Homossexualidade: concepção da Psicologia e da Psicanálise

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Este artigo aborda a temática da homossexualidade nas concepções da Psicologia e da Psicanálise.

1. Homossexualidade na concepção psicológica

O que determina a sexualidade do ser humano ainda é uma grande incógnita, há autores que declaram ser a mente responsável por essa situação, outros chegam a dizer que os genes são preponderantes, ainda outros que pode ser o meio em que vivem, enfim veremos qual o posicionamento de mais uma ciência de extrema importância.

Papalia (2013, p. 89) acrescenta que os “cromossomos sexuais são cromossomos X ou cromossomos Y. O cromossomo sexual de todo óvulo é sempre X, mas o espermatozoide pode conter um cromossomo X ou um cromossomo Y. O cromossomo Y contém o gene para a masculinidade, chamado gene SRY”. Dessa forma podemos perceber que os genes são necessários para o desenvolvimento da sexualidade de todo ser humano, o cromossomo Y contém o gene da masculinidade, e o homem é que determina o sexo do bebê.

 

Homossexualidade como doença?

Existem passos para quebra de paradigmas quanto a homossexualidade na área das ciências comportamentais, por exemplo, a 10ª edição de classificação internacional de doenças – CID-10 (OMS, 1993) e a quarta edição do manual de diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – DSM-IV (APA, 1995) excluíram a homossexualidade da classificação de “doença”.

A homossexualidade não pode ser classificada como uma doença, se assim o fosse em tempos passados, quantos milhares de doentes homossexuais existem, seria assim por considerar uma epidemia, ou mesmo uma banalização do comportamento heterossexual, outros classificariam como uma perversão da moral humana.

 

Visão médica e científica sobre a Homossexualidade

Fry (1985, p. 46) chega a dizer que “podemos perceber que a medicina atuava e continua a agir politicamente no que diz respeito à homossexualidade. A partir do século XIX, ao tachar os homossexuais de doentes, ela justificou sua ‘cura’, sua ‘conversão’ em heterossexuais”.

Esse tipo de tratamento era forçoso como já falamos sobre um dos métodos de Freud no capítulo passado, fazê-los terem relações com o sexo oposto, de forma que eles tinham total aversão pelo mesmo.

A formação do comportamento reprodutor apresenta algumas diferenças, que são “os circuitos que integram os comportamentos reprodutores apresentam diferenças anatômicas e neuroquímicas entre machos e fêmeas, sendo o padrão básico o feminino, enquanto o padrão masculino se estabelece durante o período crítico perinatal e depende da presença de testosterona”. (LEON, 2013, p. 234)

 

Uma crítica à ideia de cura da homossexualidade

Sempre houve o pensamento que é possível reverter, curar, o comportamento homossexual considerado como um desvio de conduta, para poder ser heterossexual, “[…] a obsessão com a sexualidade normalizante, através de discursos que descrevem a situação homossexual como desviante” (BRITZMAN, 1996, p. 79).

Existe por parte de alguns até mesmo uma possível obsessão para que a cura gay aconteça, mas de acordo com o que estamos percebendo, isso foge da vontade heterossexual.

Leon (2013, p. 234) salienta que “à semelhança dos circuitos neurais relacionados com a organização do comportamento de defesa, estruturas localizadas no mesencéfalo são essenciais para a expressão dos comportamentos sexual e materno/paterno”. Para alguns outros a mente é responsável pelo comportamento homossexual, pois é nela onde estão armazenadas todas as iniciativas homossexuais, mais através da citação de Leon descobrimos que a mente deles se comporta de forma parecida e até semelhante à mente de qualquer outra pessoa.

Parece um pouco desafiador aceitar que tais pessoas possam ter a capacidade materna paternal diante de futuras gerações sobre o seu comando, mas a ciência comportamental demonstra que eles podem exercer o papel de pai e de mãe.


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No cérebro há uma área pré-optica medial, na qual exerce o papel maternal, e pode ser estimulados com hormônios gonodais, para que possam exercer o papel maternal até então desconsiderado e impossibilitado por muitos, mas o mesmo local se for lesado pode abolir essa possibilidade.

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Diferentes abordagens sobre a Sexualidade Infantil

Podemos ampliar o conceito sexual através de recentes descobertas sobre a sexualidade infantil “as preferências sobre o sexo aumentam entre primeira infância e a terceira infância, e o grau de comportamento sexual exibido nessa idade é um forte indicador de comportamento futuro baseado no gênero” (PAPALIA, 2013, p. 288).

Trataremos de diferentes abordagens para expor argumentos diversos sobre a temática:

 

1. Abordagem Biológica

Atesta para o fato de um distúrbio chamado hiperplasia congênita (CAH), pode ocorrer com meninas, onde são encontrados vários níveis pré-natais de andrógeno, hormônio sexual masculino, as mesmas desenvolvem comportamentos masculinizados, brincam com brinquedos de homens, interagem na maioria das vezes com meninos e tem habilidades masculinas, como habilidades espaciais (PAPALIA, 2013, p. 290).

 

2. Abordagem Cognitiva

Na suposição criada por Kohlberg, o fato de conhecer o gênero pode preceder o comportamento de gênero (PAPALIA, 2013, p. 292). Nessa teoria existe a possibilidade de saber o que é para depois se comportar de acordo com o que é homem ou mulher.

 

3. Abordagem Psicanalítica

“A identidade de gênero se estabelece quando à criança se identifica com o genitor do mesmo sexo” (PAPALIA, 2013, p. 290). Nessa posição psicanalítica a criança deverá ter contato frequente com o sexo oposto, genitor, para poder desenvolver essa identidade masculina ou feminina.

 

4. Abordagem Social

“A teoria da aprendizagem social prevê que as crianças que veem muita televisão ficarão mais tipificadas por gênero ao imitarem os modelos estereotipados que aparecem na tela” (PAPALIA, 2013, p. 295). A mídia tem uma capacidade incrível de formação de opinião e também poderíamos dizer de gênero, pois apresenta programas diversos, onde são incluídas cenas e situações para crianças em desenvolvimento, mental, físico, espiritual e social.

 

5. Abordagem Cultural

“A consciência da sexualidade é um aspecto importante da formação da identidade que afeta profundamente a autoimagem e os relacionamentos. Embora esse processo seja impulsionado biologicamente, sua expressão é, em parte, definida culturalmente” (PAPALIA, 2013, p. 427). O meio em que a pessoa vive pode extrair comportamentos homossexuais ou heterossexuais, na adolescência que a orientação sexual de qualquer pessoa pode se tornar uma questão importante.

 

A homossexualidade pela concepção Psicanalítica

A psicanálise tem seu próprio método de ver as coisas que estão a priori escondidas no mais profundo do ser humano, com suas técnicas analíticas de conversação têm obtido resultados significativos em diversos pacientes.

A psicanálise tem como crença que o desejo é ao mesmo tempo culpado e necessário ao homem. Não se pode dissociar uma coisa da outra, as duas situações estão interligadas e preambuladas entre si. O ser humano nasce com libido, que pode ser destacado também como desejo, para Freud ele pode ser considerado culpado em algumas situações, enquanto em outras pode ser classificado como totalmente necessário.

Freud remonta a comportamentos atuais como sendo resultado de gerações passadas, reproduzidos na atualidade. Nada do que está acontecendo hoje é inovador, é sempre copiado, reproduzido de tempos passados e aperfeiçoados em tempos presente.

A homossexualidade não é uma descoberta de tempos presente, ela existe desde os primórdios da história humana, como veremos na concepção teológica.

 

Sexologia e estudos sobre Homossexualidade

Vieira (2009, p. 4) menciona que “a sexologia, nova ciência do século XIX, esmerada na tarefa positivista de classificar ‘tipos’ e comportamentos sexuais, contribuiu para produção da homossexualidade”.

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Segundo Foucault (1998, p. 42, 43) “A homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi transferida, da prática da sodomia, para uma espécie de alma. O sodomita era um reincidente, agora o homossexual é uma espécie”. Em outras situações o homossexual era chamado de sodomita, uranista, invertido, Freud em suas obras classifica de inversão.

A grande questão é que o recém-nascido traz consigo germes de moções sexuais, que são desenvolvidas durante algum tempo, depois sofre supressão progressiva, que pode ser quebrada por avanços do desenvolvimento sexual ou interrompida por suas peculiaridades individuais (BERNARD, 2010, p.86).

Klein afirma que as pulsões genitais surgem a partir da segunda metade do primeiro ano de vida. E, a partir desse momento, as pulsões genitais femininas são acompanhadas de um conhecimento inconsciente da vagina e da sua função receptiva (Klein, 1928/1970).

 

Complexo de Édipo

Freud destaca em suas obras o conceito do complexo de Édipo, que é elaborado através de uma releitura do mito do Sófocles.

No mito de Sófocles Édipo é prefigurado como aquele que tomaria o lugar do pai no reinado e ainda casaria com a própria mãe, sendo dois crimes hediondos para os gregos, parricídio e incesto. O rei sabendo dessa profecia por um oráculo ordena a um de seus servos a levar a criança e matá-la, o servo leva a criança e não assume as ordens do rei de eliminá-la.

Dessa forma cuida da mesma e cria até a maioridade, quando jovem provoca guerras contra o rei, mata-o e depois assume o reinado e casa com sua própria mãe, detalhe, sem saber que era sua mãe.

O Complexo de Édipo significa uma fase que todas as crianças passam na primeira infância, quando, por exemplo, menino sente paixão pela mãe e ciúme do pai como seu concorrente pelo falo, objeto desejado entre os dois à mãe. São situações normais no desenvolvimento da criança, quando não vivenciadas essas fases, podem acarretar consequências diversas.

 

Homossexualidade pela ótica edipiana

A dissolução do complexo de Édipo concretiza a masculinidade no menino. Na menina, pode ser uma identificação com a mãe ou, após ter abandonado o pai como objeto de amor, a certificação em primeiro plano de seu complexo de masculinidade e a identificação ao pai. (FREUD, 1923, p.20)

“Os estágios iniciais do conflito edipiano acham-se tão fortemente dominados pelas fases pré-genitais, que a fase genital, quando entra em atividade, permanece dissimulada, só mais tarde, entre os três e os cinco anos, torna-se mais claramente reconhecível” (KLEIN, 1928, p. 43).

A inversão do Édipo é um possível causador da homossexualidade, como declara Lacan (2002, p. 120), “há uma participação da função dita inversa do Édipo na solução normal que é apesar de tudo um momento posto em evidencia”.

Freud traz à tona uma declaração muito importante:

“Sabe-se bem que, mesmo em uma pessoa normal, leva algum tempo antes de se tomar finalmente a decisão com referência ao sexo do objeto amoroso. Entusiasmos homossexuais, amizades exageradamente intensas e matizadas de sensualidades são bastante comuns em ambos os sexos durante os primeiros anos após a puberdade”. (FREUD, 1920, p. 106, 107)

Ele quer dizer que a pessoa ainda está em formação, sendo desenvolvida após a puberdade, podem surgir dúvidas quanto ao gênero e também a respeito do objeto desejado.

 

Sexualidade e homossexualidade pela ótica de Lacan

Lacan (2002, p. 390), afirma que “o desenvolvimento da análise nos mostra que a homossexualidade esta bem longe de ser uma exigência instintual primordial. Eu quero dizer identificável com uma pura e simples fixação ou desvio do instinto”. Ele considera a homossexualidade distante de uma possibilidade de ser prefigurada como um mero instinto.

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Como podemos diferenciar a homossexualidade masculina da feminina, eis a questão que diz: “a homossexualidade masculina, conforme a marca fálica que constitui o desejo, constitui-se na vertente deste, e que a homossexualidade feminina, em contrapartida, como mostra a observação, orienta-se por uma decepção que reforça a vertente da demanda de amor”. (LACAN, 1998, p. 702)

 

Zonas erógenas e Narcisismo

É preciso entender também a possibilidade de ser abusado por algum dos genitores e dessa forma vir a desencadear a homossexualidade como mesmo enfatiza Freud (1920, p.103), “por trás de sua pretensa consideração pelos genitores, por amor dos quais dispusera-se a efetuar as tentativa de transformação, jazia escondida sua atitude de desafio e vingança contra o pai, atitude que a fizera aferrar-se ao homossexualismo”.

Pode-se entender mais sobre o desencadeamento da homossexualidade a partir da perspectiva da excitação de zonas erógenas na criança como a mucosa, o ânus, a vagina, essas áreas se forem estimuladas ainda quando criança pode-se ter um desejo exacerbado em tais áreas, é o que supõe Bernard (2010, p. 92, 93), “o alvo sexual da pulsão infantil consiste em provocar a satisfação mediante a estimulação apropriada da zona erógena que de algum modo foi escolhida […] tal como a zona dos lábios, a zona anal está apta, por sua posição, a mediar um apoio da sexualidade em outras funções corporais”.

Existe o conceito Narcísico, que é uma lenda onde o mesmo não podia ver a sua própria imagem refletida, tamanha beleza, se vise poderia vir a óbito. Dessa forma é ilustrada a pretensão homossexual pela busca de si mesmo em outro, “o termo da homossexualidade incluído com insistência na teoria freudiana designa invariavelmente a escolha de objeto homossexual: eles procuram a si mesmo como objeto de amor, porque a escolha narcísica de objeto homossexual é sempre mediatizada por sua própria imagem”. (VIEIRA, 2009, p.20)

A possibilidade de reversão da homossexualidade para o heterossexualidade é apontada por Freud (1920, p. 95) de uma maneira até um pouco forçosa “a remoção da inversão genital ou homossexualismo nunca, pela minha experiência, é matéria fácil. Pelo contrário, só achei possível o êxito em circunstâncias especialmente favoráveis e, assim mesmo, o sucesso consistia essencialmente em facilitar o acesso ao sexo oposto”. Ele mesmo declarou que não é fácil e visto atualmente é uma ferramenta que está em desuso.

Este artigo sobre Homossexualidade nas concepções da psicologia e da psicanálise foi escrito por Rodrigo Coelho, especialmente para o blog do Curso Psicanálise Clínica. Sobre o autor: Rodrigo Coelho é teólogo pelo SALT FADBA, pós graduado em Psicanálise pela Faculdade Futura. Contato do autor: ag.rodrigocoelho@hotmail.com

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