depressão neurótica

Depressão e depressão neurótica para a psicanálise

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Você já ouviu falar em depressão neurótica ? De acordo com Rocha (2008), Freud compara a estrutura psíquica a um cristal, sendo as linhas e os traçados que o definem invisíveis a olho nu.

No entanto, quando o cristal se quebra, estas linhas podem ser vistas, e ao quebrar-se se reparte de acordo com o traçado das linhas que o estrutura.

Depressão neurótica e doentes mentais

Os doentes mentais se caracterizam como estruturas partidas. Tais linhas se originam tanto das disposições constitucionais do indivíduo como de sua história particular.

Somente no momento em que as vivências traumáticas desestruturam a personalidade psíquica, é quando podemos observar os traços estruturais da psiquê do sujeito, traços estes relacionados com os mecanismos de constituição e formação do Eu, assim como com o desenvolvimento da libido e das relações estabelecidas por este Eu com os objetos tanto de seu universo exterior quanto do seu universo interior, processo através do qual a subjetividade humana se constitui, ou seja, as relações exteriores se referem à influência do meio ambiente e da cultura na formação deste mundo subjetivo.

Freud, em sua abordagem psicopatológica, deu grande importância aos fenômenos intrapsíquicos, mas não descartou a ação ambiental e cultural sobre a determinação da patologia. Jean Laplanche (1973), identificou que o estabelecimento do quadro das estruturas clínicas se dá através do campo tópico, da referência genético-dinâmica e pelos fatores econômicos, aspectos estes pelos quais a subjetividade é formada.

Aspectos estruturais da neurose e a depressão neurótica

Para Freud (1924), há elementos primários cujo inter-relacionamento formam a estrutura neurótica. Nesta estrutura como tal, não acontecem alterações severas quanto à constituição do ego como instância psíquica, do Eu enquanto sujeito, nem ocorre evolução insuficiente da libido, o indivíduo passa pela experiência estruturante do Édipo. O simples acesso à triangulação estruturante do Édipo indica a capacidade do neurótico em realizar relações objetais.

O investimento da libido é estabelecido originalmente em seu Ego, mas nada impede a atuação desta libido sobre os objetos externos ao sujeito. De fato, quando não há possibilidade de direcionamentos objetais, isto é resultado de insuficiente estruturação e integração da vida psíquica.

De acordo com Freud (1914), os investimentos narcísicos de autoestima são tão importantes para o desenvolvimento do Eu e da psiquê quanto o direcionamento desta libido para o mundo exterior. O neurótico, como estratégia para driblar a realidade exterior assustadora e prejudicial, acaba por procurar refúgio no universo das fantasias. Porém, o indivíduo não encara a fantasia como sendo sua realidade, assim como possui clareza como voltar do mundo irreal para a realidade exterior.

A depressão neurótica e Freud

Dessa forma, conforme Freud (1924), o conflito se encontra entre as instâncias psíquicas do Ego e do Id, ou seja, o sujeito apresenta “desobediência” quanto às exigências do Id para cumprir as necessidades do Superego e da realidade.

Quanto à angústia presente na estrutura neurótica, encontramos a angústia da castração, absolutamente unida ao complexo de Édipo, cuja natureza é diversa da angústia de fragmentação ou aniquilamento presente na estrutura psicótica.

Características da depressão neurótica

Para Rocha (2008), Freud define que o distúrbio neurótico é mais do que um distúrbio reativo, se constitui como uma manifestação simbólica de um embate intrapsíquico. Porém, não podemos desconsiderar as crises de depressão neuróticas como resultado de vivências traumatizantes, tais como frustrações afetivas, medo do abandono e por circunstâncias dolorosas de perda e falta.

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Estas experiências frustrantes, promovem um processo psíquico, tanto na esfera dinâmica quanto na econômica, onde frustração, atitude agressiva, sentimento de culpa e o medo da perda do amor e a estima dos outros, em especial dos pais se inter-relacionam. Portanto, a depressão é definida por um distúrbio reativo às circunstâncias de frustração, de perda e abandono, e só se torna depressão neurótica devido à denominação estrutural neurótica que lhe é caracterizada.

Sendo assim, diante de semelhantes experiências dolorosas, há diferentes reações por diversas pessoas. Um indivíduo cuja tendência é manifestar neurose, será mais sensível às consequências da patogenia dos traumas e das frustrações.

Depressão histérica

Na depressão histérica, em relação à sintomatologia, pode ser parecida a uma depressão melancólica, mas nem por isso faz da histeria uma psicose. De acordo com Bin (1998), a mesma situação seria observada ao fazermos a comparação entre os sintomas característicos de uma depressão borderline com uma depressão melancólica ou esquizofrênica.

De acordo com Freud (1924), o sintoma da depressão articulado à estrutura neurótica, é presente nos quadros clínicos de diferentes formas de neurose, em especial na Histeria de Conversão. Sendo assim, nas fobias e neuroses obsessivas, a depressão é frequente, estando associada ao medo, à agressividade e à culpa.

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    Na depressão neurótica, o sujeito apresenta um Eu sem grandes prejuízos em seu processo de constituição, bem como uma libido organizada, portanto, as crises depressivas nas neuroses não possuem a gravidade das depressões dos estados-limite, assim como das depressões psicóticas.

    A chantagem afetiva

    Como exemplo, o atentado à vida através do suicídio, na condição depressiva neurótica, são intactas as marcas das reações às dificuldades e nas histerias, há atitudes encenadas teatralmente com o objetivo de despertar a atenção do objeto de amor e ao mesmo tempo evitar a vivência do abandono temida.

    Dessa forma, podemos dizer o quanto a chantagem afetiva é algo prejudicial, fazendo com que a experiência do suicídio, primeiramente não intencionada pelo sujeito, possa ser cometida. Apesar de ruim, o suicídio neurótico, ao ser comparado com o suicídio melancólico, neste, encontramos outro significado.

    Na melancolia, o suicídio é carregado do desejo de destruir a pulsão de morte, com a expressão do ódio do Superego na destruição do Ego.

    Melancolia e seu mecanismo psíquico

    Nesta dinâmica, conforme Freud (1917), podemos identificar uma relação sujeito-objeto pautada por grande fragilidade e ambivalência. Quando há o rompimento desta relação, a libido, ao invés de ser deslocada para outro objeto, é direcionada para o Eu, ocorrendo uma regressão narcísica, uma identificação desse Eu com o elemento dotado de amor perdido e abandonado.

    Este mecanismo se inicia com o luto pela perda do objeto, e se conclui através de um fenômeno de identificação narcísica, onde a pessoa estabelece a mesma relação tida com o objeto para consigo mesma.

    Esta identificação significa uma tentativa do melancólico em recuperar o elemento de amor perdido. Sendo assim, o objeto é recuperado e devorado através do modelo ambivalente da identificação canibal, isto é, da identificação por incorporação oral.

    Conclusão

    Neste sistema, uma vez que o objeto é internalizado para ser mantido e protegido no interior do indivíduo, ao mesmo tempo, este objeto é destruído. Esta modalidade de identificação, conforme Fedida (1999), é carregada de ambivalência do sadismo oral, surgindo então a pulsão de morte no viver do melancólico.

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    Referências

    BIN, Kimura. Fenomenologia da depressão estado-limite. Revista Latino Americana de psicopatologia Fundamental. São Paulo. I (3): 11 – 32, 1998. FEDIDA, Pierre. O canibal melancólico. In: Fedida, P. Depressão. São Paulo: Escuta, 1999. LAPLANCHE, Jean. Introduction. In: Freud, S. Nevrose, Psychose et perversion. Paris: Puf, 1973. ROCHA, Zeferino (2008). Para uma abordagem estrutural da depressão: contribuições freudianas. In: Psyche. São Paulo, v. 12, n. 23.

    O presente artigo foi escrito por Lais Regina dos Santos([email protected]). Formada em psicologia clínica pela Universidade São Marcos.

     

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