicar a cada ano.

Acreditava que minhas melhores produções aconteciam quando eu estava brava, por isso me provocava constantemente.

Dia 18 de abril de 2018, em pleno dia do livro, ele faleceu. Uma praça em sua cidade natal foi batizada com seu nome, pois muito fez pela literatura por lá. Ele se foi, mas os seus conselhos ficaram.

O luto avaliado pela psicanálise

Em Luto e Melancolia (1917), Freud apresenta a noção de luto como “a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante” (p. 129).

Nesse sentido, considera que a natureza dos afetos trazidos pelo luto se apresenta como um sentimento profundo, de doloroso abatimento. Além da perda de interesse pelo mundo externo e da capacidade de escolher um novo objeto de amor.

Trata-se de uma necessária reorganização libidinal de investimento em objetos que mobiliza o “eu” e as moções inconscientes. Como consequência, a Psicanálise confere ao luto um caráter singular, que pode ser vivenciado de diversas formas, envolvendo perdas relacionadas à morte propriamente dita, ou perdas subjetivas. (SILVA, PONTES, 2016. P.70)

Desse modo, eu passei pelas fases do luto e o vivenciei, atravessando do momento doloroso à resignação.

Assim, optei por estudar psicanálise por entender o seu valor através de vivências pessoais. Lidei com os conflitos internos e a superação de um pai agressor, com o pânico por discussões, entender o sentimento de substituição, e aprender a vivenciar o luto.

Gostou desse depoimento? Então acesse o nosso blog Psicanálise Clínica e veja diversos artigos sobre conflitos internos e o papel da psicanálise.

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