Este artigo propõe uma leitura psicanalítica de A Metamorfose, de Franz Kafka, como a narrativa de um sujeito que deixa de ocupar um lugar no discurso para tornar-se objeto do gozo do outro. Gregor Samsa, ao acordar transformado em um inseto, realiza a fantasia inconsciente de desaparecer, não como morte simbólica, mas como exclusão absoluta do laço social.
A psicanálise permite pensar essa condição como retorno do real no corpo, efeito de um superego esmagador e de um desejo que nunca pôde ser nomeado. Kafka escreve, assim, o avesso do sujeito: aquele que não sustenta mais um nome, nem um lugar.
O corpo como sintoma e a linguagem interrompida
Gregor Samsa acorda e já não é mais humano. A cena não é construção simbólica, mas irrompimento: o sujeito é lançado na condição de resto. A Metamorfose não narra uma transformação progressiva, ela começa pelo fim. Kafka inverte a lógica do desenvolvimento e introduz o sujeito diretamente na cena do impossível.
A escuta psicanalítica permite ler esse início como metáfora do desaparecimento subjetivo. O corpo de Gregor se torna linguagem interrompida: ele tenta falar, mas emite ruídos; tenta se mover, mas escorrega. Não é só a pele que muda, mas o laço com o outro que se rompe. Gregor torna-se o que Lacan chamaria de “objeto a”, aquilo que o desejo quer, mas não pode suportar.
A fantasia inconsciente e o retorno do real
Freud já afirmava que os sintomas carregam sentido, ainda que distorcido. Mas em Gregor não há mais sintoma: há corpo. A transformação em inseto é a realização alucinatória de um desejo nunca admitido: o desejo de parar. De não mais ser o que se esperava dele. De deixar de funcionar.
Gregor não apenas perde o corpo humano, ele perde o nome. A família para de chamá-lo, a linguagem se desfaz. Ele não morre, mas desaparece no simbólico. Essa desintegração é o que Lacan chamou de foraclusão: o retorno no real do que foi excluído do simbólico. Gregor se torna corpo puro, e como tal, abjeto, impossível de representar.
Superego, gozo e estrutura familiar
O lugar que Gregor ocupa na família é o de sustentáculo, função fálica imaginária que encobre a castração dos outros. Quando ele “cai”, todos se reorganizam. A irmã floresce, o pai reassume a autoridade, a mãe respira. Gregor era o sintoma da família, quando ele explode, a estrutura se revela.
O olhar psicanalítico mostra que Gregor não é rejeitado por ser inseto, mas porque encarna o excesso. O gozo que não serve a ninguém. O superego familiar exige seu sacrifício e ele obedece. A pulsão de morte não é ativa, mas passiva: Gregor definha porque não há mais quem o escute. Como sujeito, ele não é mais necessário.
A angústia como linguagem do corpo
Gregor sente, mas não fala. Quer comunicar-se, mas é atravessado por um corpo que não se organiza. A angústia que se instalava antes – como tensão entre desejo e dever – agora se localiza no próprio corpo. É uma angústia sem nome, sem direção, que pulsa nas patas, no casulo, na impossibilidade de linguagem.
Freud dizia que a angústia é sem objeto. Em Kafka, ela é o próprio objeto. Gregor vira aquilo que o outro não quer ver. A sua existência é ofensa, resto, excesso. A sua morte é alívio. Não há luto, nem ritual. Apenas uma manhã clara e a vida que segue.
Fantasia inconsciente e a dissolução do sujeito
Gregor não é trágico, é real. A sua metamorfose é a encarnação de um sujeito que se dissolve sob o peso do desejo do outro. Kafka não escreve sobre monstros, mas sobre o insuportável de ser. A psicanálise encontra, nesse livro, a materialização de um sujeito em ruína: sem palavra, sem escuta, sem outro que o sustente.
Gregor morre como viveu: em silêncio e o mundo agradece.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
