Albert Camus, em O mito de Sísifo, propõe uma filosofia do inconsciente do absurdo em resposta à experiência do vazio existencial. Este artigo visa articular esse mito à escuta psicanalítica, explorando como a repetição, o sofrimento e a negação de sentido também estruturam o inconsciente. Partindo da figura trágica de Sísifo, interrogamos o lugar do desejo, do gozo e da pulsão de morte na constituição do sujeito que persiste diante do sem sentido da existência. Ao final, é explorada a convergência entre suicídio e psicanálise, interrogando o lugar do ato em sua potência destrutiva e subjetivante.
Camus, o Suicídio e o Início da Filosofia do Absurdo
Albert Camus, em sua obra filosófica O Mito de Sísifo, parte de uma pergunta radical: “Não há senão um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”.
A partir desse ponto inaugural, Camus delineia a noção de absurdo: o confronto entre o desejo humano por sentido e a mudez indiferente do mundo. Esse impasse existencial, ainda que formulado em termos filosóficos, ressoa de modo profundo na psicanálise – especialmente na obra de Freud – que lida com o sofrimento, o desejo e a repetição como elementos estruturais da subjetividade. Ao reler Camus à luz da psicanálise, revela-se não apenas um entrelaçamento conceitual, mas uma aproximação ética diante do sofrimento humano.
O Inconsciente do Absurdo e a Lógica Pulsional
No cerne da teoria freudiana, o inconsciente não é um lugar de sentido pleno, mas de insistência e repetição. Em Além do Princípio do Prazer, Freud introduz a hipótese da pulsão de morte, que empurra o sujeito para além da busca de prazer, rumo a uma repetição que pode ser destrutiva: “A compulsão à repetição […] parece possuir algo de mais primitivo, mais elementar e mais instintivo do que a tendência ao prazer”.
É nesse ponto que a imagem de Sísifo – condenado pelos Deuses, a empurrar eternamente uma pedra montanha acima, pagou o preço por tê-los afrontado – torna-se emblemática. A sua tarefa ou penalidade não tem finalidade, apenas repete-se e essa repetição ecoa a lógica pulsional descrita por Freud.
Contudo, Camus recusa o niilismo. Para ele, o absurdo não conduz à desistência, mas à lucidez rebelde. A sua célebre conclusão ressignifica o mito: “O esforço para atingir as alturas basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”. Essa citação retirada do livro nos mostra que não se trata de encontrar sentido, mas de afirmar a existência apesar da falta dele, através da satisfação.
Repetição e Gozo no Campo Clínico
A leitura lacaniana da repetição radicaliza a noção de sofrimento ao introduzir o conceito de gozo (jouissance) como excesso, ruptura, como aquilo que escapa à simbolização. Em seu Seminário 11, Lacan afirma que: “O que repete é sempre o mesmo: a insistência do significante sobre o sujeito”.
Sísifo, nessa chave, pode ser lido como um sujeito barrado, capturado pela repetição de um ato que o liga ao objeto – a pedra – que funciona como aquilo que o causa desejo, mas nunca se integra plenamente.
No campo analítico, essa repetição não é simplesmente patológica, mas constitutiva: o sujeito retorna aos mesmos pontos de dor porque ali se localiza algo de seu desejo. A repetição é, simultaneamente, prisão e estrutura – e talvez, possibilidade de invenção.
Revolta, Subjetivação e Existência sem Sentido
Para Camus, a revolta não é um gesto heroico, mas uma escolha ética: a recusa em ceder ao desespero diante do absurdo. Trata-se de afirmar a vida, mesmo sem garantias. Nesse movimento, há uma aproximação com a clínica winnicottiana, que valoriza a capacidade de sustentar a própria existência mesmo na ausência de apoios simbólicos: “A capacidade de estar só é uma das mais importantes marcas de maturidade emocional”.
Isso se traduz na capacidade de suportar o não saber, o não sentido – de habitar o real sem tentar negá-lo. A revolta, nesse sentido, é um modo de subjetivação: não negar o absurdo, mas persistir nele como ato de criação.
Suicídio, Pulsão de Morte e Passage à l’acte
A pergunta inaugural de Camus – “vale a pena viver?” – ressurge na clínica como um enigma psíquico. Para a psicanálise, o suicídio não pode ser reduzido a um simples ato de desistência; ele pode expressar um sintoma, um comportamento impulsivo e inconsciente, por meio do qual o indivíduo manifesta conflitos emocionais ou desejos reprimidos através da ação, em vez da verbalização ou elaboração psíquica.
Trata-se de um mecanismo de defesa que emerge quando a pessoa não consegue lidar conscientemente com conteúdos mentais conflituosos. Em certos casos, pode configurar um passage à l’acte – uma passagem ao ato -, que se refere a uma ação impulsiva e repentina, na qual o sujeito age sem reflexão, frequentemente como tentativa de lidar com uma situação de angústia ou conflito interno, sem conseguir simbolizar ou elaborar essa experiência, dependendo de sua articulação com a cadeia significante.
Em Luto e Melancolia, Freud descreve a melancolia como um processo em que o sujeito volta contra si a agressividade que inicialmente era dirigida ao objeto perdido: “O paciente se vê como indigno de viver, dirige contra si a hostilidade que originalmente sentia em relação ao objeto”.
Lacan avança essa leitura ao definir o suicídio como uma expulsão do sujeito da cena simbólica. No passage à l’acte, o sujeito não fala: ele se joga fora do palco, interrompendo a temporalidade da subjetivação.
Sísifo Feliz e a Clínica da Subjetivação
Por isso, a clínica não deve moralizar o suicídio, mas escutá-lo. Muitas vezes, o desejo de morrer encobre um desejo de transformação, de mudança radical no modo de existir. A função do analista é criar espaço para que, onde havia silêncio ou destruição, surja uma posição de fala.
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Neste ponto, a imagem de “Sísifo feliz” ressoa como uma aposta ética: viver, mesmo sem sentido, é sustentar o tempo subjetivo, onde algo ainda pode ser reinventado.
Conclusão
A leitura psicanalítica do Mito de Sísifo revela o absurdo não como metáfora distante, mas como experiência íntima da existência contemporânea. O sujeito, como Sísifo, é repetitivo, dividido, sem garantias, mas ainda assim insiste.
A psicanálise, como Camus, não promete redenção. Mas oferece um lugar onde o sujeito pode nomear a sua pedra e, talvez, inventar um modo próprio de carregá-la. Persistir não é negar o absurdo, mas escolher habitá-lo com responsabilidade subjetiva. “Onde estava o id, deve advir o eu”, e talvez, onde havia apenas repetição cega, possa surgir uma forma singular de vida.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
