Descubra como o gozo do tempo em Tarkovsky revela um cinema do inconsciente marcado por silêncio, trauma e memória.

Gozo do Tempo e o cinema de Tarkovsky: entre memória, trauma e silêncio

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Vamos explorar como o gozo do tempo no cinema de Andrei Tarkovsky transforma a experiência fílmica em uma imersão no inconsciente. A partir de filmes como O Espelho, Solaris e Stalker, discutiremos como a estética da lentidão, a memória e o trauma se entrelaçam, revelando uma obra que ultrapassa a narrativa convencional e mergulha na subjetividade psíquica.

Andrei Tarkovsky (1932–1986) transformou o cinema em uma experiência quase mística, sensorial e ontológica. Em obras como “O Espelho”, “Solaris”, “Stalker” e “O Sacrifício”, o tempo escorre como matéria, a narrativa se dissolve em fragmentos, e a imagem se repete de forma ritualística. Os seus filmes não se sustentam sobre ações objetivas, mas sobre estados de contemplação, espera, reminiscência e silêncio.

Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da obra de Tarkovsky, considerando-o um cineasta do inconsciente em tempo real. Os seus filmes não apresentam uma história tradicional, mas encenam a crise do sujeito dividido, tensionado entre um passado irrepresentável e um presente marcado pela falha do simbólico. A imagem torna-se, assim, o que persiste quando o significante falha: um resto, uma inscrição do real.

O Pai como Fantasma Estrutural

A figura do pai é um elemento estrutural na obra de Tarkovsky. O seu próprio pai, Arseny Tarkovsky, poeta e presença ausente, abandonou a família quando Andrei ainda era jovem. Essa ausência simbólica marca profundamente sua filmografia, onde o pai não aparece como personagem pleno, mas como espectro, como falta que estrutura o desejo.

Em “O Espelho” (1975), essa ausência é encenada por meio de uma montagem fragmentária, que opera como uma cadeia associativa própria ao inconsciente. A memória infantil se apresenta não como linha narrativa, mas como campo de ruínas: imagens justapostas, sem ordem cronológica, em que a tentativa de organização do passado fracassa constantemente. A estrutura do filme não é narrativa, mas psíquica, uma sucessão de cenas oníricas, deslocamentos e lapsos.

No nível simbólico, a ausência do pai corresponde à ausência do “Nome-do-Pai” lacaniano: o significante que organiza o desejo e garante a entrada do sujeito na linguagem. Tarkovsky, por meio da imagem, busca nomear o indizível. Filma para preencher uma falta, para reconstituir um pai perdido, não por representação direta, mas por evocação espectral.

A Imagem como Gozo do Tempo Suspenso

O tempo, nos filmes de Tarkovsky, não é apenas um elemento formal: é substância psíquica. As suas cenas são longas, dilatadas até o limite da contemplação, e sua câmera permanece fixa como se recusasse o corte. Essa lentidão não é estilo; é sintoma. Ela reflete uma tentativa de suspender o tempo objetivo para acessar o tempo subjetivo do inconsciente.

Segundo Lacan, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, mas ele também é atemporal. Tarkovsky captura essa temporalidade psíquica por meio de imagens que não avançam em direção à ação, mas que rumam à repetição e ao retorno. A obsessão pelo instante suspenso revela o desejo de fixar o momento anterior à perda, anterior à castração simbólica.

Essa estética do tempo lento é uma forma de gozo: não o prazer simples, mas o gozo lacaniano, aquilo que ultrapassa o princípio do prazer e se encontra no excesso. Tarkovsky encena o gozo do tempo parado, o desejo de permanecer no instante que antecede a queda no simbólico, quando o real ainda pulsa.

A Casa, o Sonho, o Trauma

A espacialidade em Tarkovsky é sempre psíquica. Casas, quartos, zonas interditadas – todos esses espaços são metáforas do inconsciente, campos onde o sujeito se confronta com aquilo que não pode ser simbolizado. A casa, em particular, é uma imagem recorrente: nunca é lar, mas ruína, escombros de uma infância perdida.

Em “Stalker” (1979), os personagens adentram a “Zona”, um território ambíguo onde os desejos mais profundos supostamente se realizam. Contudo, ninguém sabe exatamente o que deseja. A Zona encarna perfeitamente a lógica do inconsciente: um espaço onde a verdade não se diz, mas se insinua; onde a realização do desejo confronta o sujeito com sua própria alienação.

O lar, em Tarkovsky, é sempre problemático: retorna como sonho ou como trauma. A imagem da casa não remete à segurança, mas à repetição do vazio. Uma tentativa fracassada de reconstituir a origem perdida, o espaço mítico anterior à divisão subjetiva.

Conclusão

Tarkovsky não filma o mundo exterior, mas o drama interno do sujeito diante da falha de sentido. A sua câmera não registra eventos, mas sonha, sonha com o impossível de representar. O tempo, em sua obra, implode; a narrativa se desmancha em lembranças; o espaço se dobra sobre si mesmo.

A estética da lentidão, os espelhos, os planos fixos, o silêncio insistente – tudo em Tarkovsky aponta para um cinema do inconsciente. Ele não oferece respostas ou explicações: oferece imagens que operam como restos psíquicos, vestígios de um real que escapa à linguagem.

O seu cinema é um convite à escuta do que o significante não cobre, do que resta quando o simbólico falha. Tarkovsky filma o sujeito em sua deriva entre o trauma e o desejo, entre a imagem e a memória, entre o tempo e sua suspensão.

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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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