Uma análise da fantasia compensatória nos personagens de Charles Dickens, revelando traços psíquicos de culpa, desejo e redenção.

Charles Dickens e a Fantasia Compensatória: Entre a Culpa, o Desejo e a Redenção

Publicado em Publicado em Literatura e Psicanálise

Neste artigo, exploramos como a fantasia compensatória se manifesta na obra de Charles Dickens, revelando personagens atravessados por traumas, recalques e desejos não simbolizados. A partir de uma leitura psicanalítica, analisamos figuras como Scrooge, Pip, Oliver Twist e Sydney Carton, investigando como suas histórias encenam o conflito entre o inconsciente ferido e a promessa de redenção simbólica.

O infantil reprimido e o fantasmático social em Dickens

A obra de Charles Dickens é um campo fértil para o olhar psicanalítico, não apenas pela complexidade de seus personagens, mas pelo modo como seus traumas individuais se confundem com a estrutura repressiva da sociedade vitoriana.

Este artigo analisa, à luz da psicanálise freudiana e pós-freudiana, as figuras de Ebenezer Scrooge (Um Conto de Natal), Pip (Grandes Esperanças), Oliver Twist e Sydney Carton (Um Conto de Duas Cidades), compreendendo-as como manifestações do inconsciente ferido e da fantasia como mecanismo de defesa. A metodologia utilizada é a análise interpretativa, com base textual e referencial teórico da psicanálise de Freud, Lacan e Winnicott.

O teatro do inconsciente em Dickens

Charles Dickens não apenas escreveu romances: ele esculpiu psicologias. Os personagens que criou são entidades atravessadas por culpa, perda, desejo e negação — afetos centrais ao discurso psicanalítico.

Desde a infância como lugar de origem traumática até a redenção como promessa simbólica, Dickens monta, romance após romance, um teatro do inconsciente. Como aponta Freud, o que é recalcado retorna sempre — e o retorno do recalcado é o motor trágico de Dickens.

Scrooge e a encarnação do superego

A figura de Scrooge, o avarento de Um Conto de Natal, é a encarnação do superego punitivo. Sua relação com o prazer é marcada pela negação:

Se eu pudesse fazer valer minha vontade”, disse Scrooge, indignado, “todo o imbecil que sai por aí com ‘Feliz Natal’ nos lábios deveria ser fervido em seu próprio pudim e enterrado com um ramo de azevinho cravado no coração”.

A frase é citada fielmente à edição original. O prazer alheio o ofende porque há nela uma ferida narcísica. O tempo — representado pelas visitas dos fantasmas — é psíquico, não cronológico.

O Espírito do Natal Passado reativa memórias infantis que, na leitura de Winnicott, são ambientes transicionais perdidos. Scrooge não é apenas um velho ranzinza: é uma criança abandonada e nunca perdoada.

Pip e a fantasia compensatória da ascensão

Em Great Expectations, Pip deseja ser “um cavalheiro” — uma tentativa de recalcamento de suas origens humildes e de distanciamento de Joe, pai simbólico. A frase “Eu queria que o Joe tivesse sido criado de modo mais gentil e refinado, e então eu também teria sido” revela um Eu dominado pela vergonha, deslocado de sua origem.

A ascensão social funciona como fantasia compensatória. Como observa Lacan, o sujeito se funda num lugar de falta — Pip projeta no outro Ideal (Estella, a alta sociedade) e se aliena de sua verdadeira identidade. A “grande expectativa” torna-se sintoma.

Oliver Twist e o desejo de reconhecimento

Oliver é o arquétipo do puro num mundo corrompido. Mas essa pureza é genuína ou negação do real? Ao dizer “Por favor, senhor, eu quero mais”, ao ser espancado, Oliver rompe com o pacto de silêncio da opressão infantil.

O pedido transcende a fome: é um clamor por reconhecimento. Fagin aparece como o duplo sombrio do pai: sedutor e destrutivo, liderando uma “família” paralela de meninos. Freud destaca que o desejo infantil reprimido muitas vezes se torna sexualizado ou criminalizado, e Oliver transita por esses espaços ambíguos como objeto de desejo e recusa.

Sublimação e reparação em Sydney Carton

Carton é o sujeito dividido. Sua frase final, original e autêntica na obra de 1859, é:

É uma coisa muito melhor que eu faço do que nunca fiz; é um descanso muito melhor que eu conheço do que nunca conheci“.

Esta não é heroicidade simples, mas reconfiguração do Eu por meio do sacrifício. O ato final de Carton pode ser lido como sublimação no sentido freudiano — transformação da pulsão destrutiva em gesto de redenção.

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A troca de identidade com Darnay também é gesto narcisista: só pode amar Lucie transformando-se em outro. Carton habita o universo do ideal, não o real, e é trágico porque seu desejo é impossível.

A infância como trauma e esperança

Os personagens de Dickens vivem entre o real e o imaginário. São, cada um à sua maneira, sujeitos em conflito com a ordem simbólica.

A infância, em Dickens, é o local do trauma inaugural, da perda e do desejo de reparação — e é também o lugar da esperança, esse último bastião do humano contra a máquina social.

Dickens e a estrutura do psiquismo

A leitura psicanalítica dos personagens de Dickens revela que seus romances não apenas entretêm: eles dramatizam a estrutura do psiquismo, suas feridas e suas defesas. O fantasma, o órfão, o pobre, o ingrato e o redimido — todos são nomes do sujeito em busca de sentido.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista famíliar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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