Thomas Mann, em A Morte em Veneza, inscreve a derrocada de um sujeito que, confrontado com a beleza absoluta, sucumbe à fascinação narcísica e à pulsão de morte. Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da trajetória de Gustav von Aschenbach, articulando os conceitos de sublimação, narcisismo e gozo. A figura de Tadzio emerge como objeto idealizado e enigmático, que mobiliza a estrutura pulsional do protagonista, expondo a fragilidade da repressão estética e do superego artístico. Ao final, discutimos como a travessia do belo à beira da morte pode ser compreendida como desnudamento do inconsciente e seus abismos.
Introdução
Em A Morte em Veneza, Thomas Mann narra o declínio psíquico de Gustav von Aschenbach, escritor reconhecido, figura moral e artística que, ao viajar para Veneza, se vê tragado por uma paixão silenciosa e obsessiva por um jovem polonês – Tadzio.
A estética contida dá lugar ao descontrole, o rigor moral à sedução do impossível. Essa narrativa, embora ambientada no início do século XX, permanece viva no campo clínico: ela retrata o momento em que o sujeito se depara com o insuportável do desejo – aquilo que Freud chamaria de “retorno do recalcado”.
Este artigo propõe uma leitura psicanalítica dessa obra como encenação da falência do Eu diante do real pulsional. Atravessaremos os conceitos de sublimação, narcisismo, ideal do eu e gozo para interrogarmos como o belo, ao invés de redimir, pode desorganizar o sujeito.
Sublimação e Contenção: A Ordem Aschenbachiana
Freud, em O Eu e o Id, introduz a noção de sublimação como um dos destinos das pulsões. Trata-se da possibilidade de deslocar a energia pulsional para fins socialmente valorizados – como a arte, a ciência, a religião.
Gustav von Aschenbach é, a princípio, a personificação desse ideal: sua escrita é sóbria, contida, moralizante. Contudo, a rigidez desse superego artístico torna-o vulnerável.
Lacan, no Seminário 7 (A Ética da Psicanálise), propõe que a sublimação eleva o objeto à dignidade da Coisa. Mas quando essa Coisa aparece demasiado próxima, o sujeito colapsa. Tadzio, nesse sentido, encarna o “objeto a” – objeto causa do desejo – e sua beleza angelical desestabiliza a arquitetura simbólica de Aschenbach, que passa da contemplação à fixação.
Narcisismo e Objeto Idealizado
Em Introdução ao Narcisismo, Freud descreve a formação do Eu ideal e do Ideal do Eu. Tadzio é a imagem do Ideal do Eu projetado: juventude, beleza, pureza – tudo aquilo que Aschenbach perdeu ou jamais teve.
Esse movimento espelha o narcisismo secundário, no qual o sujeito investe o outro como espelho narcísico. O desejo não é por Tadzio enquanto sujeito, mas pelo que ele representa: uma completude imaginária que mascara a castração.
Mas a imagem ideal é inatingível. A fascinação vira angústia. Como diz Lacan: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Aschenbach ama o que não pode tocar, deseja o que jamais será devolvido.
Gozo, Superego Artístico e Pulsão de Morte
A transgressão não ocorre no ato, mas no olhar. O desejo é silencioso, mas devastador. A estética apolínea de Aschenbach cede à vertigem dionisíaca, e isso o conduz ao colapso.
Freud, em Além do Princípio do Prazer, introduz a pulsão de morte como tendência à repetição, ao retorno ao inorgânico. A insistência de Aschenbach em observar, seguir e fixar-se em Tadzio é uma forma de repetição pulsional – não visa prazer, mas aniquilação.
Lacan, ao formular o conceito de gozo, o define como aquilo que está além do princípio do prazer – um excesso, um insuportável. O gozo de Aschenbach está em desejar aquilo que o destrói: “a própria imagem do belo pode ser um abismo”, escreve Mann.
Silêncio, Objeto Idealizado e Inconsciente
No final, Aschenbach morre. Morre sem falar, sem agir, sem consumar. Seu desejo não é realizado, mas o consome por inteiro.
A morte, nesse contexto, não é punição, mas consequência do colapso simbólico. Como na melancolia freudiana, o sujeito volta-se contra si, desinvestido do mundo e do Eu.
Lacan vai além: a queda no real implica o desaparecimento do sujeito da cadeia significante. Aschenbach não fala, apenas observa – Tadzio, caminhando na praia, acena em direção ao horizonte.
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A imagem final é quase mística, mas profundamente trágica: a beleza, quando não simbolizável, é devastadora.
Conclusão
A Morte em Veneza não é apenas uma história de paixão, mas uma encenação da falência da repressão, da força do desejo e da violência do belo.
A leitura psicanalítica permite ver em Aschenbach não apenas um homem decadente, mas um sujeito atravessado pela pulsão, pelo ideal e pela morte. Como na clínica, há momentos em que o simbólico falha, e o real irrompe.
Nesse espaço entre o desejo e o gozo, entre a sublimação e a queda, talvez resida a travessia do sujeito. A psicanálise, assim como Mann, não moraliza, mas escuta.
E na escuta do silêncio de Aschenbach, talvez possamos ouvir o eco do inconsciente diante do impossível do desejo.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
