Nome-do-Pai e o sujeito contemporâneo revelam no filme a experiência amorosa, o gozo feminino e a compulsão à repetição.

Nome-do-Pai e o Sujeito Contemporâneo: uma leitura psicanalítica de O Cavaleiro de Copas

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“O Cavaleiro de Copas”, dirigido por Terrence Malick, é mais do que um filme sobre um homem em crise. É uma obra sensorial, fragmentária, em que a narrativa tradicional cede lugar à experiência de uma subjetividade esvaziada. Rick, o protagonista (vivido por Christian Bale), atravessa paisagens externas e internas, sem conseguir se fixar a nenhuma. O filme é um espelho de um sujeito que perdeu o centro simbólico e gira em torno de um real que não cessa de retornar. Este artigo propõe uma leitura psicanalítica de “O Cavaleiro de Copas”, articulando as noções de desamparo, gozo, Nome-do-Pai e imaginário contemporâneo. Malick constrói um filme que se aproxima do modo de funcionamento do inconsciente: livre associação, temporalidade dilatada, significantes soltos, voz em off como discurso do outro.

A crise do Nome-do-Pai e o sujeito sem bússola

A figura do pai é central na economia psíquica do filme. Lacan sustenta que o “Nome-do-Pai” é o significante que introduz a lei, permitindo ao sujeito se organizar simbolicamente. No filme, Rick é um sujeito “órfão” – não no sentido literal (seu irmão morreu; a sua relação com o pai é distante e falha), mas simbólico.

Sem o “Nome-do-Pai” que o situe, Rick se vê lançado em uma sucessão de experiências amorosas, profissionais e sensoriais sem ancoragem. O mundo ao seu redor – Los Angeles, Las Vegas, o deserto – é belo, mas inóspito. O excesso de imagens, corpos e luzes apenas acentua o seu vazio.

A ausência de um eixo simbólico o transforma em um sujeito errante, marcado pelo desamparo primordial, como descreve Freud: um estado psíquico de exposição absoluta ao desejo do outro. Rick é aquele que não fala – ele escuta vozes, vagueia, observa. O seu silêncio é o sintoma da falha de inscrição simbólica.

A forma fragmentada e o inconsciente em imagens

“O Cavaleiro de Copas” é um filme que abdica da linearidade. A sua montagem é feita por blocos associativos, memórias justapostas, imagens desconexas. Essa forma espelha o modo de funcionamento do inconsciente freudiano, que opera por condensações, deslocamentos, falhas de sentido.

Lacan afirma que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, mas o filme mostra um estágio anterior: o inconsciente como fragmento de imagens e afetos que não se articulam em narrativa. A ausência de causalidade, a voz em off que se contradiz, os rostos que passam sem se fixar, tudo isso nos coloca diante de um sujeito cuja cadeia significante está quebrada.

A linguagem aqui é mínima, esvaziada. Não há diálogo no sentido dramático tradicional. A voz em off é fluxo do Supereu, eco do desejo do outro, ou puro murmúrio do real. A imagem substitui o significante, mas não o organiza. Ela perturba.

Experiência amorosa e repetição do trauma

Rick se envolve com várias mulheres ao longo do filme. Cada uma é apresentada como uma carta do tarô, como um arquétipo: A Irmã, A Amante, A Tentadora, A Santa. Mas nenhuma dessas figuras se sustenta como outro consistente.

A mulher, no universo do filme, é o que Lacan chamaria de “não-toda” – ela representa o gozo feminino, aquele que escapa à lógica fálica. Rick não as ama, ele as contempla, se aproxima e se afasta, buscando nelas o que falta em si mesmo: um eixo, um sentido.

No entanto, cada relação amorosa apenas reinscreve a repetição de um trauma: o de não poder se ligar ao outro. Freud fala do “retorno do recalcado” como compulsão à repetição. Rick repete, não porque deseja, mas porque não consegue simbolizar a perda.

Estética do gozo e a imagem como sintoma

Malick filma o mundo como quem sonha: luzes filtradas, câmeras em movimento contínuo, silêncios que gritam. A estética visual do filme é uma tentativa de capturar o indizível, o que excede a palavra. Isso aproxima a sua obra da lógica do sintoma lacaniano: aquilo que o sujeito repete como forma de gozar, ainda que não compreenda.

O excesso de beleza em “O Cavaleiro de Copas” não gera prazer, gera estranhamento. O deserto e o luxo, o concreto e o céu, o corpo e o nada. Tudo é excesso. Lacan nomeia isso de gozo: aquilo que não é prazer, mas insistência do real no simbólico. O filme é belo porque falha e é nesse fracasso de significar que ele se torna profundo.

Silêncio, ato e possibilidade de saída

Em seu percurso, Rick parece caminhar não para uma redenção religiosa ou romântica, mas para uma possível escuta. No final do filme, há menos dispersão visual, mais tempo, mais silêncio. Ele vai ao deserto.

O deserto é o real: o que não tem representação. E é lá que Rick silencia. Lacan propõe que o sujeito pode se responsabilizar por seu desejo ao operar um ato, não uma fala ou uma escolha moral, mas uma decisão subjetiva radical.

Não sabemos o que Rick fará. Mas ele para. E nesse gesto, talvez, a deriva encontre um limite. O filme se encerra, não com uma resposta, mas com a possibilidade de um reposicionamento do sujeito diante do gozo.

O sujeito contemporâneo diante do vazio

“O Cavaleiro de Copas” é uma fábula psicanalítica do sujeito contemporâneo: descentrado, hipervisual, em busca de um outro que não responde. Através de sua linguagem poética e fragmentária, Malick constrói uma obra que encena a falha do simbólico e a presença inquietante do real.

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Rick não é herói, não é mártir. É apenas um sujeito tentando escutar – no meio do ruído, da luz, do vazio – alguma verdade que o reinscreva no desejo.

A Psicanálise encontra, nesse filme, não apenas um objeto de análise, mas um espelho: ele mostra a imagem estilhaçada do sujeito moderno, e talvez nos lembre de que o sentido não está dado. Ele deve ser conquistado ou talvez apenas desejado.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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